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Dostoiévski, jornalista
Por Elizabeth Lorenzotti - elizabethlorenzotti@hotmail.com - Publicado em 31/01/2007

Fiódor Mikhailovitch Dostoiévski foi um dos mais importantes e populares jornalistas em seu tempo, tendo dedicado boa parte de sua vida ao jornalismo. No espaço midiático, travou extensas polêmicas com seu tempo, consumando reflexões ao reportar o imbricamento entre ser humano, contexto histórico e memória. Por exemplo, no exemplar de dezembro de 1876, Dostoiévski abriu uma crônica de modo inusitado em relação aos seus procedimentos correntes: “Eu lhe contarei para que não me esqueça”. Dessa forma, revelava o jornalista como formador da memória social de sua contemporaneidade, entre outros atributos. Apresentarei uma leitura da sua produção jornalística, Diário de um escritor, originada em coluna com esse mesmo nome no semanário Cidadão (1873-1874) e tornou-se um jornal mensal próprio, nos biênios 1876-77 e 1880-81. 
Uma das principais características desta obra como produto cultural dedicado ao ato comunicacional e construtor de memória, ou “a palavra retirada da vida” conforme enunciou o pensador russo Mikhail Bakhtin. Dostoiévski era o único jornalista e escritor que escrevia e também editava – algo completamente inédito no jornalismo russo do século XIX. Em Diário de um escritor, publicou artigos, ensaios e contos. Esta obra é uma manifestação textual híbrida e crítica de sua época e ambiência sócio-cultural. Leonid Grossman, especialista em Dostoiévski, chegou a afirmar que os seus últimos romances não podem ser separados dessa produção jornalística. 
Em sua juventude, Dostoiévski teve uma trajetória mais acidentada em relação às redações de jornais, fora a sua estadia na Sibéria e outros contratempos. Já no início de sua maturidade, Tempo foi o primeiro grande jornal mensal editado e de propriedade de Dostoiévski e seu irmão Mikhail, de janeiro de 1861 a abril de 1963. Sucedido por Época, de mesmo perfil, entre 1864-1865. Após temporada na Europa com a sua segunda esposa, entre 1873 e 1874, assume como editor-chefe do jornal diário Cidadão, quando inicia a sua coluna de artigos intitulada Diário de um escritor. Levando o nome da coluna, funda seu jornal próprio mensal – mas com periodicidade irregular. Publicou-o em 1876-77, um exemplar em agosto de 1880 e outro, distribuído em janeiro de 1881, postumamente.
Dostoiévski foi um extremo apaixonado, como observou Bakhtin. Falando sobre as características gerais da estética do autor, para o pensador russo:
(...) Ele polemiza constantemente, polemiza com hostilidade orgânica, com a teoria do meio independentemente da forma em que se manifeste (por exemplo, nas justificações dos fatos pelo meio alegadas pelos advogados), ele quase nunca apela para a história como tal e trata qualquer problema social e político no plano da atualidade. Isso não se deve apenas à sua condição de jornalista, que requer o tratamento de tudo num porte de atualidade; ao contrário, achamos que a sua propensão pelo jornalismo e seu amor pelo jornal, a compreensão profunda e sutil da página de jornal, como reflexo vivo das contradições da atualidade social no corte de um dia, onde se desenvolvem extensivamente, em contigüidade e conflito, as matérias mais diversas e mais contraditórias, devem-se precisamente à particularidade fundamental de sua visão artística. (BAKHTIN: 30)
Um aspecto que torna Diário de um escritor especialmente peculiar na vida do autor, além de poder ter uma mídia inteira para expressar a sua visão de mundo, está em participar ativamente de seu grande reconhecimento no final da vida. Como vários de seus contemporâneos atestaram, Eleva Stakenhneider, que formou um dos mais prestigiados salões literários de São Petersburgo em 1860 e 1870 freqüentado por Dostoiévski, lembrou que o autor não ficou famoso apenas por sua estadia na prisão, por ter escrito Recordação da casa dos mortos ou por seus romances. Mas, principalmente, por criar Diário de um escritor. “Este trabalho fez seu nome bem conhecido por toda juventude russa e não apenas por eles, mas por todos os interessados na questão da revolução russa. (SEKIRIN: 212-213)
A principal atividade jornalística de Dostoiévski foi Diário de um escritor, estreando como periódico mensal (biênios 1876-77 e 1880-81) onde era o único a escrever e editar – publicando-o com a colaboração de sua segunda esposa Anna Grigorievna Dostoiévskaia. Com esta produção, ele tornou-se um dos mais populares jornalistas de seu tempo. A tiragem inicial foi de 6 mil exemplares ao mês e contando com 1982 assinantes. Em 1877, pulou para 3 mil assinantes. (MARTINSEN:152) 
Diário de um escritor nasceu sob o signo da polêmica, onde Dostoiévski se notabilizou como um publicista ao expor seu ideário e a definir suas próprias posições pelo engajamento, “forjando seus pontos pelo estabelecimento de tipos característicos, atitudes dramatizadas e narrando as suas experiências e observações” (MARTINSEN:151-152). As polêmicas travadas no Diário tinham temas da ordem do dia envolvendo questões políticas, econômicas, jurídicas, culturais entre outras. Os eleitos das contendas eram escritores como Tolstói, Nekrasov, Turgueniev, Leskov, críticos ou pensadores entre Belinski e Gradevski, os acadêmicos Mendeleev, Pypin e Danilevski, incluindo jornalistas de periódicos de Moscou e São Petersburgo.
Como publicação de gêneros vários, uma das mais fortes é esta produção ser recorrentemente confessional ou com narrativas em primeira pessoa. O que o torna, como não poderia ser diferente, marcado profundamente por seu tempo. Pois, nos anos 70 do século XIX na Rússia, chega ao auge de popularidade os gêneros literários que promoviam uma interação entre um determinado “eu” e o seu mundo imediatamente circundante. Entre estes gêneros estão romances confessionais, diários ou livros de notas. Entre eles, Passado e pensamentos de Alexander Herzen e Confissões de Leon Tolstói, lançadas entre 1880 e 1882. 
Mas, para Dostoiévski, o mais marcante de seu Diário foi de Jesus Cristo. Este era como um modelo para uma concepção da identidade nacional russa, principalmente nos planos éticos e políticos a seguir. Em dezembro de 1876, ele escreveu: A maior meta do Diário até o momento tem sido, na medida do possível, esclarecer a idéia de nossa independência espiritual e nacional e apontá-la, na medida do possível, representando os fatos cotidianos. 
Seja em sua produção jornalística ou literária, uma das suas marcas mais profundas é ser um fazedor de símbolos, como no caso de Cristo. Como apontou Iúri Lotman, o símbolo é um texto com certo significado preciso em si mesmo e uma fronteira nitidamente expressa que permite separá-lo do contexto semiótico circundante (144). Como importante mecanismo da memória da cultura, os símbolos transportam textos, esquemas de sujet e outras formações semióticas de uma camada da cultura à outra. (145) Não à toa, em seu ensaio “o símbolo no sistema da cultura”, Lotman tem em Dostoiévski um paradigma e vamos ver elementos do mesmo. 
Para Lotman, Dostoiévski foi um atento leitor de jornais e colecionador de reportagens – especialmente da editoria de polícia – e via, no campo dos fatos jornalísticos, sintomas evidentes de doenças ocultas da sociedade (147). O escritor enquanto um decifrador de sintomas. Nesse sentido, Lotman lembra que a antiga denominação de sintomatologia é “semiótica médica”. Estes sintomas ou símbolos não apenas estão presentes na produção jornalística de Dostoiévski, mas “estão vinculados a aspectos essenciais de seu pensamento artístico e ideofilosófico” (149)
Lotman localiza uma distinção entre o símbolo e a lembrança. O símbolo existe antes do próprio texto dado e sem dependência com ele. Procedente das profundidades da memória da cultura aparece na memória do escritor e revive no novo texto, como uma semente que cai em novo solo. A lembrança, a referência, a citação são partes orgânicas do novo texto, funcionais apenas na sincronia deste. Vão do texto à profundidade da memória; e o símbolo, da profundidade da memória ao texto (148). O símbolo é, em suma, um mecanismo superior da memória.
O “pensamento de Dostoiévski é essencialmente heterogêneo: junto com a formação do “sentido simbólico” e supõe também outros variados modos de leitura. Tanto a publicística direta, como a reportagem, assim como muitas outras coisas, entram em sua linguagem, cuja realização ideal, determina Lotman, é Diário de um escritor. “Destaco a ‘camada simbólica’ como a causa de sua unicidade no mundo artístico do escritor.” (151)
Nessa leitura apontamos características da emergência do símbolo no Diário no artigo “Pessoas de antigamente”, publicado em Cidadão, em 20 de dezembro de 1873. Narrado em primeira pessoa, inicia voltando ao ano de 1845 quando Dostoiévski conheceu Vissarion Belinski (1811-1948), um dos maiores críticos literários da época e que praticamente lançou o iniciante escritor ao conhecimento do público-leitor ao lançar Pobre Gente. Na verdade, esse texto tem seu início no anterior e que abre a coluna. O fluxo de texto anterior, com uma anedota do crítico.
Belinski foi conhecido como criador da chamada “nova crítica”, cuja origem é na inteliguentsia não nobre, com vasta educação européia. Foi crítico literário profissional preocupado com questões teóricas da literatura e se propunha a ler nas entrelinhas, buscando significados não expressos aos textos literários, o que despertava polêmicas acaloradas especialmente no plano político e ideológico. (NOVIKÓVA a: 1102). 
Em um fluxo não linear, como se estivesse a dialogar diretamente com o leitor, o narrador logo realiza uma quebra para inserir esse período: “Tenho que pensar com freqüência nos homens daquele tempo, pois tenho que me encontrar sempre com os homens de hoje”. E volta a lembrar de Belinski, na época em que o “conheceu” – pontua. Apontando como principal característica o seu entusiasmo com as pessoas e as idéias, mesmo as divergentes. 
Seguindo o colóquio com o leitor, lembra que Aleksandr Herzen (1812-1870) foi algo (alguém) completamente distinto em sua vida. Herzen é considerado um dos mais profundos e originais pensadores russos e criador de um movimento oposicionista ao regime czarista que originou vários partidos. Devido à perseguição política, emigrou para a França em 1947 tendo contato com vários círculos socialistas e se propôs a tarefa de “familiarizar a Europa com a Rússia e a Rússia com a Europa”. Promoveu grande polêmica com os eslavófilos (nos anos 40), encabeçando o grupo ocidentalista (NOVIKÓVA b: 1161-1164). 
Uma leitura superficial do texto leva ao autor a informar a relação travada com as duas personalidades históricas então falecidas. Herzen nomeado como o gentilhomme russe et citoyen du monde (em francês, declinando o cosmopolita ocidentalista) e Belinski como o entusiasmado. Mas ambos ateus, na vertente de ocidentalizar a Rússia e derrubar o czar sob orientação socialista. Porém, mais do que pessoas comuns, em 1873 eram paradigmas da sociedade russa letrada. Eram símbolos que remetiam aos leitores do Diário a uma série de textos da cultura. O narrador mesmo alça-se como um símbolo, de redator-chefe desse jornal, Cidadão, dito como reacionário por apoiar o czarismo e a corrente eslavófila. Ou seja, incorremos em uma série de valores que compõem um conjunto de símbolos que, especialmente, no jornalismo, incorrem na pressuposição. Ou seja, o leitor sabe desses valores em jogo. Logo, enunciá-los não é preciso na página do jornal.
Seguindo na leitura mais profunda em busca do resgate dos valores ou do contexto dessa produção. Não podemos esquecer que estamos falando de um objeto midiático. Ou seja, esse texto se articula com outros que compõe o conjunto intitulado Diário de um Escritor que, por sua vez, dialoga intensamente com o seu tempo e o seu espaço. Vivia-se a era dos atentados, do terrorismo de esquerda na Rússia. Socialistas utópicos agem como homens-bomba, cujo alvo são as autoridades governamentais. Na época em que Dostoiévski publica esse texto, lançou seu romance Os demônios. Entre outros predicados, um libelo contra a violência política. Neste mesmo ano, em 1873 e no próprio Diário, publica o seu primeiro conto nesta coluna, intitulado Bobók. Onde ele faz, entre outras coisas, uma severa resposta à crítica literária de esquerda que tão mal recebeu seu romance, como demonstra em estudo acurado, sobre essa peça, conforme atesta Paulo Bezerra.
Ou seja, com o brevemente exposto, compreendemos que o artigo “Pessoas de antigamente” é mais do que um texto memorialística de um escritor sobre dois amigos falecidos. Podemos compreender sua frase aparentemente solta no primeiro parágrafo, “Tenho que pensar com freqüência nos homens daquele tempo, pois tenho que me encontrar sempre com os homens de hoje”. Pois o autor podia, vinte anos antes, conviver com os socialistas completamente opostos à sua forma de pensar. Coisa impossível na sua atualidade, já que a maioria praticava o terror – um dos mais radicais tipos de exclusão de diálogo por visar exterminar fisicamente o outro. Esses elementos estão presentes no inter e extratexto, mas ali presentes a partir de evidências da materialidade textual muito sutil. Lembrando Lotman, os sintomas pequenos do cotidiano presentes tanto na produção jornalística quanto literária do autor. Esta leitura poderia ir avante, revelando as mais diversas “camadas simbólicas” possíveis, demonstrando o que Lotman chamou de unicidade no mundo artístico do escritor.
Por último, observamos que essa produção foi muito censurada na ex-União Soviética porque Dostoiévski polemizou com as correntes socialistas. Apenas constando na edição de Obras Completas organizada por Leonid Grossman em 1928 e, posteriormente, na outra edição de obras iniciada em 1972 e terminada em 1999. No Brasil, apenas uma coletânea publicada em 1943 correspondendo a cerca de 25% do total e outra nos anos 60, muito menor. A exemplo do que aconteceu a várias edições no exterior, contos foram extraídos e publicados como “Bobók”, “Uma criatura dócil: narrativa fantástica” e “História de um homem ridículo”. Nas Obras Completas de Dostoiévski, pela Aguilar brasileira, paenas poucos textos foram publicados. Já na edição espanhola, da mesma editora, está presente todo Diário. Em Portugal, a edição integral pela casa publicadora Arcádia (1968) com tradução indireta de João Gaspar Simões. 
Entrementes, espera-se o conjunto como um todo em tradução direta do russo, “fundamental para se compreender toda a obra de Dostoiévski”, como afirmou Boris Schnaiderman. 

REFERÊNCIAS BILIOGRÁFICAS
BAKHTIN, Mikhail (1997).Problemas da Poética de Dostoiévski. Tradução de Paulo Bezerra. Rio de Janeiro: Forense Universitária.
BEZERRA, Paulo (2005). Dostoiévski: Bobók. Tradução e análise do conto. São Paulo: Editora 34.
DOSTOIEVSKI (1943). Diário de um escritor. Tradução de Frederico dos Reys Coutinho. Rio de Janeiro: Vecchi.
DOSTOIÉVSKI, Fiódor M. (s.d.) Diário de um escritor. Tradução de E. Jacy Monteiro. São Paulo: Edimax.
DOSTOIÉVSKI, Fiódor M. (1968) Diário de um escritor. Tradução de João Gaspar Simões. Lisboa: Arcádia, 2 volumes.
DOSTOYEVSKI, Fiodor Mijailovich (1949). Obras Completas. Traducción de Rafael Cansinos Assens. Madrid: Aguilar, volume III.
DOSTOEVSKY, Fyodor (1999). A Writer´s Diary: 1873-1876: 1877-1881. Translated by Kenneth Lantz. Evanston, Illinois: Northwestern University Press (2 volumes)
LOTMAN, Iuri M. (1996). La Semiosfera I: semiótica de la cultura y del texto. Tradução de Desidério Navarro. Madrid: Ediciones Cátedra: Universitat de València. 
MARTINSEN, Deborah (1997). (Dostoevsky´s Diary of a Writer: journal of the 1870s” In: _____. (org.). Literary Journals in Imperial Russia. Cambridge: Cambridge University Press, 1997, pp. 150-168.
MEDEIROS, Gutemberg Araújo de. Nelson Rodrigues ou a outra coisa que a vida é: Leitura do discurso jornalístico de Nelson Rodrigues, nos jornais cariocas Correio da Manhã e O Globo, nos anos 60 e 70. Dissertação de Mestrado, CJE/ECA?USP, 1999.
NOVIKÓVA, Olga. “La crítica literaria: Belinski y Dobroliúbov”. In: GONZÁLEZ, Fernando Presa (coord..) (1997). Historia de las literaturas eslavas. Madrid: Ediciones Cátedra.
_____. “El pensamiento filosófico y literario: Herzen, Chernyshevski, Dobroliúbov y Pisarev”. In: Idem.
SCHNAIDERMAN, Boris (1999). Entrevista ao autor.
STAKENHNEIDER, Elena. “Diary and notes: 1854-1886”. In: SEKIRIN, Peter (1997). The Dostoevsky archive: firsthand accounts of the novelist from contemporaries´ memoirs and rare periodicals. North Carolina: McFarland & Company.


MEDEIROS, Gutemberg. Dostoiévski, jornalista. BOCC. Biblioteca on-line de Ciências da Comnicação: Universidade Veira Interior, Portugal. 2007.