Carta ao leitor
Por Ana Carla Bermúdez e Gabriela Romão - Edição Trabalho - maio de 2015

Desde pequenos, somos questionados a uma definição. Ainda crianças, sabemos que o somos, mas almejamos o mundo adulto com pressa. Recebemos a mais comum das perguntas tão logo tenhamos consciência de que, um dia, vamos crescer: “O que você quer ser?”. Ser. Não fazer.

Enquanto crescemos, na rotina diária dos adultos que nos cercam, nos programas aos quais assistimos na TV e nos brinquedos que ganhamos, por vezes aprendemos que o que escolheremos para a nossa carreira profissional será o que nos construirá enquanto indivíduos. Enquanto pessoas. Nos acostumamos com a ideia e a empregamos com destreza. Se alguém nos perguntar o que somos, com essas palavras, provavelmente teremos de pensar muito antes de dar uma resposta simples como “sou feliz”.

Estamos habituados a rótulos: podemos ser médicos, advogados, professores ou engenheiros. Mas não nos imaginamos como a pessoa que sequer tem seu trabalho reconhecido. A pessoa que é julgada por transpor o senso comum no mundo profissional. A pessoa desempregada.

Cultivamos sonhos, mas conforme somos realmente chamados à vida adulta, o sistema nos ensina que, muito além de fazer o que gostamos, a atividade que desenvolveremos em nossas vidas será a fonte de nosso sustento. Mais do que isso; lidamos com o excesso. Temos de ser bem­sucedidos e acumular não só dinheiro, mas também status e conquistas de carreira para sermos reconhecidos de alguma forma.

Nesse tipo de lógica torta, talvez demoremos a perceber que, enquanto membros de uma sociedade embasada nesses valores, julgamos as pessoas de acordo com seu trabalho. Exploramos: construímos uma escala e temos dificuldade em reconhecer os direitos daqueles que julgamos profissionalmente inferiores. Desprezamos: não encontramos valia no que nos parece mais fácil ou menos intelectual. Não vemos que a competição e as duras cobranças de um sistema que não nos permite a falha podem solapar a tranquilidade e a paz de espírito absolutamente necessárias a qualquer ser humano.

Apesar de tudo isso, e como tudo na vida, o trabalho tem seu lado bom. Ele pode, sim, ser um espaço de satisfação pessoal e de realização de sonhos, muitas vezes desligado de qualquer expectativa financeira. Pode ser um espaço de luta por direitos e reconhecimento, não só profissionais, mas também humanos. Um espelho de como a sociedade pode mudar sua organização, suas ferramentas e até seus valores.

E dentro de todas as possibilidades e dificuldades, o trabalho é essencial. Do momento que nascemos àquele em que abandonamos esse mundo, seremos cercados por ele, não importa se na forma de um sonho, objetivo, ocupação, sobrevivência, fardo ou libertação. Esta edição do Claro! convida você, leitor, a refletir sobre todas essas nuances do trabalho. Questione a si mesmo: como elas moldam a sua visão de mundo?



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