Gosto de sexo? Sim. Falo sobre isso? Nem sempre.

Mulheres de diversas cidades do país contam porque, muitas vezes, não conseguem expressar seus desejos sexuais para os parceiros - e até para si mesmas

Por Ana Paula Souza - Edição Vozes - novembro de 2015

Bianca A., 23 anos, é vendedora em uma loja de departamentos de Maringá, no Paraná, e durante muito tempo não teve a vida sexual que esperava. Ela não sentia receptividade dos parceiros para falar sobre seus desejos sexuais. A advogada T.C., que prefere ter o nome omitido por medo de expor a sua privacidade, também é uma dentre as várias mulheres que não conseguem falar abertamente com o parceiro sobre as fantasias que fazem parte da sua sexualidade. Ela atribui esse tabu ao fato de que seu namorado sempre teve uma postura muito conservadora em relação ao sexo e costuma entender os seus desejos como um “excesso de libido”.

No entanto, a postura de um parceiro não é o único motivo para que mulheres como Bianca e T.C. tenham dificuldades para expressar a própria sexualidade: a pressão familiar, a moral religiosa, a culpa, compreensões tradicionais sobre a prática sexual e os estereótipos em torno do sexo feminino também aparecem como grandes vilões da expressão dos desejos das mulheres, e não apenas com os parceiros, mas, muitas vezes, até consigo mesmas. E o caminho para que se tornem donas do próprio prazer está longe de ser fácil.

 

Uma questão de criação 

Enquanto a sexualidade masculina é estimulada desde quando os homens ainda são meninos, quando seus pais lhes dão as primeiras revistas masculinas, a maior parte das mulheres cresce sem receber estímulos para conhecer a própria sexualidade. Quando começam a ter curiosidade, por exemplo, sobre o clitóris, as meninas costumam ser reprimidas. “Não faz isso, menina, fecha a perna” é uma frase comum de ser escutada pelas garotas logo que começam a tocar o próprio corpo.

Historicamente, quando o homem cresce, é esperado que ele desenvolva uma postura de conquistador, chegando ao extremo de, muitas vezes, ser levado pelos próprios parentes a conhecer prostitutas para o despertar da sua sexualidade. Mas, com a mulher, isso não acontece: mesmo com toda a revolução comportamental, ainda é como se o desejo feminino não existisse e nem precisasse ser despertado. Para muita gente, é inimaginável que algum parente dê a uma garota um vibrador para que ela possa descobrir o que é ter um orgasmo.

A moral religiosa exerce uma grande influência nesse processo. De acordo com a psicanálise, a partir da religião a sociedade tende a acreditar que as mulheres só podem se encaixar em dois perfis: ou no de Virgem Maria ou no de devassa pecadora. Assim, é como se, para ser admirada e respeitada, a mulher não pudesse ter desejo sexual. E, quando esse desejo lhe é permitido, é para satisfazer o desejo masculino. Isso se reflete, por exemplo, nas capas das revistas femininas, que trazem matérias como “30 maneiras de satisfazer seu homem na cama”, e não “30 maneiras para você descobrir o seu próprio prazer”.

Com isso, muitas garotas crescem sem conhecer o próprio corpo, sem entender os próprios desejos, e acreditando que, acima do próprio desejo, está o desejo do parceiro.

A estudante R.C. pediu para ser chamada de Nina. Aos 18 anos e moradora do Rio de Janeiro, Nina tem uma personalidade forte, mas um momento difícil logo no começo de sua vida sexual a deixou um pouco fragilizada. “A minha primeira transa foi aos 16 anos, com um rapaz que eu namorava na época. Foi uma relação sexual feita sob pressão. O meu namorado dizia que, se eu o amasse de verdade, eu transaria com ele. Eu não estava a fim de transar, mas estava inserida em uma relação abusiva e eu achei que tinha que ceder. Eu gostava muito dele e ele me usava como objeto. Doeu sim, e eu me senti usada. Na época, eu não estava preparada e fui forçada a fazer algo que eu não queria”.

Apesar do trauma, a prática sexual é um dos principais interesses da vida de Nina atualmente. No entanto, ela só se masturba uma vez ao mês e, ao se masturbar, sente uma grande culpa. Lembra que, após a sua primeira masturbação, também aos 16 anos, ficou por muito tempo se perguntando o porquê de ter se masturbado e sentido vergonha. Embora ela saiba que a masturbação deveria ser uma prática normal para as mulheres e um meio de descobrir o que lhe dá prazer, ela não se sente livre para isso.

Mas por que Nina não se sente livre para descobrir o que lhe pode ser prazeroso? Porque sua sexualidade foi reprimida pela família. Por exemplo, por causa de sua mãe, Nina tem dificuldades para falar sobre o desejo por sexo anal. “A vida toda minha mãe me ensinou que mulher que faz sexo anal não será respeitada e que isso é coisa de ‘piranha’. Não que eu acredite nisso, porém, eu não me sinto confortável falando sobre. No entanto, gostaria de me sentir, porque sei que é tão natural quanto qualquer coisa no sexo”.

M.R. também tem medo que alguém a descubra e por isso prefere que sua identidade seja omitida. Ela é estudante de psicologia, tem 26 anos e mora em Itabuna, na Bahia. Mesmo sendo discípula de Freud, que defendeu que a prática da masturbação pode ser positiva para as mulheres, M.R. não se masturba. “Não tenho essa prática, porque não acho interessante. Também tenho medo e vergonha. Por que medo? Medo de me tonar auto-suficiente e esquecer do prazer a dois”.

Entretanto, se hoje, ao contrário de M.R., Bruna Freitas pratica a masturbação sem culpa, vê essa prática como algo saudável para os relacionamentos, e consegue falar sobre a sua vida sexual e seus desejos com uma certa naturalidade, no passado não foi bem assim. Estudante de enfermagem e moradora de Santo André, em São Paulo, a universitária de 18 anos atribui à criação familiar e à moral religiosa uma grande hesitação no começo de sua vida sexual. “Minha criação foi num ambiente muito religioso, onde obviamente qualquer coisa relacionada ao prazer feminino e ao sexo era um tabu muito grande, visto como uma prática feia, suja e extremamente pejorativa”.

O início de sua vida sexual se deu aos 10 anos, quando começou a se masturbar. “Eu tinha muita curiosidade sobre sexo e ficava pesquisando vídeos na internet. E lembro que, em um deles, vi uma mulher se tocando e na hora pensei que não havia motivos para não tentar também, já que eu também era uma menina e tinha condições de fazer aquilo. Não sabia muito bem o que estava fazendo, mas tentava copiar os movimentos que a mulher do vídeo fazia. Não senti nada muito bom, mas também não tinha sido ruim. Acabei gostando e resolvi tentar outras vezes”.

No entanto, nesse começo de vida sexual, Bruna prometia sempre que pararia de de se masturbar, porque achava extremamente errado uma mulher se masturbar e sentia muita culpa. A relação de intimidade consigo mesma e a abertura para falar sobre sexo foi se intensificando em Bruna à medida em que foi começando a entender melhor o que a prática da masturbação significava. Com o tempo, conseguiu desconstruir boa parte de seus tabus. “Quando você se dedica a conhecer o seu corpo, tocar-se e explorar as sensações que podem vir a ser sentidas, você quebra uma barreira entre você mesma e seu autoconhecimento. Você descobre seus pontos mais sensíveis, os mais excitáveis, e o mais importante: passa a entender que o desejo sexual é natural, uma conexão consigo mesma, entre você e aquilo que te faz sentir prazer - e ninguém melhor do que nós mesmas para sabermos do que gostamos”.



Medo de julgamentos 

Da cidade de Lorena, no interior de São Paulo, J.D. prefere não ser chamada pelo nome verdadeiro. “Como sexo é um tabu na nossa sociedade, principalmente para as mulheres, prefiro não me identificar para não ouvir ou receber comentários desagradáveis dos que me conhecem”.

J.D. não sabe quais são as suas fantasias sexuais. “Sempre me senti mal por isso. Tudo o que eu lia, dizia que pessoas com bloqueio sexual não conseguiam expressar suas fantasias. Eu não queria ter bloqueio sexual e não sentia que eu tinha, então precisa inventar uma fantasia, para ser rotulada como normal. Aí fingia que eu tinha as fantasias típicas: fazer sexo em tal lugar, em tal posição, em isso ou aquilo, desse ou daquele modo, com essa ou aquela roupa/pessoa. Depois de muito refletir, concluí que tudo bem eu não ter fantasias sexuais, mesmo que as pessoas dissessem que eu deveria ter”.

Estagiária, estudante e mãe em tempo integral, Andrea Dória tem 29 anos e mora em São Paulo. É chamada assim por causa da música homônima da Legião Urbana, que diz “Quero ter alguém com quem conversar/ Alguém que depois não use o que eu disse/ Contra mim”.

Andrea teve sua primeira masturbação aos 21 anos. “Já tinha a vontade, mas nunca havia conseguido me tocar, talvez por toda pressão do ‘errado’ que a mulher leva. Foi relativamente difícil me desvincular disso. Antes de o fazer eu achava completamente desnecessário e ‘vulgar’. Depois que iniciei, me senti bem e satisfeita comigo mesma e hoje percebo que tenho um maior conhecimento e controle sobre o meu corpo”

Juliana Almeida também não se incomoda em ser chamada pelo nome verdadeiro. Aos 20 anos, é estudante de Jornalismo e mora em São Bernardo do Campo, em São Paulo.  Juliana se masturba diariamente e seus momentos de intimidade lhe dão tanto prazer quanto uma transa com o namorado. Sua primeira masturbação aconteceu aos 12 anos e, para ela, foi uma experiência totalmente diferente descobrir uma parte nova de seu corpo que lhe permitia sentir prazer sozinha. 

No entanto, apesar de gostar de sexo, Juliana não conseguia falar sobre abertamente sobre no começo de sua vida sexual, por ter medo dos julgamentos das outras pessoas. Porém, conforme foi crescendo e conversando com algumas amigas, viu o quão normal era poder falar sobre isso, inclusive, sobre seu desejo de dominação e sua atração por outras mulheres.


Não, o prazer delas não precisa ficar em segundo plano 

Cibele Freitas mora em Barretos, no interior de São Paulo. Tem 29 anos e sua rotina é dedicada a cuidar da avó, que tem câncer. Cibele nunca teve travas em relação ao seu próprio prazer. “Eu me masturbo desde os 14 anos. A primeira vez foi porque eu li em uma revista sobre masturbação feminina e quis experimentar. Cheguei falando pras amigas na escola no outro dia”. Ao longo de sua vida sexual, Cibele nunca conseguiu se relacionar com alguém que reprimisse sua sexualidade e acha estranho não poder se sentir livre para expressar a própria sexualidade.

Quando Maria M., 26 anos e estudante de mestrado, começou a se masturbar, não sentia exatamente culpa, mas se sentia um pouco ridícula fazendo aquilo. No entanto, ter se masturbado promoveu uma revolução na maneira como ela compreendia o próprio prazer. “Me masturbei pela primeira vez, de chegar ao orgasmo mesmo, aos 20 anos. Estava há muito tempo sem transar e comecei a me tocar. Estava no meu quarto, de madrugada, Acho que nunca fiquei tão molhada na vida”.

Naquele dia, Maria percebeu que nunca tinha gozado de verdade e que, muitas vezes, por ter vergonha de se descobrir e não conseguir expressar o que queria sexualmente, seu prazer acabava ficando em segundo plano: “Antes de começar a me masturbar, meu clitóris era quase esquecido na hora do sexo. Eu tinha aquela vontade doida, mas não passava com o final da penetração. A masturbação fez eu enxergar o poder que tem ali e a estimular a expressão dos meus desejos e fantasias também. Hoje, me sinto satisfeita”. 

Para Maria, o principal de toda a experiência foi ter se descoberto dona de seu prazer. “Minha vida sexual atualmente é super casual. Às vezes encontro alguém em uma festa e, se rola vontade, transo já na mesma noite. Se rola uma química maior, nos encontramos mais vezes, mas alguns nem faço questão de ver depois. Se o cara for um machistinha, por exemplo, nem saio mais com ele. Gosto de sexo sem compromisso. Às vezes a gente acerta, às vezes erra, mas o importante é sempre usar preservativo”.

Maria já fingiu orgasmos? “Não posso dizer que era fingimento, eu não sabia o que eram orgasmos antes de me masturbar. Hoje em dia não faço mais isso: o cara tem que saber que eu não tô gostando”.




A Revista Babel é uma publicação semestral dos alunos do curso de Jornalismo da Escola de Comunicações e Artes da USP

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