Identidade secreta

Por Lorena Pimentel Villaça - Edição Identidade - junho de 2015

Quem nunca se sentiu inspirado ao ler um livro, ver um filme, acompanhar quadrinhos ou mangás? Quem não tem seus personagens favoritos? O grande trunfo da ficção é que ela nos possibilita viver várias vidas ao mesmo tempo. Podemos estar em diversos lugares, ter qualquer característica de personalidade, viver grandes aventuras ou grandes amores e tudo isso ao clicar no botão de play ou virar a página (em tempos modernos, o clique também vale para os livros e quadrinhos, deve-se dizer). Então nada mais natural do que nos sentirmos inspirados, certo?

Personagens fazem parte do nosso imaginário cultural coletivo. Personagens de quadrinhos, super-heróis, por exemplo, são tão enraizados na nossa cultura que a cada ano mais e mais filmes, séries e livros sobre eles saem na mídia e ainda são consumidos. Ao mesmo tempo, a ficção nos traz cada vez mais ícones. Ícones de gerações, ícones imortais em suas bolhas da ficção. Nada mais natural, portanto, do que a tentativa de trazê-los à vida, isso é, transformando-nos neles.

Entra aqui o cosplay. Como definição, é a abreviação de costume play, ou seja, brincar com fantasias. Mas muito além de uma máscara do Homem-Aranha ou um vestido de princesa que conhecemos quando crianças, o cosplay busca a incorporação quase profissional de um personagem. Tradição de fãs de mangás - os quadrinhos japoneses -, consiste em tentar imitar não só a roupa de um personagem, como também interpretá-lo. A prática se difundiu com o crescimento da cultura nerd a cultura pop. Hoje, qualquer convenção de fãs (sejam eles de animes, quadrinhos, Jornada nas Estrelas ou Senhor dos Anéis) inclui pessoas desfilando como seus personagens favoritos. Encarnando a figura, literalmente.

 

“Do it yourself” e os improvisos do cosplay

O cosplay pode parecer, de fora, algo amador e até um pouco juvenil. Que fique claro que essa aparência engana. Mesmo que possa ser uma tradição aproveitada por qualquer um, o cosplay é um passo a mais de qualquer fantasia. E um dos pontos importantes é que dá trabalho. Em geral, cosplayers montam suas próprias fantasias, comprando peças inusitadas ou costurando eles mesmos. Não é como se o guarda-roupa do Luke Skywalker estivesse na vitrine do shopping ou a blogueira de moda do momento postasse fotos do look du jour da Viúva Negra. O trabalho exige muita dedicação e muito improviso.

Por ser uma cultura difundida ao redor do mundo, até existem lojas especializadas em artefatos para cosplays, mas os praticantes a consideram caras e preferem, muitas vezes, criar as roupas eles mesmos. Para tanto, entra uma dose de improviso: brechós, aprender a costurar, reciclar o que achar em casa. Isso não acaba na fantasia em si: alguns personagens têm objetos que também devem estar inclusos no cosplay.

É o caso de Natasha Moura, que conheço em um evento que celebra a cultura nerd na Escola Politécnica. A estudante de Mogi das Cruzes veste uma roupa elaborada, mas o que mais chama a atenção não é a escola de trajes. Nem a peruca azul elétrica, nem as orelhas de elfa. O verdadeiro destaque do cosplay é a arma que ela carrega. O objeto é quase do seu tamanho e poderia ser um objeto de um set de filmagem de um longa-metragem de ação hollywoodiano.

Enquanto sentamos para a a entrevista, um rapaz se aproxima dela e pede para tirar uma foto. Ela levanta a arma e posa como em uma cena de luta. Perguntada sobre as dificuldades do cosplay, Natasha responde que a arma é da autoria dela mesma, assim como o resto da roupa. Feita de papel machê e cartolina, a arma na verdade não pesa nada. Mas você não saberia disso à distância, com os toques de metal envelhecido que ela adicionou com tinta guache.

 

Se todo personagem tem uma história de origem ...

Como é que alguém começa a se interessar por cosplays? Perguntei a duas cosplayers e ambas tiveram respostas semelhantes. Halina Miranda, que é ligada no universo da cultura japonesa e faz cosplays de mangás e animes, me diz que começou na companhia de uma amiga. Ela seguiu seus interesses pela cultura pop japonesa e começou a frequentar eventos de fãs. Foi aí que conheceu pessoas que faziam cosplays e se sentiu fascinada pela ideia. Rukia, de Blach, Mako de Kill La Kill, Saya Otonashi de Blood + e Hatsune Miku são personagens que ela cita como preferidas para fazer cosplay. E, claro, frisa ela, Marceline do desenho animado queridinho Hora da Aventura.

Dani, também conhecida como Wiin Wonka na internet, varia mais o tipo de personagem que escolhe: “Kasane Teto (UTAU/Vocaloid), Susan Test (Johnny Test), Eruka Frog (Soul Eater), Suzumiya Haruhi (Suzumiya Haruhi no Yuuutsu -versão Extravaganza), Domino (X-Force), Luna Lovegood (Harry Potter)”, diz ela. E Fionna, também de Hora da Aventura. Ela começou a fazer cosplay “há mais ou menos dez anos, depois de algum tempo indo à eventos com frequência me despertou essa vontade. Principalmente porque nos eventos em que frequentava cosplay não era algo tão popular, desde então me apaixonei por isso.” Ela concorda com a vontade de encarnar alguém da ficção: “é muito legal você ter o ‘gostinho’ de se tornar um personagem”, explica.

Nem sempre a reação de quem está de fora dos fandoms - comunidades de fãs - é positiva em relação ao cosplay. “No começo me olhavam como se eu dissesse ter nascido em Gallifrey,” diz Dani, fazendo referência ao planeta de Doctor Who, de onde vem o personagem principal, um alien. Léxico nerd para explicar o estranhamento. Ela continua: “chegavam a fazer um sonoro ‘AHN?’e eu tinha que me desdobrar para explicar, porque as vezes tinha que explicar até mesmo o quê era animê”. Mas a carioca acredita que o estranhamento tenha diminuido com o avanço de convenções nerds e a popularização dos personagens. “Estão dando muito mais visibilidade para cosplayers do que antes”, conclui.

Para Halina, o estranhamento também é recorrente. Os que conhecem mais a fundo o cosplay a questionam sobre os custos de roupas, acessórios, perucas e - porque cosplayers vão a fundo na tentativa de se assemelhar fisicamente aos personagens - até lentes de contato. “Me chamam de rica”, diz, a respeito dos conhecidos que entendem o processo. Já entre os que estranham, ela reclama do tom paternalista usado nas críticas ao seu hobby: “claro, sempre tem aqueles que te olham torto por acham besteira ou infantilidade”.

 

O conservadorismo cultural contra-ataca

Cosplayers são, então, reconhecidos por seus esforços em tentar atingir ao máximo a semelhança com o personagem escolhido. Mas, para isso, é necessário tempo e dinheiro para montar as fantasias. Com a popularização dos eventos de fãs, no entanto, a prática foi difundida para além do estereótipo nerd e encontramos todo o tipo de pessoa usando fantasias em níveis diferentes de comprometimento.

Na internet, é fácil encontrar galerias de fotos de pessoas fazendo cosplays. Em geral, com críticas. Natasha me explica que mais de uma vez, teve fotos suas tiradas em eventos e postadas na internet sem sua permissão. Essa atitude geralmente vem acompanhada de comentários sobre a qualidade da fantasia e da pose em fóruns de fãs. E, em verdadeira alusão à cultura da internet como um todo, anonimamente.

O efeito problemático dessa prática se demonstra no conceito de “cospobre”. Neologismo internético, é gíria para se referir a cosplays de qualidade inferior, mais baratos e que não parecem fantasias profissionais. Nas tais galerias de cosplays, existe a distinção clara entre os verdadeiros cosplayers, que se dedicam a construir a fantasia perfeita e os outros, os que ousam atender um painel sobre quadrinhos usando máscaras da 25 de março e camisetas improvisadas. No universo cosplayer - e, de certa forma, no universo nerd em geral - existe uma cobrança para que se gaste tempo e dinheiro, criando uma barreira silenciosa, mas evidente entre os praticantes.

O mesmo pode ser aplicado às mulheres cosplayers. Cinthia Vieira, também conhecida como Fuinha, pratica cosplay e frequenta encontros de fãs. Perguntada sobre machismo nesses ambientes, ela cita rapidamente a existência do termo cosputas. Usado, claro, de forma derrogatória, e geralmente por homens para se referir a mulheres que encarnam personagens mais sensuais. Conversando sobre isso com a Natasha, ela conta: “já deixei de fazer cosplays de personagens que gosto porque a roupa era muito curta”. Não é só ela que reclama desses comentários. Halina diz que muitos deles vêm de outras mulheres: “ainda tem muita menina com preconceito com as outras que curtem a mesma coisa, taxação de ‘cosputa’ pelo falo da personagem ser sensual”.

Dani se sente confortável na presença de outros cosplayers, já que eles entendem que é uma arte, uma expressão cultural. Mas é nos eventos maiores e mais gerais que ela se sente vulnerável: “foram incontáveis as vezes em que ouvi um ‘gostosa’ quando alguma colega desfilava ou se apresentava. E até para mim, que nem faço personagens sensuais”. Ela acredita que a situação só vai mudar quando os fãs entenderem que “quem está no palco ou ali tirando uma foto com eles é uma artista e não a personagem das fantasias dele. Respeito é imprescindível”. Halina explica que o assédio é muito comum. “A pessoa pede para tirar foto com você dai ela começa a botar a mão na sua cintura, quer te abraçar pelo falo de gostar da tal personagem”, diz ela. Como se sente desconfortável com essa costume, ela faz questão de chamar a atenção dos homens que a tocam sem permissão: “não sou obrigada a estar abraçando ele pra tirar foto”.

 

Cosplay suave: o character bounding

Mesmo com todas as restrições e todo o envolvimento do universo dos cosplayers, não há como negar: os personagens da cultura pop fazem parte das nossas vidas. É com esse princípio que surgiu o character bounding. Pense nisso como um cosplay casual. Ou seja, ao invés de tentar se transformar no ícone da ficção, os praticantes do character bounding trazem a inspiração deles para o dia-a-dia. Nascida, claro, na internet, essa prática não envolve perucas elaboradas nem grandes armas de cartolina. Em seu lugar, encontramos uma curadoria de moda para fazer referência a personagens. Talvez não seja prático usar um vestido de baile por aí, mas se você quiser incorporar a Cinderela na vida, dá para trazê-la ao mundo contemporâneo com roupas e acessórios escolhidos a dedo. E, já que talvez se fantasiar de rato seja um pouco demais para o trabalho, uma blusa vermelha de bolinhas brancas faz a Minnie.

 

Por trás das máscaras


(Foto: Tumblr|c0lleefl0wer)

Talvez algo de mais fascinante sobre a cultura do cosplay é que, ao invés de servir como um disfarce, serve para a reafirmação da identidade de quem está por trás. Dani, Cinthia, Natasha e Halina me contam que são envolvidas com a cultura nerd, que desenham, leem mangás, assistem séries e gostam de literatura. Ao escolher personagens para encarnar, elas procuram aquelas em quem se reconhecem de alguma forma. Mais que uma expressão artística, o cosplay é uma manifestação entusiasta de identidade.




A Revista Babel é uma publicação semestral dos alunos do curso de Jornalismo da Escola de Comunicações e Artes da USP

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