Na sala de espera
Por Fabíola Costa - Edição Trabalho - maio de 2015

O grande hospital vivia mais um de seus movimentados dias. Centenas de pessoas circulavam nos corredores, ocupavam os leitos e preenchiam as salas de espera. São mais de mil atendimentos diários, fora as internações. Os profissionais, naquele apressado jeito de andar, tentavam atender a todos. O ambiente gélido trazia consigo a tensão invisível, mas sempre presente, na vida de um hospital. Burburinhos das conversas baixas, choro ardido da criança doente, sirene estridente da ambulância, som abafado do alto falante que anuncia o próximo paciente... Todos momentaneamente silenciados. Agora era a vez do som metálico, e ao mesmo tempo suave, do saxofone.

O saxofonista vestia jaleco branco de mangas curtas e andava em passos lentos por entre os corredores da sala de espera. Careca, de pele morena e óculos de grau, o homem dedilhava o instrumento com precisão e agilidade. Do alto de seus cerca de 1,80 de altura, lançava um olhar esperançoso e demonstrava confiança ao tocar. Isso logo atraiu a atenção de todos. Ao fundo surgiram o acompanhamento suave do piano, a batida tranquila da bateria e a melodia de outros instrumentos, vindos de uma pequena caixa de som ligada a uma tomada no canto da sala.

Enquanto tocava, o ambiente do grande hospital parecia mais acolhedor. A melodia era sentida de maneira particular por cada um ali daquela sala de espera. Uns esboçavam sorrisos tímidos, outros fechavam os olhos, alguns cabisbaixos. Havia também aqueles com os olhos marejados e outros com largos sorrisos.  A criança do choro ardido olhava atenta e silenciosa para o saxofonista.  

Há três anos e meio o artista dedica dois dias de sua semana para levar música ao hospital. Começou ali na sala de espera. Depois o convidaram para tocar nas salas de quimioterapia, radioterapia, e, quando se deu conta, todas as alas do hospital já ouviam seu som. Os médicos o convidaram para tocar até no centro cirúrgico! Na UTI não pode entrar, mas ele vai até a porta do quarto e dali mesmo faz seu som… Uma vez uma paciente despertou do coma enquanto o rapaz tocava. O fato aconteceu há um ano e meio, mais ou menos. Mas história marcante não tem como ser esquecida!

Na sala de espera, depois do último acorde, o saxofonista de jaleco branco se apresentou:

- Sou Hilquias, esse é um trabalho voluntário que faço aqui. Que Deus abençoe vocês. A minha frase é sempre esta: nunca desista, nunca desanime, porque Jesus está no barco da nossa vida, e ele nunca nos deixa só.

Talvez nem todos deem muito crédito para o que o saxofonista diz. E nem precisam, a  música já transmitiu o recado.

O músico pega um punhado de CDs e os distribui para as famílias que estão naquela sala de espera. São em média 400 discos por semana. Conversa com cada um, oferece abraços e apertos de mãos. No grande hospital, a frieza foi substituída pela gratidão.

Quando chega perto da criança que chorava, o saxofonista novamente saca seu instrumento e, abaixado, olhos no garoto, sopra um trecho de “Wood Woodpecker”, música tema Pica Pau. Pronto! Logo a criança abre um largo e gostoso sorriso!

O saxofonista parte para sua próxima tarefa: espalhar amor e, com seu gesto, aquecer o ambiente frio dos quartos de internação, do centro cirúrgico e de cada canto do grande hospital.



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