Foi a drag que pariu

Com glitter, contorno e atitude, as drag queens do a luz a uma cidade menos intransigente

Por Odhara Caroline Rodrigues e Hugo Arajo - Edição Identidade - junho de 2015

Malonna retratada em colagem do artista Suriani, em Paris (Foto: Rafael Suriani)

Primeiros passos

Eu não sei qual nome coloco na lista. Diego ou Nöbel? – O garoto de 20 anos perguntou alguns dias antes da festa em que haveria um concurso de lip sync – ou dublagem, se você preferir. A atividade é parte das provas que RuPaul, a famosa drag queen, propõe às participantes de seu reality show, RuPaul’s Drag Race. Aquela seria a primeira vez que Diego se montaria como Nöbel e apareceria em público em São Paulo. O ambiente, pelo menos, era seguro e confortável. As festas com temática drag se espalham pela cidade e eram o lugar perfeito para uma recém-nascida queen se apresentar à sociedade paulistana. “Ela é uma extensão de mim, de certa forma”, Diego explica sobre Nöbel.

Se transformar em uma drag queen leva tempo – e muita maquiagem. Na noite da festa, a mesa de centro da sala do apartamento de Diego estava abarrotada. Lá se acumulavam quatro pares de cílio, uma caixa com 100 unhas postiças, estojos de sombra. Três tipos de pó compacto – e todos serão usados, num truque de maquiagem que é popularizado pelas irmãs Kardashian. “É claro que eu faço contorno. Senão eu sou só um cara de peruca”, Diego assinalou o que pra ele era óbvio. Flores artificiais estão esperando para ser despedaçadas enquanto uma cola instantânea se destaca entre as sombras, rímeis e acessórios. “Minha cola de unha acabou”, Diego lamenta. “Vou ter que usar super bonder. Não dura tanto”.

A drag queen Nöbel (Foto: arquivo pessoal)

Ser drag é exagero, reforça Diego. Ele não acredita na ideia de que ser uma drag seja algo machista, por ser um homem vestido de mulher. “Eu acho que a gente exagera uma ideia de uma personagem feminina, mas não no sentido ruim”, ele explica. “Porque não é uma mulher. É só uma performer”.

Mas ser drag queen não é se fantasiar. “Eu percebi há um tempo, que, conforme você vai se maquiando, você vai mudando o seu comportamento”, Diego explica. “Pra mim, esse é o momento em que você pode colocar para fora os seus desejos, no meu caso, principalmente estéticos. Eu não tô indo pra uma festa vestido de mulher, com uma minissaia, que nem os caras héteros fazem em festas. É mais do que isso”. Ele atribui o olhar que as drag queens recebem à admiração – e ao medo. “Não é natural. Não parece uma mulher. As proporções são diferentes. Ela é grande, é larga. As pessoas ficam confusas, não estão acostumadas com aquilo”.

Ele também deixa claro que uma drag não é pra ser levada a sério a ponto de não se poder brincar com isso. Ela deve ser divertida, engraçada. “Você tá se montando. Você coloca cinco quilos de maquiagem no seu rosto, você prende seu pinto, você não pode beber a noite inteira, você vira uma caricatura gigante que todo mundo admira. Isso é pra fazer piada. É pra tirar sarro”. Diego estabelece que a finalidade de uma drag é entreter.

Enquanto os traços de Diego vão dando lugar aos de Nöbel, ele recorda a importância política de uma drag queen. Em uma época em que a homossexualidade ainda era estigmatizada, elas eram a única via pela qual os heterossexuais tinham contato com a comunidade LGBT. E com o retrocesso que nós estamos vendo hoje, ele acredita que as drags ainda tem a missão de quebrar barreiras sociais. “Você pode brincar com tudo e mostrar que são só pessoas. Pessoas que estão se divertindo e explorando a arte, a performance e o entretenimento de uma maneira diferente”.

Nöbel tem uma ligação com a natureza. Diego relaciona isso à sua infância em Nova Friburgo, cidade carioca no meio da Mata Atlântica. “Ainda bem que vocês vão estar lá”, Diego diz enquanto cola os cílios postiços. “Eu estou muito nervoso. Ninguém vai saber quem eu sou”. Na sua primeira aparição pública, Nöbel estaria com o rosto emoldurado por pétalas de flores artificiais. “Ela tem muita coisa minha”, Diego explica. “Ela é fisicamente as coisas que eu gosto. Esse caráter mais etéreo, mais místico. Ela realmente é drag, é exagero”. Antes de tudo, para ele, Nöbel é uma expressão artística. “Eu gosto que a Nöbel tenha uma imagem de moda. Porque é o meu mundo e é isso o que me interessa em uma drag queen. Uma das coisas que mais me interessa, na verdade”.

A drag queen Nöbel (Foto: arquivo pessoal)

Se o parto de Nöbel pode durar horas e se repete a cada montação, a sua concepção vai mais longe. Diego conheceu o mundo drag por meio de um ex-namorado – que estava montado quando os dois foram apresentados. “Foi o meu primeiro contato, a primeira vez que eu vi uma drag”, ele lembra da ocasião. “Embora a drag dele ainda fosse primitiva, incompleta. Era um cara com maquiagem e peitos falsos”. O embrião do que viria a se tornar Nöbel surgiu em um trabalho que Diego, que cursa moda, fez para a faculdade. “Eu criei uma deusa nômade, ela era azul, tinha uma peruca gigante, um chapéu gigante... Eu olhava para aquilo e pensava que queria trabalhar mais nela. Eu pensei, ‘Já que estou me interessando por drag queens, por que não me montar assim? ’”. No seu aniversário de 19 anos, ele fez uma festa gender fuck (em que os papéis de gênero são desprezados) e se vestiu como Nöbel pela primeira vez. Ele explica que pesquisou muito antes de se montar; assistiu tutoriais de maquiagem para drag, conheceu o RuPaul Drag’s Race, começou a frequentar shows protagonizados por drag queens e aprendeu a esculpir quadris com espuma. “E no meu aniversário, eu fiz tudo aquilo em mim”.

Diego se lembra de uma vez que se montou com seus amigos e foi para uma festa no interior. Ele achava estranho que as pessoas que vinham até ele estavam, na verdade, conversando com a Nöbel. “Aquelas pessoas não querem fazer amizade com você”, ele tenta explicar. “Porque ao mesmo tempo que é você, bom, não é você. É com aquilo que eu criei”. Ele conta quando falou sobre esse sentimento com o ex-namorado que o apresentou ao mundo drag queen. O garoto disse que aquilo era um absurdo, já que ele era, sim, a Nöbel. “Eu sou, mas as pessoas não sabem disso”, Nöbel diz, se olhando no espelho e ajeitando os frios brancos de seu cabelo. “E não precisam saber”.

 

Hoje é dia de festa, bebê!

A pista não estava cheia no segundo andar daquela casa noturna, uma entre tantas na Rua Augusta, provavelmente o terceiro endereço mais famoso de São Paulo (perdendo só pra Avenida Paulista e pra 25 de março). É mais uma edição da Cover Girl, festa comandada pela drag Divina Raio Laser. As drag queens são a principal atração do evento – são elas que dominam a pista. A única mulher no palco, a apresentadora Titi Müller, é chamada carinhosamente de “racha”. Ela é uma das juradas do concurso de lip sync que rola na festa. Nessa brincadeira – que para o primeiro lugar vale uma comanda de 500 reais para consumação na próxima edição da festa – o participante tem que dublar uma música com todas as firulas que achar necessárias.

O que vale em uma Cover Girl é se jogar: no palco se você quiser se arriscar, ou na pista se você só quiser torcer. “Drag é isso, é ser quem você quiser, é ser quem você deseja, e não vem cagar regra na minha montação”, como disse a dona da festa. A única ressalva: se você quer se arriscar no palco, bicha, que seja de salto alto, como as juradas lembraram a uma iniciante na competição que lacrou – mas de all star.

Qualquer um pode se inscrever na brincadeira, até mesmo se você é um heterossexual metido a besta que acha que vai conseguir impressionar as juradas tirando a camisa (spoiler: impressionar vai, mas você não vai ganhar nada). Quem ganhou foi um cara que não estava montado – só usava um salto finíssimo e um casaco de pelos. Ele resolveu valorizar a música nacional e fez uma dublagem ótima da música Tombei, da Karol Conká.

 

São Paulo é uma drag

Anos 80, São Paulo. Madrugada de um fim de semana. Alma Smith, glamorosa como uma drag deve ser, se despede de seu público. Ela embarca no caminhão de lixo que sobe a Consolação em seu trajeto diário e deixa um pouco menos alegre a noite que corre entre as Alamedas Santos, Jaú e Itu.

Quem lembra a cena é o jornalista Vitor Angelo, autor do Blogay, da Folha de S. Paulo. Ele, que alegar ter nascido clubber, foi testemunha do surgimento da cena em São Paulo. Ele foi levado ao Madame Satã, clube paulistano, com 16 anos. Lá tinha todo o tipo de gente e foi na casa em que ele viu, pela primeira vez, dois homens se beijando. E também que viu a artista transexual Claudia Wonder entrando em uma banheira de groselha, cantando Lou Reed e jogando o líquido no público.

Vitor considera que a cena clubber começou pra valer com o surgimento da Nation e lembra da ar glamoroso que revestia os seus frequentadores. “Como nós tínhamos uma apreciação pela questão da moda urbana, das tribos, havia os excessos. Os homens muitas vezes ficavam nos limites entre o que era masculino e feminino”, ele relembra. Foi lá, também, que ele conheceu as pessoas que dariam corpos às famosas drags da época. Após a Nation, foi a vez do Massivo e do Senhora Kravitz serem os lugares da efervescência da noite paulistana, em um ambiente em que não havia limites de gêneros, raças – e foi nessa miscelânea que as drags queens brasileiras nasceram.

Se antes os homens que se vestiam de mulher para fazer performances eram os transformistas, que se limitavam às boates gays, as drag queens agora tomavam conta do asfalto das Alamedas Santos, Jaú e Itú com a rua da Consolação, no que Vitor Angelo compara com o que a rua Augusta representa agora. Era lá o império de Alma Smith, a drag que ia embora todas as noites em um caminhão de lixo, de Juliana Matos e de Marcela Prado, alguns dos nomes que Vitor consegue se lembrar. “Foi uma eclosão”, Vitor explica. “Elas apareceram em grande escala. Elas trouxeram toda essa questão do humor”.

Um humor que era muito necessário. “O Brasil era uma grande província e a gente não queria aquela coisa capenga. A gente queria ser internacional”. Em um mundo em que os livros não eram traduzidos para o português e em que os jovens se reuniam para um ouvir um raro disco importado do New Order, a democracia prometia um “paraíso” – que não chegou. E o quadro ficou pior quando Collor venceu Lula em 1989. “O Brasil já era um país cagado, e aí ia ter um governo cafona”, lamenta Vitor. O futuro presidente e a primeira dama causaram asco em um cena em que o visual era tão determinante. “Aquele playboy cafona com aquela perua estúpida... A gente achava eles horrorosos, era tudo o que a gente detestava”, explica o jornalista  “Pelo menos o Lula tinha uma legitimidade.” O cenário político somado com o a AIDS, que nos anos 80 era chamada de “peste gay”, deixavam aqueles jovens sem perspectiva. O surgimento das drags foi um alívio.

“As drags tinham muito de nonsense, um mundo irreal que era fundamental naquele mundo chatéssimo em que a gente vivia”, diz Vitor. “Por meio do lúdico que elas traziam, a gente tinha esperança... Senão todo mundo teria se suicidado. As drags eram uma coisa muito positiva, porque ser gay era negativo, era a peste “gay”. Elas foram o primeiro sinal de positividade”.

As drags ultrapassaram a cena clubber. Juliana Matos foi parar na capa da Ilustrada, caderno de cultura da Folha de S. Paulo. Na época, a jornalista Erika Palomino trabalhava no veículo e ditava o comportamento da cidade que ditava o comportamento do país, por meio de um jornal que representava a modernidade. Ela também editava a coluna Noite Ilustrada, em que trazia a cena clubber para as páginas de uma publicação. Mas a consagração das drags queens veio mesmo quando elas passaram a aparecer em programas da televisão aberta à tarde.

Vitor atribui às drags o S (simpatizantes) do termo GLS, criado por Suzi Capó. “Houve uma maior tolerância. Sem elas, os simpatizantes não existiriam. Era legal ter amigo gay”. Ele menciona com espanto o fato de Marcelo Dourado, ex-participante do Big Brother Brasil, ter dito durante o reality show que não gostava de gays. “Teve uma mudança de chave. Toda reforma tem a sua contrarreforma. Nós estamos num momento de negação, ainda que seja um avanço. É o fim de um ciclo que começou com as drags. Elas eram muito bem humoradas, então todo mundo sentia uma empatia”. Ele as considera as super-heroínas do movimento LGBTS. “Tem um pouco dessa lógica dos super-heróis dos quadrinhos, sabe? Eu me visto, eu me vingo e eu levo uma mensagem. Foi muito importante porque sem elas não teria nada disso. E foi tudo muito aceito, tudo muito amado”.

Mas Vitor Angelo aponta duas problemáticas da ação das drag queens. A primeira é uma consequência direta dessa vocação para super-herói: elas estão, antes de mais nada, disfarçadas. “Uma drag montada e uma drag desmontada são duas pessoas completamente diferentes. Existe um pouco de armário nisso”. Já a segunda traz tensão dentro da militância LGBTS. Há quem acuse as drag queens de desviarem focos e roubarem protagonismo. “Existe uma irritabilidade por elas tirarem a frente midiática. O rosto que vai sair no jornal e na internet [quando acontece algum ato como a Parada Gay, por exemplo] é o da drag. As primeiras fotos são delas, tirando o protagonismo dos outros militantes”, o jornalista explica. “Elas ofuscam, porque é claro que são muito mais legais. Eu como fotógrafo sei que ela vai fazer alguma coisa muito mais legal e interessante do que um militante de calça jeans, entende”? Outro ponto de atrito é quando as drags assumem a palavra em momentos políticos. “As drags muitas vezes não tem um discurso muito elaborado. Elas se sentem no dever de se expressar politicamente, mas às vezes não conseguem expressar em palavras aquilo que o corpo delas talvez consiga expressar melhor”, Vitor Angelo diz. Em contrapartida, ele destaca a drag queen Tchaka com seu discurso refinado como um expoente do movimento LGBT atual. Ele lembra de ela ter discursado no Beijaço que aconteceu em frente à Ofner em 2010 após um caso de homofobia ter ocorrido no estabelecimento. “Teve gente que ficou completamente irritada por ter sido a Tchaka quem falou. A questão era: ela falou aquilo que eu falaria. Por que não pode ser ela a falar”? Ele afirma que é favorável à voz das drags queens.

No fim dos anos 90, as drags queens deixaram o centro do palco. Vitor Ângelo as viu se direcionando para os guetos gays. Ele cita a boate Blue Space como “bunker”, o espaço de resistência em que as drag queens continuam existindo. Agora elas voltam a ocupar as ruas nos movimentos políticos, em baladas, e estão até na galeria [leia sobre a exposição de Surinani na página x]. “O grande número de jovens que hoje se montam como drags é um sinal de renovação, de que essa estética não se esgotou”, ele comemora. “A volta delas é fundamental, porque elas desafiam certos códigos machistas. Não é fácil você sair montada na rua pra ir pra boate fazer seu show”.

 

No terraço com Malonna

Em uma tarde solar de sábado, no terraço de uma boate localizada na Barra Funda, Malonna está sentada em uma cadeira de madeira, mexendo no seu celular, que possui uma capa rosa com o logo da marca Chanel. Rapidamente, curva o corpo e olha para baixo, onde acontece um bazar de roupas plus size, à procura de sua amiga, também drag queen, Kelly Caramelo. Ao encontrá-la, Malonna dispara: “Kelly, já que não pode ser agradável, pelo menos seja útil, e me traga uma bebida”.

Ela se ajeita na cadeira, arruma os longos fios de sua peruca loira e nos diz: “Manda!”. Com um vestido com listras vermelhas e um decote central, vários colares – um de pérolas, outro com pingente da Chanel, Malonna fala com paixão sobre a “atividade” – como faz questão de frisar – que é ser drag queen. Quando recebe seu gim, se volta para a parte de baixo da casa, chamando Kelly para a entrevista. “A Kelly tem coisas maravilhosas para contar”.

Malonna é uma faceta artística do designer de moda André da Silva, que começou a se montar em uma brincadeira entre amigos. “Não era exatamente drag. Era uma outra vibe, uma coisa mais clubber, diversão, gender fuck”, conta. A primeira performance oficial, completamente drag, foi ao som da música Hung Up, da Madonna, em uma festa universitária. “Eu estava usando apenas um maiô vermelho, uma legging arrastão e uma peruca de festa de 15 reais. Foi um acontecimento!”.

Malonna performa na abertura da exposição It's not personal, it's drag (Foto: arquivo pessoal)

O primeiro contato de André com a estética drag foi ainda criança por meio do show de calouros de Silvio Santos. “Eu achava que transformista era qualquer coisa, mas nunca imaginei que eram homens vestidos de mulheres”, conta. Depois, já adolescente, ele conheceu o trabalho de RuPaul, famosa na época pela canção Supermodel. Quando entrou na faculdade de design de moda, André passou a pesquisar mais sobre figurino, caracterização e maquiagem. “Eu falei: nossa, as drag queens fazem umas maquiagens incríveis”. O interesse o levou a procurar contato com outras artistas, o que culminou finalmente na profissionalização, no início de 2007.

Malonna discotecara mais cedo no bazar. Desde então, não parou e veio direto para a entrevista. Seu gim ainda permanece praticamente intocado sob a mesa. Também só deu uma mordida no queijo coalho tostado, trazido pelo seu marido, e abandonara a comida. Sua atenção está toda voltada para as perguntas. Quando fala sobre a definição de drag queen, adquire um tom sério, procura as palavras, sempre inquieta, de modo a não cair no senso comum.

“Eu acho que drag queen é uma atividade. Pode ser profissional ou não, mas é algo que a pessoa faz. Não é algo que a pessoa nasceu ou se entende como identidade”. Malonna acredita que faz drag para o mundo, deste modo adquire uma postura ativa em relação à sociedade. “A drag não é uma entidade, ela não representa. Ela age. Tem todo um preparo corporal, visual, de voz. Tentamos desenvolver habilidades que às vezes não temos. Só para facilitar que essa persona consiga alcançar o público, da forma que a performance propõe”, conta.

Mesmo montado como Malonna, André toma a frente de sua criação para falar sobre identidade e reiterar que não existem cisões entre ele e sua drag. “Ela é uma faceta minha. Não tem nada que a Malonna tenha que eu, André, não tenha antes. Porque o material para construir a Malonna é o André”. Ele explica que o processo de criação desta persona envolve uma série de referências externas: imagens, mulheres que o influenciam, espetáculos, filmes e músicas. Mas nada disso, sozinho, compõe Malonna.

“É muito fácil para as pessoas compartimentalizarem a gente, se pensarem que é algo dissociativo. Não são múltiplas personalidades, é consciente”. Tal consciência, se explicita no momento da fala, no qual ele deixa Malonna de lado para assumir uma postura mais séria e analítica. “Se só fosse Malonna, eu estaria bebendo e contando piadas”, explica. “Não tem cisão. Se eu pular de um prédio vestido de Malonna, eu não vou acordar na cama no outro dia vestido de André. É a mesma figura, o mesmo corpo, mesmo que eu assuma posturas diferentes nessas situações”.

Depois do raciocínio, André estranha o exercício de metalinguagem. “Acho estranho falar de drags na terceira pessoa”, desabafa. Ele arruma os fios da peruca loira que insistem em tampar sua visão e diz: “Eu falo demais, né?”. Kelly Caramelo, que subira até o terraço para participar da entrevista, brinca: “Deixa os cachorros da vizinhança latirem agora. Quando Malonna começa a falar, até os cachorros param de latir”. A faceta de drag queen logo volta a André: “Mas é porque a Malonna fala coisas tão geniais que até os cachorros ouvem. Malonna é Jesus Drag”.

O papel político das drags é outro tema que faz com que Malonna se deixe levar na fala, parecendo esquecer que aquela conversa é uma entrevista, analisando cuidadosamente cada aspecto, sem respostas prontas ou sintéticas. “A política, como organização da sociedade e postura da pessoa diante do mundo e do que ela se depara, é uma ação cotidiana. E, nesse sentido, falar que drag não é político, não é só inocente como é pilantra”, explica.

Malonna acredita que toda pessoa no mundo é política. A presença de cada indivíduo, segundo ela, força o ambiente a se organizar de uma determinada forma. Seja uma pessoa com vários piercings, coturno e roupa preta. Ou uma drag queen. “A presença dela vaifazer com que as pessoas que estão ao redor dela tenham que pensar a respeito disso”, afirma.

A apresentação da drag, seu figurino, também reflete a sociedade e seu momento político. “Se você pegar a drag dos anos 1970, o visual é muito mais sujo, mais preocupado com ser impactante do que ser bonito”. Esta década foi marcada por uma efervescência cultural que pregava a liberdade sexual, deste modo, os figurinos buscavam isso.

Já nos anos 1980, a onda não era muito drag, e sim de se vestir de objetos, de coisas. As pessoas pintavam seus corpos e iam às festas. Saíam vestidas de eletrodomésticos. “Dizia muito sobre o espírito da época que era aproveitar a vida e celebrar”, conta Malonna. Na década de 1990, o visual da drag atual começa a se desenhar, com as top models, as top drags e a busca pela beleza.

“Eu acho que as drags de hoje não pensam muito nisso, mas a gente se apresentar bonita demais, na verdade, diz muito sobre a obsessão com a forma do corpo e com a nossa sociedade de consumo”. Como acontecera nas outras décadas, o visual sinaliza para onde a sociedade está caminhando e o que ela considera importante. “Mesmo que a gente não verbalize, o fato de eu estar me apresentando como uma super mulher, muito produzida e bonita, está dizendo, além de outras coisas, muito a respeito do valor que colocamos nisso”.

No entanto, Malonna acha que a ação das drags queens é de destruir, mesmo quando elas concordam. Deste modo, elas estão muito bonitas, mas, ao mesmo tempo, estão zombando disso. “É uma coisa meio iconoclasta essa ação que a gente propõe”, conclui.

 

Dê um rolê (em Paris)

Do outro lado do Atlântico, em Paris, o artista paulistano Rafael Suriani começa a colar ilustrações de drag queens brasileiras pelos muros da capital francesa. As pinturas, que podem atingir até três metros, ressaltam a beleza e o colorido típico das drags.

De passagem por São Paulo em abril, Suriani abriu a exposição “It's not personal, it's drag”, na Tag Gallery, no centro da cidade. A mostra reunia originais e fotografias de suas intervenções. Ele também aproveitou para espalhar seus lambe-lambes pela capital e ilustrar drag queens brasileiras. Agora, uma nova etapa do seu projeto já está em ação, com as artistas brasileiras invandindo as ruas parisienses.

Suriani conta que sempre foi fascinado pelo universo drag. “Quando comecei a frequentar os clubes noturnos de São Paulo no fim dos anos 1990, me deparava com figuras fantásticas, que pareciam saídas de contos ou de outros mundos”. O desejo de fazer uma série só com drag queens veio por motivos políticos. Em 2013, a França discutia projetos de leis que garantiam igualdade de direitos para casais do mesmo sexo. Como resposta, uma série de manifestações, organizadas por grupos conservadores, tomaram as ruas para impedir o avanço das leis. “Senti a necessidade de expressar a beleza da diferença, a aceitação e a liberdade de expressão, de forma alegre e positiva. Esses são justamente valores difundidos pela cultura drag”, explica o artista que mora em Paris há oito anos.

Ao fixar suas ilustrações em espaços públicos, onde todos têm acesso, Suriani consegue propor um questionamento fora dos espaços de arte, geralmente restritos a uma elite intelectual. “Quanto mais a sociedade se deparar com imagens que 'falam' desses temas, mais eles serão debatidos. A arte e a cultura aumentam o alcance do indivíduo à reflexão e à formulação de uma opinião crítica sobre o mundo”.

Malonna, Rafael Suriani e Kelly Caramelo (Foto: arquivo pessoal)

Durante a passagem de Suriani pelo Brasil, Malonna foi retratada pelo artista, além de ajudá-lo com algumas colagens. Segundo ela, a série de Suriani pega a imagem das drags – “ a afirmação mais poderosa que elas têm” – e obriga as pessoas a lidarem com essas figuras, ao colocá-las no lugar de trânsito. “Ele tira isso do silêncio, do escuro, do recanto do night club e coloca no lugar que as pessoas que tentam ignorar a comunidade LGBT transitam”.

Suriani vê a imagem das drags como símbolo de resistência. “São porta-vozes de todos aqueles que sofrem preconceito ligados a gênero. São como heroínas daqueles que não se encaixam nos moldes rígidos da sociedade”, opina.

 

E sai de salto por aí...

O trabalho de Suriani serve como reflexo de um movimento que vem acontecendo com as drag queens. Aos poucos elas abandonam os espaços privados e começam a circular pela cidade, apropriando-se dela. Este assunto, em especial, parece empolgar Malonna, que ajeita a peruca enquanto fala, já no final da tarde de sábado.

“Eu acho o máximo essa nossa presença por todos os lugares. Isso mostra que, sim, nós estamos aqui e vocês vão ter de discutir esse assunto. Que seja falar mal, mas você estará discutindo um tema que até então era invisibilizado”, afirma. A presença das drags fazendo coisas banais, como pegar transporte público, gera uma efervescência e, por consequência, leva a sociedade a pensar sobre estes temas. “A comunidade LGBT ainda é um lugar invisível. Ela não é falada, não é vista. Você só tem que lidar com isso quando é o seu filho que sai do armário, dentro da sua casa. Ou quando é o filho da moça da novela que você se identifica que sai do armário lá. Se não, você não vai lidar”, afirma Malonna.

O aumento de interesse pelo tema drag queen é evidente. Na televisão, o programa RuPaul's Drag Race já está na sétima temporada. Nele, drag queens passam por uma série de desafios e são julgadas pela veterana RuPaul, até só sobrar uma, que ganha projeção internacional. O reality tem fãs fiéis, que consomem não só o produto televisivo, como os derivados dele, além de acompanhar, pelo mundo, as perfomances das artistas reveladas lá. As colagens de Suriani retratam algumas participantes do programa, como Raven e Adore Delano.

No entanto, Malonna explica que “o papel de RuPaul não é messiânico, nem de vetor”. Segundo ela, o interesse por drag queens já era uma demanda latente na sociedade, RuPaul só observou esse fenômeno e capturou esse público. “Drag queen já tinha, estava latente. O Brasil tinha drag queens profissionais muito antes do programa”, explica.

Para ela, a importância do reality está na divulgação do trabalho das artistas e não na profissionalização. “Gente que não iria pra dentro de uma boate pra ver uma drag, passa a frequentar, porque agora ela entra dentro de casa pela televisão. Mas daí a contribuir para profissionalizar é outra história”, opina.

Depois de concluir sua explicação, Malonna se ajeita na cadeira e diz: “Vocês queriam encerrar comigo falando mal da RuPaul? Já coloca a polêmica de cara, que aí já dá muitas visualizações. 'Drag queen brasileira fala mal de RuPaul'”, diz imitando a manchete de um jornal. Ela pega a bebida e o queijo coalho que estavam em cima da mesa durante a entrevista e finalmente começa a comer. “Vai ser bom. Adoro quando as pessoas ficam falando de mim”.




A Revista Babel é uma publicação semestral dos alunos do curso de Jornalismo da Escola de Comunicações e Artes da USP

Endereço Av. Prof. Lúcio Martins Rodrigues, 443, Bloco A. Cidade Universitária, São Paulo - SP CEP: 05508-900 | Telefone: (11) 3091-4211