A gente mal nasce...
Por Fernando Oliveira e Marina Davis - Edição Opostos - maio de 2014
Ilustração: Thais Mendes

Trazer uma criança ao mundo exige muito trabalho. Certamente, a parte mais importante e ativa do processo é a mãe, que sente as dores do parto, indicando que a alegria do nascimento se aproxima. Mas não é sem ajuda que isso acontece. Falar de parteira pode parecer coisa ultrapassada, mas se torna cada vez mais atual. Mesmo com o elevado número de cesáreas realizadas no Brasil - enquanto o número recomendado pela Organização Mundial de Saúde para partos por cirurgia é de 15%, no nosso país chega a 54% -, há mulheres que buscam obstetrizes e doulas para realizar partos a domicílio, em casas de parto ou maternidades.

E se engana quem acredita que o papel da parteira é restrito às horas que cercam o nascimento. “A obstetriz é uma profissional apta a realizar o acompanhamento da saúde da mulher, realizar o pré-natal, parto normal, acompanhar a puérpera, o bebê durante o período perinatal e neonatal”, enumera Debora Banhado, formada em obstetrícia pela USP em 2008. Ela acompanha mulher durante todo o ciclo da gestação: das primeiras semanas de gravidez, passando pelas contrações até as orientações sobre amamentação após o parto. Debora explica, porém, que o parto em casa só pode ser realizado em gestações de baixo risco. “O parto só pode ocorrer em casa caso a gestação esteja redondinha, sem nenhuma alteração. Já as gestações de alto risco deverão ocorrer em ambiente hospitalar, pois se o bebê entrar em sofrimento, pode ser necessário uma cesariana, que só ocorre em hospitais. O médico obstetra atenderá estes casos”.

A parteira, porém, não é a única profissional que acompanha a mulher durante o parto. A ocupação escolhida pela bióloga e estudante de obstetrícia Gisele Leal foi a de doula, cujo nome vem do grego e significa “mulher que serve”. Ao contrário da obstetriz, esta profissional não tem uma função técnica. “A função da doula é prestar suporte físico, emocional e informativo à gestante”, explica Gisele. A doula usa técnicas de alívio da dor, massagem e respiração.

Apesar de algumas maternidades já permitirem a presença de doulas para acompanhar as parturientes, isso ainda não é realidade na grande maioria dos hospitais do Brasil, afirma Gisele. Em 2013, ela e outras profissionais se reuniram para redigir o projeto de lei nº 250, da Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo. Caso aprovada, essa lei garante a obrigatoriedade da presença da doula durante todo o parto, sempre que solicitados pela gestante. Para Gisele, reconhecer a importância da profissional faz parte da conquista dos direitos da mulher. “Se formos ver historicamente, o parto era um evento social familiar. A partir do momento no qual foi ao hospital, saiu do domicílio e foi medicalizado, a mulher perdeu toda a autonomia sobre o processo e ela mesma”, diz.

O parto é uma experiência única na vida da gestante e, por essa razão, é muito importante que seus desejos sejam respeitados. Seja em casa, na maternidade ou no hospital, a forma do parto é uma escolha da mulher.

Leia o oposto aqui.



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