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O virtual de Pierre LÚvy
Por Porfirio Amarilla Filho - porfirioamarilla@gmail.com - Publicado em 13/07/2013

O que é esse universo digital que invade o nosso dia-a-dia, ao mesmo tempo em que nos confunde pela sua complexidade, facilita as nossas ações corriqueiras? São consultas médicas marcadas vias rede integradas, passagens áreas, de ônibus, rastreadores de pedágios, sistema bancário, bilhetes de transportes coletivos, compra, venda, recebimento, pagamento, todos interligados, conectados a sabe-se lá ao quê, cujo universo se põe diante do homem contemporâneo e urbano e o cerca com uma parafernália de máquinas e equipamentos, criando novos símbolos, lançando-o a uma nova realidade. O que é esse novo universo? Como entendê-lo a partir dos novos símbolos que acompanham as tendências dos movimentos sociais e projeta o homem comum a um mundo simulado, cujas relações modificam a sua noção de tempo-espaço e influi no seu modo de percepção da realidade? 

É o que pretende analisar Pierre Levy em “O que é virtual?”, Editora 34, que tem como ponto base três movimentos específicos para a análise: o filosófico (conceito de virtualização), o antropológico (a relação entre o processo de hominização e a virtualização) e sócio-político (compreender a mutação contemporânea para poder atuar nela). Nascido na Tunísia, Pierre Levy é titular da cadeira de pesquisa em inteligência coletiva da Universidade de Ottawa e membro da Sociedade Real do Canadá (Academia Canadense de Ciências e Humanidades), e autor de “As tecnologias das inteligências” (1993), também editado pela Editora 34.

Em “O que é virtual?”, Levy propõe primeiramente, sob à luz da filosofia, analisar o virtual como um processo de transformação de um modo de ser a outro. E para isso inicia retomando o conceito latino da palavra virtus, que significa força, potência, e que dá origem a palavra virtual, virtualis, aquilo que existem em potência e não em ato. Ao contrário da interpretação que a modernidade dá a esta palavra, aquilo que é ilusório ou ausente de existência, o virtual é aquilo que em ato se torna potência. Aqui, sob o aspecto dessa interpretação de origem aristotélica, por exemplo, a semente de uma árvore, agora em potência para se tornar árvore, dada as condições necessárias para o devir, fatalmente será como tal, embora seja ato de um conjunto de determinações que a fizeram semente, é em potência o vir-a-ser das possibilidades e determinações que a farão árvore. Porém, enquanto semente ela é virtualmente árvore, cujas virtualidades inerentes sob certas condições: solo, clima, predadores naturais (problemáticas, tensões e coerções) serão parte essencial da sua determinação. O virtual, em Pierre Levy, não está para o real, como ilusório ou irreal, mas para o atual, como potência de uma configuração dinâmica de forças e finalidades que engendram a passagem de uma entidade qualquer do atual para o virtual. A virtualização, assim, estabelece-se por uma relação com o atual, cuja dialética incessante cria ou transforma qualidades. Se por um lado, o real é a expressão das potências possíveis de uma existência, por outro, o virtual é a elevação à potência do atual de uma existência, o que o torna um dos principais vetores da realidade. 

O virtual não é situado precisamente, seus elementos são nômades e dispersos, em que tempo e espaço não são mais relevantes em sua abordagem. Falar ao telefone, por exemplo, com alguém do outro lado do mundo, é estar presente (aqui e lá / ato-virtual-ato) em voz, que pode suscitar emoções e interferir na realidade do interlocutor tal qual se estivesse lá. Do mesmo modo, ser parte de uma sessão de ressonância magnética para conhecer o grau de complicações de uma fratura nada mais é que virtualizar o corpo que está em ato e elevá-lo à potência como uma questão problemática fazendo surgir novamente em ato como solução. A referência física se reconstrói no virtual, o físico é desterritorializado e passa a ser um endereço lógico e potencial, adquirindo novas velocidades e espaços, e respondendo em potência o que o atual lhe pede.

Na aproximação do nosso dia-a-dia, o estudo de Levy surpreende justamente pela dimensão conceitual que sua concepção alcança diante da realidade. Aqui, textos ganham (cabe ressaltar que textos são quaisquer fontes de informação – planilhas financeiras, prontuário médico etc - que eles tenham, e não o texto clássico ao qual estamos acostumados a comentar), não novas formas, mas novas ocupações, envolvidos em um fluxo, vetorizados, metamórficos, tornando-se análogos ao universo de processos ao qual se misturam e se tornam acessíveis a todo lugar e passível a todos que os podem atualizá-los. Para cada texto, o sentido emerge de efeitos de pertinências locais, em que o plano semântico diz respeito à singularidade da intenção de quem o captura. Na esteira do pensamento de Gilles Deleuze (Diferença e repetição), para Pierre Levy, virtualizar o texto é alimentar a inteligência coletiva em ato e à medida que é alimentada por meio desse universo, ela experimenta nova forma de autocriação, pois, ao se deparar com um sentido que não lhe pertence, emite novas articulações, transforma-se, devém a ser outro, e pode passar a considerar a nova perspectiva, seja nos meios de produção, por meio de empresas que virtualizam os seus postos de trabalhos, seja na medicina, que cria um banco de troca de informações de corpos virtualizados, que deixam a intimidade subjetiva da suas localidades e são potencializados, possibilitando mais e mais a reconstrução de um corpo coletivo que permite a participação de outros indivíduos nessa coletividade.

Esse processo de heterogênese, embora um texto, um corpo ou parte dele, seja indissolúvel das suas particularidades, pois diz respeito a tão somente a quem os potencializa em ato, é resultado de uma virtualização da experiência imediata, que pode ser aplicado, isto é, atualizado em diferentes situações. Mas a composição ou transformação de uma inteligência coletiva muda alguma coisa nas operações reais do nosso cotidiano? Muda. A economia de mercado, por exemplo, pode ser considerada como um embrião diante do que se acumula à sua frente, porém, já se adianta para se direcionar seus esforços a quem tem acesso e participa do fluxo de informação coletiva, deixando de lado, ou se preocupando menos com a abordagem local e ampliando os seus sistemas de integração, de medida e de regulação em torno do ciberespaço. Ser parte da mão-de-obra do processo produtivo pode não ser mais a particularidade importante para avaliação de desenvolvimento de mercado (poder de compra), contudo, a informação (fruto de uma atualização de experiência imediata) aliada a este último faz do mercado antes avaliado, agora avaliante.

É a partir desse movimento que passamos a compreender o porquê de a rede de computadores se intensificar e criar uma cibercultura, que desconhece as distâncias geográficas e modifica as relações de produção e consumo, de educação, de relacionamentos e políticas. Todo acontecimento participa em maior ou menor grau, de modo molecular, seja ele oriundo de qualquer daquelas instâncias, do processo de criação e produção da inteligência coletiva, levando-se em conta, evidentemente, os tropismos de cada molécula em relação aos valores interpretados.