Eu não quero ir
Por Júlia Pellizon - Edição Trabalho - maio de 2015

“Eu ficava falando para mim: ‘Eu não quero ir, eu não quero ir, eu não quero ir’. Aquilo ia crescendo dentro do peito, dando uma angústia. Eu respirava e não enchia o peito”. Apenas a lembrança faz com que Rita Beatriz Boranga se emocione ao retornar àquele período. Com 25 anos na carreira de magistério, ela trabalhou, de fato, durante 21 anos. Por quatro deles, afastou­se das salas de aula pelo pavor que sentia ao entrar em contato com o ambiente de trabalho. Professora de Química de uma escola estadual no bairro da Mooca, na Zona Leste de São Paulo, Rita Beatriz sofria de uma série de sintomas. Tontura, transpiração excessiva e até diarreia eram as manifestações físicas, porém, psicologicamente, sentia­se ainda pior.

Entre 2005 e 2006, ela descobriu a causa: era o próprio trabalho. A professora desenvolveu uma doença do trabalho, quadro em que o paciente adoece por condições múltiplas presentes no meio de ofício e é geralmente marcado por depressão e ansiedade. No caso de Rita, os porquês do estado de estresse e humor deprimido se explicavam pela pressão e recente relacionamento conturbado com colegas e alunos, diferente do ambiente tranquilo dos anos anteriores. “Eu tinha certeza de que era por causa do trabalho. Perseguição da direção, coordenação e de alguns professores era intensa. Fora que a sala de aula não é fácil. O aluno não respeita, não tem interesse, é indisciplinado. Junta tudo em um pacote só”, explica a professora.

Rita custou para admitir a necessidade de apoio profissional. “De primeiro momento, eu não quis procurar. Achei que não fosse importante, porém chegou um ponto em que eu não entrava na escola e vi que precisava de ajuda”, conta. Como no caso dela, a demora para a busca de assistência é comum em pacientes que convivem com tais problemas. Isso porque reconhecer a presença de uma doença psicológica desenvolvida por causa do trabalho carrega um estigma social, de acordo o médico especialista em Medicina do Trabalho, João Silvestre. “O que chamamos de nexo causal, isto é, a relação entre a doença e a exposição a um ambiente de trabalho com problemas, deveria ser discutido com mais frequência, visto que a pessoa passa muitas horas da sua vida trabalhando”.

O ponto decisivo para enfrentar o estigma veio em mais um dos dias difíceis e angustiantes de Rita. “Eu passei tão mal que eu não conseguia dirigir. Eu tinha medo, pegava o carro e parecia que tudo estava vindo em cima de mim”. Foi quando ela foi atrás do Centro de Referência em Saúde do Trabalhador, uma unidade do Sistema Único de Saúde. Assim que chegou, foi atendida pelo serviço de enfermagem e depois por uma psicóloga. “Nunca vou me esquecer do que ela disse: ‘Rita, você está em um grau de estresse tão grande que você vai continuar aqui até você melhorar e a gente conseguir um encaminhamento para um médico particular ou no Servidor Público. Do jeito que você está, não tem condições de trabalho’”, relata a professora.

Até 2020, a Organização Mundial da Saúde prevê que os quadros mentais sejam a principal causa de afastamento do trabalhador. Durante os quatro anos em que esteve longe do ofício na escola estadual, Rita frequentou especialistas como psiquiatras e psicólogos. Nos primeiros meses com o tratamento corriqueiro para depressão, adaptou­se às doses de fluoxetina, antidepressivo receitado para a professora. Os momentos especialmente críticos exigiam porções maiores do medicamento. "Às vezes eu parecia um zumbi, porque era uma quantidade cavalar. Praticamente não tinha reação. A Rita estava escondida atrás do remédio".

Já se passaram dez anos desde o início da doença. Rita Beatriz retornou à escola estadual que teve de abandonar, como professora readaptada desde o dia 4 de maio de 2011. Atualmente, por escolha própria, trabalha na Sala de Leitura do colégio. Mesmo com a volta à atividade, ela analisa: “Sarei? Não, não sarei. Eu não sei se tem cura, não”. Em conjunto com a psicóloga que frequenta, nas sessões às sextas­feiras, a professora encontra o caminho em exercícios diários para lidar com os medos. “Voltei firme, forte, mas não curada. Eu ainda tenho dores de estômago, estresse e sofro. Tenho aqueles sintomas, só que hoje encaro e respondo de outra forma”.



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