A morte é um negócio sério
Por Rafael Bahia Felizatte - Edição Trabalho - maio de 2015

Sua visão embaça. A imagem de sua família aos pés da maca é substituída pela escuridão. A sensação de medo ante o desconhecido toma conta. Tudo o que você enxerga é uma trêmula luz ao longe. Aos poucos, você não percebe mais seu corpo, não ouve mais o choro dos que te amam, não sente o cheiro do vaso de rosas na cabeceira. Você morreu… Ei, mas será que dá para virar o rosto só um pouquinho para a direita, porque esse lado não te favorece?!

A morte se tornou um negócio lucrativo. Funerais antes feitos em casa, com flores recolhidas pela criançada do bairro, tornaram-se incumbência de agências funerárias, floriculturas, cemitérios e crematórios. Isso sem contar os coveiros, guardas de cemitério, operadores de fornalhas e as famigeradas carpideiras. Essa indústria mórbida, como qualquer outra, cresceu e hoje conta com serviços requintados, propaganda, concorrência e todas as jogadas de marketing a que tem direito. Atualmente, o falecimento de um ente querido se tornou um evento a ser organizado por buffets especializados e preços pela hora da morte (com o perdão do trocadilho).

A tradição de dar um ar mais festivo às cucuias é presente em muitas culturas. O Día de Los Muertos mexicano é muito mais animado que o nosso Finados; a cultura japonesa também é mais receptiva em relação à morte. No interior da China, o Ministério da Cultura tem feito esforços para reprimir a presença de strippers nos velórios. Sim, é isso mesmo. Já na cultura geral brasileira, a morte sempre foi um tabu: o telefonema no meio da madrugada, o gato que subiu no telhado… Mas essa postura de temor já está mais para lá do que pra cá.

O que tem gradualmente acontecido no Brasil é uma mudança de comportamento em relação à morte, e isso se reflete no surgimento de casas como a Funeral Home, localizada próxima à suntuosa avenida Paulista. "A ideia era fazer velórios estilo americanos, ou que remetessem ao tempo em que se velava o corpo em casa", diz Márcia Regina Pinto, gerente da empresa. "A família entra em contato e nós fazemos toda parte de assessoria: pegamos a declaração de óbito, levamos books com fotos de urnas e flores etc. A família, então, pode ser dispensada e nós acompanhamos a remoção do corpo até o local do velório, fazemos troca de roupas, higienização, maquiagem, ornamentação com flores, ou seja, tudo."

Depois de sete dias úteis (e sete palmos abaixo da terra), toda a documentação de cartório é entregada na residência da família. No entanto, há serviços mais emblemáticos que explicitam essa nova maneira de encarar a morte: se solicitado, o evento pode contar até com lembrancinha. "No caso de retrospectiva em vídeo, temos televisores e DVD em todas as salas", garante Márcia.

Para a gerente, a grande vantagem que alavancou esse business é a praticidade: "A família não precisa se preocupar com nada, só em estar presente." De fato, no momento de uma dor tão intensa, há muito mais com o que se preocupar do que toda a burocracia e planejamento. Aqueles que podem arcar com as despesas, preferem pagar não só pelo necessário, mas também pelo sofisticado. Afinal, se um dia todos nós vamos abotoar o paletó, por que ele não pode ser um Armani?




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