Profissão: criança
Por Breno França - Edição Trabalho - maio de 2015

Ela se encontra naquela fase de perder os dentes de leite. E agora, além do banho e da tarefa de casa, soma­se a janelinha no sorriso tímido. A menina não fala sobre o assunto, mas a mãe entrega. “Ela vive reclamando que os dentes dos amiguinhos já nasceram e o dela nem dá sinal.” Levar pra escola nessa idade vira o pesadelo dos pais, mas com a profissão que ela quer, não dá pra bobear.

Os cadernos dele são uma bagunça só e a profesora tem um trabalho especial para fazê­lo prestar atenção nas aulas de matemática. A mãe chega em casa à noite e precisa pôr ordem na lição de casa, mas os desenhos são uma maravilha. “A gente foi obrigado a colocar um mural no quarto dele antes que ele saísse pintando e desenhando nas paredes.”

Pra convencer Sophia a ir pra escola é preciso treinar bastante os argumentos. A avó, encarregada do assunto, revela uma das soluções encontradas. "Ela disse que quer ser médica quando crescer, então eu disse que pra ser médica precisa estudar muito. Enquanto ela não mudar de ideia, essa história ainda serve", conta rindo. Porém, o interesse pela medicina surgiu com uma notícia não tão animadora. Diagnosticada com uma doença grave aos três meses de idade, Sophia precisou frequentar consultórios desde muito cedo.

No começo do ano, na hora de comprar o material escolar foi uma confusão. Lucas só queria saber do lápis de cor e das canetinhas. “Pra convencer ele de que os livros também eram legais, eu tive que procurar uns desenhos até ele ficar interessado”, relata a mãe. Se a preferência do menino que quer ser desenhista é pelos desenhos de carro, a família exibe com orgulho os desenhos que ele fez dos membros da família.

Quando está num consultório qualquer coisa é novidade e motivo de interesse. A mãe conta que Sophia pergunta de tudo. “O que as outras crianças têm? Que aparelho o médico tá usando? Ela até já pediu pra mexer no computador do médico, como se ela entendesse.”

Com um lápis e uma caneta como instrumentos e o bloquinho de anotações do telefone, Lucas quase não pode ser notado na sala. Sua presença só se manifesta quando ele interrompe a mãe e pede. “A caneta não está funcionado. Me dá outra?”. Passam uma, duas, três horas, e o garoto não se cansa. O pai revela uma rotina graças ao interesse do filho. “Eu já comprei tantos gibis diferentes que o jornaleiro até deixa alguns separados pra mim”, conta.

Pra Sophia, o médico precisa conhecer cada parte do corpo humano pra descobrir o que a pessoa tem e dar o remédio certo. “Quando eu crescer eu quero ser médica, porque eu quero cuidar das crianças, das pessoas que estão doentes. Daí eu vou examinar, passar remédio, cuidar e ver o que tem que fazer pra elas ficarem boas logo”, imagina animada olhando pra mãe, que não consegue disfarçar o orgulho.

Já Lucas não parece nada preocupado com o que tem que fazer. Pra ele é muito simples, o importante é desenhar. “O que eu mais gosto é de desenhar carros. Eu vejo eles na televisão e faço parecido, depois eu penduro no meu quarto e mostro pros meus amigos na escola.” O gosto do menino por cores fica claro em tudo que ele usa: na camiseta, no tênis, na mochila e até no óculos.

A vontade de Sophia e a intenção de Lucas nos fazem ter um noção da visão do mundo do trabalho que eles têm. Mas, com mudanças tão rápidas no mercado e na vida dos pequeninos, será que tudo vai se realizar?

E você? Conseguiu se tornar o que queria quando criança ou mudou tantas vezes de ideia que já nem se lembra mais?



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