Serviço de mulherzinha
Por Thaís Matos - Edição Trabalho - maio de 2015

Mediadora: Nossa mesa redonda de hoje vai tratar da divisão de profissões por gênero e como essa classificação prejudica a todos, mas principalmente às mulheres, que sofrem opressão e exploração no ambiente de trabalho. Quem quer começar?

Damiana: Posso começar? (todos assentem). Trabalho como pintora de casas há três anos e as mulheres para quem eu trabalhei sempre me admiraram por desempenhar essa função. Elas me dizem “nossa, você é muito corajosa, uma guerreira”. Já os homens olham sempre com curiosidade e um pouco ressabiados. Quando estou fazendo a parte de fora das casas, as pessoas param para olhar. Mas eu amo a minha profissão, não tenho vergonha.

Manoel: Eu estou desempregado há três meses. Faço faxina e essa é uma área que ainda oferece bastante vaga. Mas tenho certeza que serei rejeitado se oferecer meus serviços individualmente. As pessoas estão acostumadas com mulheres fazendo isso. Não sei se elas deixariam um homem entrar na casa delas.

Giulia: Essa diferença entre essas profissões consideradas femininas ou masculinas tem a ver com a maneira que as pessoas são criadas. Professor de ensino infantil, que cuida de criança, é uma categoria esmagadoramente feminina e se enquadra na ideologia de que as mulheres são mães por natureza e nasceram pra cuidar de crianças. No ensino universitário, tem muito mais homens, porque tem a ver com a intelectualidade, que não está ligada à ideia da mulher emocional e não racional. É uma ideologia falsa, porque os homens podem sim, e devem, cuidar das crianças e têm totais condições de serem professores infantis. E as mulheres têm capacidade de serem professoras universitárias e não são inferiores.

Márcia: Eu sou a Márcia, trabalho na construção civil, no estado do Pará, e sou da diretoria do sindicato da construção civil. Dentro do canteiro de obras, o sistema machista é muito opressor e as mulheres sofrem muito assédio moral. A mulher é considerada o sexo mais frágil, falam que ela não dá conta de carregar as coisas, de desempenhar as tarefas físicas, que o trabalho da mulher não pode ser classificado por não ter a função. Nós estamos lutando pra que elas sejam classificadas e qualificadas, porque nós temos pedreiras, ajudantes de obra, marceneiras, carpinteiras. Fora isso, tem toda a questão do assédio sexual. Quando a mulher vai atrás de um emprego, ela tem que ser bonita. Se ela é bonita, tem que sair com o encarregado, o metre de obras. Se elas saírem com outros trabalhadores do canteiro, elas são mal faladas. Elas não podemse relacionar com ninguém. E se elas forem brigar pelos direitos delas, elas são castigadas. Não podem se envolver com o movimento sindical, é muito difícil angariar mulheres para a luta.

Mediadora: Que horror, Márcia. É inacreditável que ainda passemos por isso. Para finalizar as falas, chamamos a Sílvia, membra da executiva nacional do Movimento das Mulheres em Luta.

Sílvia: É muito grande a opressão que as mulheres sofrem no trabalho e essas pautas precisam ser incorporadas às reinvindicações dos sindicatos e às lutas por melhores condições de trabalho no geral. A segregação do trabalho por gênero faz com que as mulheres que decidem optar por transgredir essa norma sejam vistas como incapazes de desenvolver a atividade profissional e acuadas dentro do próprio emprego. Para fazer com que as mulheres se sintam fortalecidas inclusive pra lutar contra a exploração, é preciso que isso seja combatido nas organizações de trabalhadores e convença os homens da classe que isso é uma imposição da ideologia machista.

Wana: Mas quando começamos a nos mobilizar, nós mobilizamos também as outras. Eu trabalho como motorista e já recebi o testemunho de muitas mulheres que tomaram coragem para tirar habilitação e até procurar esse emprego depois de me verem dirigindo ônibus. Não podemos perder as esperanças.

Mediadora: Agradecemos a presença de todas e todos e até o próximo debate.



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