Bola pra frente, Luizão!
Por Anaís Motta - Edição Trabalho - maio de 2015

Luiz Alberto tem 48 anos, é casado e pai de duas filhas. Morador do Tatuapé e torcedor fanático do Palmeiras, Luizão - como é chamado pelos amigos - adora assistir aos jogos do seu time, principalmente quando acompanhado de uma boa cerveja e petiscos gordurosos. “Aos finais de semana tá liberado!”, ele diz - e está certíssimo.

Se perguntarem a ele sobre seu trabalho, porém, Luizão provavelmente ficará em silêncio por alguns segundos, e responderá com um olhar conformado: “Trabalho? Bom, eu tinha um, mas não tenho mais”. É… Agora, ele é parte dos 6,8 milhões de brasileiros atualmente desempregados - ou “desocupados, mas economicamente ativos”, como o IBGE prefere chamá-los.

Depois de quase 20 anos trabalhando na área de vendas e merchandising de uma grande empresa, Luizão foi mandado embora e está sem trabalhar há dois meses. Se ele já esperava? “Esperava, porque o ano passado foi muito ruim. Mas a gente fica torcendo pra que não, né?”.

É, Luizão, a situação do país não é nada confortável: assim como sua empresa teve que demiti-lo para cortar gastos, outras organizações têm tomado a mesma iniciativa - e a taxa de desemprego no Brasil (6,8%) já é a maior desde maio de 2013. As perspectivas para o futuro não são otimistas, e o país ainda deve sofrer com o aumento do desemprego pelos próximos três anos, como prevê a Organização Internacional do Trabalho (OIT) em seu informe anual.

Os dados são decepcionantes, mesmo. Essas altas taxas de desemprego podem ser explicadas a partir de uma combinação de fatores: além da alta dependência do bom desempenho de suas commodities no mercado internacional, o Brasil optou por crescer economicamente nos últimos anos com base no incentivo ao consumo e na expansão do crédito, o que não é sustentável ou eficaz a longo prazo.

O cenário é ruim, mas não eterno - não é, Luizão? “Tudo vai melhorar. De tempos em tempos, temos momentos bons e ruins. Esse ano vai ser muito ruim, com certeza, mas dá pra se arrumar, sabe?”. Claro que dá! Mas se o novo emprego não vier? “Eu penso em comprar alguma franquiazinha no comércio, porque depender do seguro desemprego é furada!”.

Ainda bem que você sabe, Luizão. Além de finito, o auxílio fornecido pelo seguro desemprego é mínimo, e a burocracia para solicitá-lo é enorme. A partir das novas regras, que começaram a valer em março deste ano, quem quiser fazer sua primeira solicitação do seguro deve ter trabalhado por, pelo menos, um ano e meio na empresa que o dispensou. Isso prejudica principalmente os trabalhadores mais jovens, que costumam ficar menos tempo no mesmo emprego.

“Mesmo assim, a gente vai fazendo o que pode”. Isso aí, Luizão! “Reduzi bastante o consumo de coisas desnecessárias e tô procurando economizar energia, porque tá custando os olhos da cara!”, diz ele com os olhos arregalados, como se realmente fosse arrancá-los e trocá-los por uma lâmpada acesa.

“Desesperado não estou. Preocupado? Sim, a situação do país não é das melhores, mas vou seguindo. Já retomei o contato com pessoas importantes, atualizei meu currículo e até participei de alguns processos seletivos. Agora é torcer. Se não der certo, vou partir pra aquela história de comércio que falei. É importante ter plano B, né? Mas vai dar tudo certo”. Claro que vai, Luizão - e, com sorte, não só para você, mas também para outros milhões de desempregados do país. Somos brasileiros, e brasileiros nunca desistem - mesmo que as perspectivas não sejam nada positivas.

“Bem que tudo podia dar certo pro Verdão também, hein? Na Copa do Brasil, no Brasileirão...”. Calma lá, Luizão. Talvez você esteja pedindo demais.



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