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Influências da Língua Italiana na Língua Portuguesa do Brasil
Por Entretextos - cje@usp.br - Publicado em 01/08/2009

Trabalho de Bárbara P. H. e Silva, Beatriz C, Dinis, Isadora H. Prosper e Marina C. de Freitas

APRESENTAÇÃO 

De acordo com vários estudos e constatações empíricas, sabe-se que uma língua não é caracterizada apenas pela gramática normativa e pela forma oral culta. Neologismos, abreviações, variantes regionais e gírias — entre muitas outras maneiras de transformar uma língua — são manifestações culturais das pessoas, que ajudam a criar e a renovar o idioma de seu próprio povo. Neste trabalho serão apresentadas algumas considerações sobre o caráter vivo das línguas, sobre as relações que existem entre elas e seus falantes e sobre a influência de processos históricos nos idiomas, especialmente no Português falado no Brasil.
Interações entre homens, mulheres e crianças de duas nacionalidades diferentes, por exemplo, tornam ainda mais evidente o caráter flexível e heterogêneo das línguas. Originadas pelo contato entre os dois povos e os dois idiomas, as transformações lingüísticas persistem e alastram-se por grande parte da sociedade e por diferentes gerações.
A fim de exemplificar tal processo, este trabalho procura demonstrar algumas influências da Língua Italiana no Português falado no Brasil, especificamente na cidade de São Paulo, sob os aspectos “Vocabulário”, “Pronúncia” e “Variação Lingüística”. O grande fluxo de imigrantes italianos para o nosso país, que explicaremos de forma mais detalhada adiante, é peça fundamental no processo de interferência entre os dois idiomas e, por isso, foi feito um recorte específico. O grupo de pesquisadoras buscou amostras de fala em comunidades de descendentes de imigrantes no Brasil e conversou com italianos que moram no país há vários anos.
Uma das comunidades sobre a qual se pesquisou foi aquela assistida pela Igreja da Paz. A princípio, a assistência prestada por essa instituição dirigia-se apenas aos imigrantes italianos; o trabalho se expandiu e, hoje, também é oferecido auxílio a imigrantes latino-americanos e a migrantes internos. No primeiro domingo de cada mês, a missa da Igreja da Paz é celebrada em italiano pelo Padre Giorgio – que atua também na Igreja de Santo Antônio, na Praça do Patriarca – e que auxiliou este estudo orientando as pesquisadoras e concedendo uma entrevista, cujos detalhes serão abordados mais adiante.
Estudar a Língua Portuguesa do Brasil como produto de seus falantes e das inúmeras trocas culturais ocorridas no país é de fundamental importância não apenas no campo de estudos do idioma, mas também como uma chave para a compreensão da cultura nacional; portanto, esta pesquisa também relaciona processos históricos com a transformação da linguagem oral do Brasil. Ainda dentre os aspectos culturais e históricos, este trabalho aponta algumas razões possíveis para a bem sucedida interação social entre brasileiros e imigrantes italianos e algumas explicações para uma influência tão forte e marcante da Língua Italiana no Português do Brasil.



OBJETIVOS

O objetivo geral desta pesquisa é conhecer um pouco melhor a Língua Portuguesa utilizada no Brasil e demonstrar como um idioma estrangeiro pode interferir na língua nacional. Especificamente, o trabalho pretende ilustrar como pessoas que tiveram forte contato com a Língua Italiana transpuseram construções sintáticas, vocabulário e outros elementos deste idioma para o Português.
Espera-se, como objetivo teórico, que o conteúdo desta pesquisa possa ser um ponto de partida para análises e estudos posteriores, a fim de que esta discussão possa ser aprofundada. Os resultados deste trabalho também podem ser utilizados para a disseminação e comprovação dos conceitos que afirmam o caráter mutável, o aspecto vivo das línguas e a idéia de que um idioma é reconstruído todos os dias pelos seus falantes.

PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS

O grupo, formado por quatro pesquisadoras, iniciou este trabalho com discussões sobre o tema e a estrutura a serem desenvolvidos. Definiu-se que o tema geral seria a influência de línguas estrangeiras na língua portuguesa, de acordo com a proposta inicial da disciplina. Como tema específico, foi escolhido “influências da língua italiana na língua portuguesa do Brasil”; como recorte espacial, a cidade de São Paulo.
Após debates, as pesquisadoras elaboraram o roteiro para a realização do trabalho, ou seja, uma versão preliminar e descritiva do sumário. Embora o conteúdo do trabalho seja de conhecimento de todas as integrantes do grupo e os textos utilizados como bibliografia tenham sido escolhidos e analisados por todas, a produção textual foi distribuída de forma homogênea. Isto é, a redação do trabalho foi dividida e a revisão final de todos os textos cuidou da padronização e da estruturação formal.
Os membros do grupo entraram em contato com entidades que reúnem descendentes de italianos e que organizam eventos temáticos. Desta forma, entramos em contato com o Padre Giorgio, da Igreja de Santo Antônio, situada na Praça do Patriarca (Centro de São Paulo), que concordou em conversar com o grupo. Neste encontro, o diálogo seguiu temas diversos: a imigração, a vida religiosa e social dos imigrantes, as dificuldades de adaptação dos italianos ao Brasil, entre outros. Posteriormente, as pesquisadoras discutiram e destacaram aspectos lingüísticos interessantes e relevantes para o trabalho, tais como a pronúncia de Padre Giorgio.
Outra parte da pesquisa também foi realizada em campo. Integrantes do grupo compareceram ao lançamento do livro Pastoral do migrante — suas relações e mediações, de Sidnei Marco Dornelas e Ana Cristina Arantes Nasser, publicado por Edições Loyola e pelo CEM (Centro de Estudos de Migração). Neste evento, ocorrido no ITESP (Instituto Teológico de São Paulo), foi exibido o documentário de Ugo Giorgetti, Em busca da pátria perdida, produzido para a TV Cultura. As pesquisadoras puderam observar a calorosa interação entre os presentes, dentre os quais havia um grande número de pessoas que falavam a Língua Portuguesa com forte sotaque italiano. As observações feitas no ITESP foram muito relevantes para a melhor compreensão de diversos aspectos culturais e para a coleta de mais algumas amostras das marcas lingüísticas resultantes da influência da Língua Italiana no Português falado na cidade de São Paulo.
A fim de obter referências, uma das pesquisadoras entrou em contato com uma estudante da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, que cursa a Graduação em Letras, com especialização em Italiano. A partir da troca de e-mails entre as duas, o grupo utilizou os livros indicados pela aluna de Letras e pôde, desta forma, enriquecer a pesquisa. As referências bibliográficas dessas obras estão indicadas ao final deste trabalho.
Outra pesquisadora apresentou ao restante do grupo revistas com conteúdo relevante para a pesquisa. O material foi primeiramente adquirido com o objetivo de proporcionar uma leitura não-utilitária, uma forma de lazer. Esta situação serve também para corroborar a visão de que a leitura é multifacetada: livros e outros suportes utilizados com finalidade acadêmica podem proporcionar momentos de prazer e materiais cujo objetivo primeiro era entreter podem ser objetos de estudo ou fontes de pesquisa.

A IMIGRAÇÃO ITALIANA PARA O BRASIL

As primeiras grandes levas de imigrantes italianos para o Brasil ocorreram para que a produção nacional de café não fosse prejudicada com a proibição do tráfico de escravos africanos e com a abolição da escravatura. O governo iniciou as tentativas de trazer europeus para o Brasil, mas foi incapaz de atingir este objetivo até agir em conjunto com os grandes produtores de café.
A abolição do tráfico de homens e mulheres africanos foi estabelecida pelo Tratado de Paris, em 30 de maio de 1814, mas não foi cumprida de imediato; o contrabando persistiu por anos e só foi encerrado de fato em 1850, com a Lei Euzébio de Queirós. A Inglaterra, grande potência marítima e econômica, tinha grande interesse em que, no Brasil, houvesse a substituição de escravos por trabalhadores assalariados. Isso significava ampliar o mercado consumidor para os produtos ingleses, já que o Brasil era seu parceiro econômico e um grande importador. Contudo, na mesma época em que realmente se proibia o tráfico de escravos africanos e começavam as campanhas abolicionistas, o cultivo do café alastrava-se pela região do Vale do Paraíba, e um colapso no fornecimento de mão-de-obra parecia um problema de difícil solução.
As chamadas Sociedades de Colonização, criadas a partir de 1850, surgiram por causa da necessidade de simplificar a burocracia governamental para a vinda de imigrantes e de diminuir os resquícios de atitudes escravagistas tomadas pelos produtores em relação aos imigrantes, mas sem deixar de aproveitar as vantagens de iniciativas privadas.
As companhias, ou sociedades, de colonização eram subsidiadas e regulamentadas pelo Estado Brasileiro. Um empreendedor comprava terras do governo a um preço mais baixo e, neste contrato de venda, eram especificadas todas as condições para a vinda de trabalhadores estrangeiros. O transporte dos imigrantes devia ser de qualidade e gratuito para eles, e o Estado Brasileiro pagava a esse empreendedor certa quantia por cada um dos imigrantes. Se determinado imigrante tivesse a intenção estabelecer-se como pequeno proprietário, a quantia que o empreendedor receberia seria maior do que o dobro da importância recebida no caso de um trabalhador assalariado; essa distinção prova o interesse do governo em colonizar o Brasil e não apenas suprir a necessidade de mão-de-obra.
O produtor de café que trazia europeus para o Brasil era proibido de cobrar taxas desses imigrantes por dois anos e, posteriormente, poderia cobrar 6% ao ano, no máximo. Muitos empreendedores deste tipo foram acusados de abusos, tais como transportar pessoas que não estavam presentes no contrato, enganar os trabalhadores com promessas falsas e outros. Os imigrantes, por outro lado, deviam conhecer suas obrigações e respeitá-las.
Algumas leis aperfeiçoaram esse sistema, permitindo ao imigrante permanecer gratuitamente na Hospedaria dos Imigrantes por oito dias, garantindo a eles transporte gratuito até a colônia onde se instalariam, entre outras vantagens. Embora as sociedades de colonização parecessem muito eficazes, estatísticas provaram o contrário: até meados da década de 1880, o fluxo de imigração para o Brasil foi muito pequeno. Em 1878, incomodado com esta situação, o Sr. Antônio de Queirós Teles, governador da província de São Paulo, percorreu vários países da Europa e concluiu que a vinda de italianos para o Brasil seria a mais adequada. Posteriormente foi criada a Sociedade Promotora de Imigração, que foi capaz de alavancar a vinda de trabalhadores livres europeus. Dentre as ações desta sociedade, destaca-se: não ter fins lucrativos; publicar A Província, que divulgava, em porções rurais da Itália, os processos para a emigração e suas vantagens; priorizar a vinda de famílias que já tinham parentes e amigos no Brasil e outras.
A Lei Áurea, que garantiu a liberdade a todos os escravos no Brasil, foi assinada em 1888. Como conseqüência da abolição, o descontentamento da elite proprietária de terras com a monarquia atingiu níveis muito mais altos e, no ano seguinte, foi proclamada a República. Os ex-escravos, ansiosos pela liberdade e por desvincular-se de quaisquer elementos que lembrassem a época de cativeiro, abandonaram as fazendas e isso criou a necessidade urgente de obter mão-de-obra livre e assalariada. A partir de 1888, portanto, aconteceu uma vinda maciça de imigrantes europeus para o Brasil.
Na Europa, várias razões motivaram a emigração. Destacam-se a instabilidade política surgida após o final das guerras napoleônicas e o descontentamento com o regime político e com a situação econômica precária. Outros motivos importantes eram as más condições de vida no campo e a proletarização, que enriquecia os grandes capitalistas e tornava-os favoráveis à emigração como uma forma de desfazer-se da população que era marginalizada.
Especificamente na Itália, havia outros fatores que impulsionavam a emigração. Tendo passado por um processo de unificação tardio, o país enfrentava problemas como a saturação demográfica e uma crise econômica acompanhada de extrema pobreza. Para a população — especialmente a que vivia no campo —, a emigração tornou-se a esperança de uma vida melhor, com a chance de trabalhar livremente e produzir a própria riqueza. Já para o governo, instaurado há pouco tempo, a saída do excesso populacional era favorável porque funcionava como uma válvula de escape: era uma forma de diminuir as tensões sociais, as probabilidades de golpes políticos e de insurreições populares, especialmente aquelas tidas como comunistas.
É importante destacar ainda características culturais que facilitaram a emigração de italianos para o Brasil. Após séculos de divisão em pequenas unidades políticas e uma unificação recente, grande parte da população ainda não havia desenvolvido uma consciência nacional ou noções mais fortes de patriotismo; prova disso é que os imigrantes que chegavam à América eram mais caracterizados de acordo com a região de onde vinham — venezianos, napolitanos, lombardos e outros — do que como italianos de fato. Esse desprendimento em relação à pátria facilitou a adaptação dos primeiros imigrantes no Brasil e as notícias que deles chegavam à Itália eram encantadoras para a população camponesa pobre, que também ficava fascinada com as maravilhas narradas pelos agentes de imigração.
A imigração italiana foi importantíssima para o Brasil, tanto por razões econômicas, como já se sabia na época, quanto por razões culturais, que hoje somos capazes de apontar — dentre elas, sem dúvida podem ser citadas as transformações na Língua Portuguesa. No entanto, para entender a real dimensão do fluxo de imigrantes italianos, convém analisar a tabela abaixo, extraída de Cenni (2003), com grifos nossos:

Movimento Imigratório Geral para o Brasil – 1819 a 1947
Alemães 253 849 Suecos 6 315
Austríacos 94 453 Suíços 18 031
Belgas 7 335 Sírios-libaneses [sic] 79 509
Franceses 12 103 Húngaros 7 461
Espanhóis 598 802 Poloneses 50 010
Ingleses 32 156 Iugoslavos 23 053
Italianos 1 513 151 Lituanos 28 961
Japoneses 188 622 Romenos 39 350
Portugueses 1 462 117 Tchecos 5 640
Russos 123 727 Diversos 347 354
TOTAL 4 903 991

A maior parte dos imigrantes italianos que vinham para o estado de São Paulo já havia constituído família. Há, porém, uma diferença entre os imigrantes vindos do Sul da Itália e os provenientes do Norte do país: enquanto os primeiros optavam por trabalhar em fazendas de café, os últimos preferiam a vida urbana e trabalhavam em indústrias ou atuavam como pintores, pedreiros, sapateiros, comerciantes ou outras profissões.
As várias regiões da Itália enviavam quantidades diferentes de emigrantes ao Brasil. Filippo Virgilli, em Cenni (2003) aponta:

É interessante conhecer em quais proporções as diversas regiões da Itália contribuíram a formar a massa migratória. De 1876 a 1886, a primazia pertenceu ao Vêneto, ao Piemonte e à Lombardia: estas três regiões forneciam, sozinhas, 64,4% da inteira emigração. De 1887 a 1890 o Vêneto continua em primeiro lugar, com uma quota ainda mais intensa, mas o Piemonte e a Lombardia são vencidos pela Campânia, que ocupa o segundo lugar, a pouca distância do Piemonte. De 1901 a 1914, o Vêneto continua em primeiro lugar, mas sua quota, que tinha superado os 36% da massa migratória, desce a 17%. Em segundo lugar vem a Sicília com 12,6%; em terceiro a Campânia com 11,1%, enquanto Piemonte e Lombardia seguem logo depois. Encontramos a breve distância o Abruzzo, o Molise, a Calábria, seguindo-se a Emília e a Toscana, as Puglie e as Marche, a Brasilicata e o Lazio.
Depois da Primeira Guerra Mundial, o Vêneto (com a Venezia Giulia e a Tridentina) volta ao primeiro lugar, que durante a guerra havia perdido. O Piemonte segue a distância, sendo próximas Sicília e Lombardia. Em seguida, a Campânia e a Calábria.

Embora o Estado Brasileiro desejasse atrair colonos, não dispunha de uma máquina de propaganda eficiente no exterior e, portanto, transferiu às sociedades de colonização e às empresas de navegação a tarefa de aliciar europeus, convencendo-os a emigrar para o Brasil. O resultado desta estratégia foi que não houve a menor preocupação em selecionar o tipo de emigrante que vinha para o país, pois as pessoas que os convocavam estavam mais interessadas nos subsídios que seriam oferecidos pelo governo por cada um dos imigrantes. Surgiu então, uma discrepância entre as expectativas do governo — como já foi dito, estabelecer núcleos coloniais e povoar o Brasil por meio de pequenos proprietários — e os anseios dos grandes produtores de café — obter mão-de-obra suficiente para suas fazendas.
Cabe destacar que, embora o governo tivesse planos de povoamento, ele também lucrava muito com a imigração. Mesmo gastando enormes quantias com a imigração gratuita, subsidiada, os cofres públicos lucravam muito mais com as taxas de exportação do café, cuja produção passara a depender da mão-de-obra estrangeira.
Ao contrário do que aconteceu na região Sul do Brasil, o estado de São Paulo, pelo menos a princípio, encarou seus imigrantes como mera substituição da mão-de-obra escrava, fazendo aparecer um “proletariado rural ambulante”, nas palavras de Cenni (2003). Contudo, os imigrantes italianos acabaram demonstrando que tinham um papel mais significativo. O plantio de café foi, de certa forma, a base para a industrialização de São Paulo porque forneceu o capital necessário às primeiras iniciativas industriais. A presença de um grande número de imigrantes italianos, além de colaborar efetivamente para a produção do café, tornou-se um elemento fundamental para as transformações que ocorreram na sociedade brasileira. Eles acabaram por influenciar a transformação da mentalidade vigente, já que os italianos, de fato, adaptaram-se ao novo país. Para entender melhor esse processo, cabe ressaltar algumas características do povo italiano, apontadas por Giovanni Papini, em Cenni (2003):

[...] O italiano é um povo que sofreu muitas desventuras e misérias, que sofreu injustiças e humilhações, mas que sempre trabalhou, fatigou, criou e inventou sem descanso, para si e para os outros, que molhou de suor áridos campos, que molhou com sangue todas as suas terras e os campos de batalha da Europa e da África, que percorreu, à procura de pão e de glória, todas as estradas terrestres e marítimas do mundo.

Os italianos foram os imigrantes que mais conseguiram tornarem-se pequenos proprietários de terra no Brasil, superando até mesmo os portugueses. Em suas propriedades plantavam, além do café, vários produtos e criavam animais para a subsistência. Esses colonos tinham ainda a visão de que era necessário acompanhar o comércio e, por isso, acabaram criando vários povoados que se tornaram cidades em curto espaço de tempo.
Embora os números que revelam a vinda de italianos para o Brasil sejam, de maneira geral, muito elevados, houve episódios em que essa tendência foi quebrada. Depois que o jornalista Adolfo Rossi escreveu um relatório muito desfavorável à imagem do Brasil frente aos possíveis emigrantes, pois revelava péssimas condições de vida e de trabalho — cumpre destacar que Rossi havia se baseado prioritariamente no primeiro período da imigração, ainda não estabilizado e organizado plenamente —, foi suspensa a licença que permitia que companhias de navegação fizessem o transporte gratuito de emigrantes para o Brasil.
Assinado pelo governo italiano em 1902 como reação às afirmações de Rossi, o chamado decreto Prinetti foi interpretado de forma negativa pelos brasileiros pois acreditava-se que ele era uma forma de dificultar a vinda de imigrantes para o território nacional. Contudo, a verdade é que ele apenas colocava o país em pé de igualdade com outros, também aptos a receber imigrantes, já que não proibia a emigração espontânea.
O artigo de Adolfo Rossi, contudo, abriu as portas para outros jornalistas que também se dispuseram a criticar a situação dos imigrantes em terras brasileiras. Além disso, a Argentina fez campanhas, de diversas maneiras, para inibir a emigração para o Brasil e estimular a ida de italianos para a própria Argentina, assim como maiores trocas comerciais entre os dois países. O resultado desses processos foi a queda do fluxo de emigrantes italianos para o Brasil, que se manteve nos anos posteriores. Há que se lembrar também que os imigrantes espontâneos acompanhavam as chances de enriquecimento e prosperidade e, por volta de 1900, o preço do café começava a baixar, diminuindo os salários dos trabalhadores rurais.
A partir de 1899, já suprida a necessidade de mão-de-obra para o cultivo do café, e com a redução da emigração mediante transporte gratuito, o governo brasileiro pôde cativar a emigração espontânea de italianos que desejassem estabelecer-se como pequenos proprietários de terra. Várias iniciativas, tais como novas leis, foram realizadas com esse objetivo; a fiscalização que evitava abusos contra os imigrantes foi aprimorada e leis que protegiam os colonos foram criadas pelo governo federal.
Por volta de 1905 aprofundou-se a crise de superprodução do café e as primeiras sacas foram compradas pelo governo do estado de São Paulo em 1906 a fim de restabelecer o preço do produto e evitar o prejuízo dos produtores. O grande fluxo de imigrantes italianos, portanto, encerra-se nessa época.

IL PARLAR GENTILE: A LÍNGUA ITALIANA NO BRASIL

A influência e a assimilação do imigrante italiano no Brasil foram maiores do que dos outros grupos de imigrantes que aqui chegaram durante os séculos XIX e XX. O italiano teve a favor de tal assimilação, segundo Maurício Martins do Carmo, “(...) os fatores de língua, região, culinária e talvez uma latinidade calcada no espontaneísmo cordial e rude, tão próximo daquele a compor a imagem que o brasileiro aprendeu a fazer de si mesmo.” 
Por esse motivo, o italiano foi o elemento imigrante que mais apareceu na produção artística. Além de servir como inspiração para personagens, a língua italiana também foi inclusa na narrativa. O exemplo mais extremo desse uso foram os contos e poesias de Juó Bananére (pseudônimo de Marcondes Machado), que fez o que é conhecido como “macarronismo”- uma mistura intencional de duas línguas para fins parodísticos. Embora o “italianês” de Bananére seja exagerado e caricaturado, ele foi inspirado na fala diária de imigrantes e descendentes observada pelo autor. Observa-se a oralidade, alterações ortográficas e o uso de termos italianos no seguinte poema: 

SODADES DE ZAN PAOLO

Tegno sodades dista Paulicéa,
dista cidade chi tanto dimiro!
Tegno sodades distu u azur,
Das bellas figlia lá u Bó Ritiro.
Tegno sodades dus tempo perdido
Sopano xoppi uguali d’un vampiro;
Tegno sodades dus begigno ardenti
Das bellas figlia lá u Bó Ritiro.

Tegno sodades lá da Pontigrandi,
Dove di notte si vá dá un giro
I dove u iro come n’un speglio
As bellas figlia lá u Bó Ritiro.

Andove tê tantas piquena xique,
Chi a genti sê querê dá un sospiro,
Quano perto per caso a genti passa,
Das bellas figlia lá u Bó Ritiro.

Tegno sodades, ai de ti – Zan Baolo!
Terra chi eu vivo sempre n’un martiro,
Vagabundeano come un begiaflore,
Atraiz das figlia lá u Bó Ritiro.

Tegno sodades da u ir fria,
Agitada co sopro u u iro,
Quano io dormia ingopa o collo ardenti
Das bellas figlia lá u Bó Ritiro.

Segundo Franco Cenni, já em 1890 existiam em São Paulo tabuletas escritas em italiano, cocheiros falando dialetos (especialmente o napolitano) e usando gestos específicos. 
Além disso, uma das razões para que a cultura italiana esteja tão presente no país dos emigrados é a sua determinação em não deixá-la morrer. O que se observa no Decálogo do Imigrante Italiano (Nuovo decalogo degli emigranti italiani), em dois pontos que gostaríamos de ressaltar: 

5. Non togliere um cittadino alla Patria cancellando in te la conscienza, il sentimento e la cittadinanza di italiano; non camuflare com uma trascrizione barbarica il tuo nome e cognome. 

7. Non sottrare cittadini alla tua Patria, lasciando che i tuoi figli perdano la loro italianità e vengano assorbiti dal popolo presso cui sei emigrato. 

Ou seja, “não apagar em si a consciência, o sentimento e a cidadania de italiano, não camuflar com uma transcrição bárbara o seu nome e sobrenome” e “não subtrair dos cidadãos a sua pátria, deixando que seus filhos percam a ‘italinidade’ e sejam absorvidos ao povo ao qual é emigrado”. 
Em seu livro Italianos no Brasil – “Andiamo in ’Merica”, Cenni fala um pouco sobre as origens do português. A língua portuguesa tem uma predominância de elementos latinos. O latim popular foi levado a Portugal por soldados e colonos romanos. A invasão posterior dos bárbaros germânicos não conseguiu suplantar o latim e fundiu-se a ele - a língua árabe não pode ser conciliada, embora muitas palavras se incorporassem ao léxico português. As conquistas dos séculos XV e XVI trouxeram elementos da Ásia, África, Oceania e Américas. As ciências e artes buscaram terminologias no grego. E o italiano teve sua época de maior destaque durante o Renascentismo, quando termos das artes, música e teatro se difundiram pelo mundo.
Segundo a Gramática Histórica da Língua Portuguesa, de Pacheco Júnior: 

Proporção de palavras de origem estrangeira no português (50.000) 

Italiano - 300
Espanhol - 130
Francês - 200
Alemão - 50
Outra (inclusive 300 do tupi) – 400

Tentaremos abordar as influências mais significativas em três partes: vocabulário, pronúncia e variação lingüística. 

1. Vocabulário

Algumas palavras são exatamente iguais em italiano e português, como: cantina, caricatura, cascata, fiasco, bravata, ribalta, sonata, partitura, ópera, contralto, soprano, violino, polenta, salame, favorito, mosaico, piano, poltrona. 
Outras perderam somente a consoante dupla, como: loteria, dueto, opereta, violoncelo, mortadela, ricota, risoto, soneto. 
Algumas são relativas às artes plásticas e militares e à arquitetura, como: colunata, capitel, fachada, nicho, aquarela, batalhão, capitão, coronel, esquadrão.
E algumas são de uso comum, como: pajem, parque, pastel, retrato, capricho, nhoque.
Dentre as palavras de origem italiana, gostaríamos de mencionar alguns casos particulares interessantes. Como, por exemplo, “agüentar”. Deriva do verbo agguantare, um termo náutico que significa segurar a corda da vela (com luvas, guanti). O termo passou do campo náutico a um sentido mais usual. 
Uma palavra transformada é o adjetivo “bisonho”, em português, inexperiente, acanhado. Vem do italiano bisogno, conjugação da primeira pessoa do singular do verbo bisognare, precisar.
Outra palavra que possui uma origem direta é “carnaval”. Vem de carne e levare (suprimir), pois a Igreja suprimia o consumo de carne a partir da terça-feira. Há variações de dialeto, como carnelevare, karnolevare, karnilevari. 
“Palhaço” vem de pagliaccio, uma personagem do teatro popular napolitano que vestia roupas feitas com fazendas usadas para forrar colchões de palha. 
“Gazeta” deriva do veneziano. Gazzetta era o nome de uma pequena moeda de cobre com a qual, no século XVI, se adquiriam exemplares de um jornal. 
“Carcamano” tem uma origem pitoresca. Vem do verbo calcare, pressionar. Diziam que os comerciantes italianos, quando o filho pesava um artigo para o freguês, falavam: “Calca la mano, figlio mio!” 
O Centro di Eccelenza della Ricerca da Univerdade para Estrangeiros de Siena fez uma pesquisa sobre os italianismos ao redor do mundo. O italiano está muito ligado aos contextos de restaurantes e alimentação, com palavras como pizza, ristorante, pizzeria, pasta, espresso, cappuccino e caffè em nomes de locais ou cardápios. 
Mas a palavra mais comum advinda do italiano é “tchau”, vinda de ciao. A origem remonta ao tempo que a saudação veneziana às pessoas de respeito era “Le sono schivavo”, que transformou-se em scivavo e depois finalmente em ciao.
Além disso, há o uso de termos italianos, na maioria interjetivos, como: porca miséria. A palavra robba significa algo de pouca importância, e é usada em expressões como bella robba (grande coisa, bela porcaria). A grafia em italiano é com a consoante dupla, mas o sentido é o mesmo, e a palavra é usada em frases como: Che roba é questa?, Che roba!, Bella roba davvero! Outro exemplo é o famoso “Mamma mia!”.


2. Pronúncia

A vogal “e”, quando tônica, é pronunciada aberta, mesmo quando interfira uma nasal, pois os italianos e descendentes não se acostumam com a nasal brasileira. Portanto, bêm é bê ou bé, tembém é tambê ou també, e assolutamente quase nunca é falado corretamente: absolutamente. O “i” tônico soa muitas vezes como é (benedêto ou maledêto), e sinto é quase sempre sênto. 
Quanto às consoantes, o “b” se transforma em “p”, como em patata por batata. O “c” passa a ser “g”, principalmente quando é inicial e seguido de a e o. M e n finais após a soam como om: falarom, puserom. Perda do “m” final em assim e mim. O “t” as vezes é mantido, como em tuto ao invés de tudo. O “dq” é repelido: perder-se o adquirir e volta o aquerir. Simplificação do “gn” em “g”, e perda do “d” do grupo “dj” (ajunto em lugar de adjunto). 


3. Variação lingüística

Na fala do italiano que aprende português e descendentes, é comum a troca da terceira pela primeira pessoa do singular, principalmente quando há vogal temática “i”. Isso ocorre com facilidade no pretérito perfeito do indicativo, correspondente no italiano ao passato remoto, cuja terceira conjugação apresenta formas regulares semelhantes para tais pessoas (io sentii, lui/lei sentì). 
Dentre as acomodações do falar paulista ao italiano está a formação dos plurais. O italiano, ao contrário da maioria das línguas latinas, toma o plural do caso nominativo e, portanto, sem o s do português e das línguas que tomam o plural do acusativo latino. Por exemplo: Una rosa, due rose; un bambino, due bambini. Assim, o italiano falante de português não faz a concordância verbal e nominal e diz “duas rosa”, por exemplo. 
Usa-se, em determinados segmentos, a primeira pessoa do plural do presente do subjuntivo, sem o “s” final, pela forma correspondente do indicativo: estudemo, escutemo, andemo. As conjugações no condicional desses verbos em italiano são, por exemplo: studieremmo, sentiremmo, andremmo. 
O gerundismo também vem do italiano. Enquanto em Portugal a construção correta é “estou a fazer”, o brasileiro diz “estou fazendo”, a partir do “stare facendo” do italiano. Essa construção é particular da língua italiana. 
Além disso, em algumas regiões do país, usam-se formas próprias da sintaxe do italiano, como “somos em seis”, “entrei de sócio”, “vou de sábado”, “jogo de goleiro” e “passo da sua casa mais tarde”, “TV a cores”.
INFLUÊNCIAS NO COTIDIANO DOS MIGRANTES

Nos debates a respeito da organização e do foco que teria esta pesquisa, as pesquisadoras entraram em um consenso de que o destaque geral da mesma seria para as transformações pela qual qualquer idioma passa ao decorrer da História dos países, bem como da História pessoal de cada falante. Tendo em vista que essa transformação é bilateral, considerou-se importante observar e indicar não apenas as influências da língua italiana sobre o português, mas também do resultado da mistura dos idiomas na pronúncia dos migrantes, bem como da mescla de culturas neles e em seus descendentes.
Para ilustrar essas diferenças e alterações, visitamos, a princípio, o lançamento do livro Pastoral do migrante – suas relações e mediações, o qual trata do trabalho feito pela Igreja da Paz com migrantes. Esse templo foi construído em 1940, por imigrantes italianos refugiados da guerra e que desejavam ter um local que pudesse manter exemplares de arte religiosa européia – como os afrescos e esculturas dos artistas italianos Fulvio Pennacchi e Galileo Emendabili. As obras de arte são hoje um atrativo para visitantes, mas o trabalho dessa igreja é, desde o seu início, lembrado pela assistência aos migrantes, foco do trabalho dos missionários de São Carlos, da Congregação Escalabriana.
A princípio, a assistência da Igreja da Paz foi prestada aos imigrantes italianos, a começar por seu posicionamento estratégico no Glicério, ponto de convergência de bairros operários da imigração. Mas o trabalho se expandiu – os párocos chegaram a assistir imigrantes coreanos e mantém, hoje, auxílio a imigrantes latino-americanos (com destaque para a comunidade boliviana), a migrantes internos (com forte presença de retirantes nordestinos) e a imigrantes italianos, trabalho que nunca foi interrompido.
As pesquisadoras compareceram ao coquetel de lançamento do livro supracitado, que ocorreu no ITESP – Instituto Teológico de São Paulo, localizado no bairro do Ipiranga. O evento teve início com um agradecimento por parte dos autores, em um tom muito amigável e que reforçou a sensação de familiaridade entre os presentes, seguido da transmissão do documentário Em busca da pátria perdida, produzido pelo cineasta Ugo Giorgetti, que se interessou também pelo trabalho da Igreja da Paz.
O documentário, que foi feito para a TV Cultura, mostra o migrante por um ângulo diferente do tradicional. Seu intuito, nas palavras de Giorgetti, é “reunir várias migrações num único momento, o momento da missa, em que eles estão mais perto da pátria que perderam”. O filme é dividido em três partes – a missa italiana, a missa latino-americana e a missa brasileira - mas, por a fundação da igreja ser italiana, a presença, no evento, de migrantes desse país, bem como de seus descendentes, era notável.
Para todos os lados, ouvia-se a pronúncia do português com forte sotaque italiano (no coquetel após a exibição do documentário, foi oferecida cervegia – na pronúncia, algo como cervédja – às pesquisadoras), bem como risadas altas e conversas calorosas, cujos participantes geralmente utilizavam-se de largos gestos manuais para auxiliar a comunicação.
A observação da forma de expressão das pessoas nesse ambiente foi de grande importância – principalmente no que diz respeito ao gesticular, que acreditamos ter sido adotado e ter influenciado muito na comunicação dos brasileiros -, mas o nosso principal contato e auxiliar de estudo na comunidade italiana foi o Padre Giorgio.
Nativo de Treviso (província de origem dos primeiros migrantes italianos a virem para o Brasil), e membro da Congregação Escalabriana, o padre Giorgio é o responsável pela celebração das missas em italiano na Igreja da Paz, mas atua também na Igreja de Santo Antônio, onde cedeu uma entrevista para este estudo. A entrevista com o padre Giorgio foi muito proveitosa e abordou diversos assuntos. O padre é uma pessoa muito calorosa e atenciosa, o que é uma característica marcante de seus conterrâneos.
O padre narrou suas experiências pessoais e sua trajetória junto à congregação – foi enviado em missão ao Brasil, ficando de 1962 a 1964 em São Bernardo dos Campos (no estado de São Paulo), período durante o qual aprendeu pouco do português, uma vez que se mantinha entre seus conterrâneos, comunicando-se por dialetos. O seu conhecimento do idioma foi aprimorado entre 1964 e 1969, quando trabalhou na cidade do Rio de Janeiro, onde aumentou seu contato com as pessoas, com os brasileiros. Em 1969, foi transferido para São Paulo (capital), onde permanece até hoje.
Durante todo o tempo em que permaneceu no Brasil, o Padre Giorgio teve diferentes experiências humanas – segundo ele, o povo brasileiro expressa sua religiosidade de forma muito mais afetuosa e carinhosa do que os italianos – e idiomáticas – a começar pelo fato de que, quando da sua chegada, as missas ainda eram rezadas em latim (fato que só mudou depois do Concílio Vaticano II), passando também por uso abrangente do italiano entre migrantes e do português, tanto na adaptação da Igreja Católica com relação às missas, quanto da abertura da Igreja da Paz na assistência não só a migrantes externos, como também a internos.
Tantas alterações mantiveram no padre, como acontece com tantos migrantes, um idioma com pronúncia e articulação próprias e maleáveis.
Segue abaixo a lista de peculiaridades observadas na fala do padre, bem como sua relação com as línguas portuguesa e italiana:
- dificuldade na pronúncia do “s” final em palavras no plural, o que já foi tratado no tópico anterior; 
- troca da preposição “por” por “per”, sua equivalente na língua italiana;
- “em Rio de Janeiro”, “fiquei do 64 ao 69” – dificuldade no uso correto de preposições;
- dificuldade na pronúncia da palavra “não” e de todas as palavras que terminam com “-ão” – devido a essa dificuldade, fala-se “-on”.
Para ilustrar essas e outras peculiaridades da fala do padre Giorgio, oferecemos a transcrição de um trecho da entrevista. Um fato curioso observado por nós foi a alternância entre a fala do português correto e a fala com influência da língua materna do padre. 


Pergunta: Quando o senhor veio pro Brasil? 
Padre Giorgio: Acontece que nós trabalhamo em 30 paíse com assistência aos migrantes. A gente agora, como a Santa Sé, usa a palavra, não usa mais "imigrante" e "emigrante", ma a palavra "migrante" para dizer migrante interno e migrante no exterior. É para incluir marítimo e pescadores também, mas sobretudo marítimos e também, às vezes, aquele que passa para o turismo, que precisa de uma assistência. Mas os marítimo, per esempio, nós assistimos em Santos, em Rio de Janeiro, o marítimo também não sabe onde ir. Sai dos navios muita gente. Também em Buenos Aira e também lá em New York fazemo esse trabalho, e nos portos italianos. E enton, cada um de nós, ele teve uma destinação por parte dos superiores. Hoje já eles expressa aonde gostaria de trabalhar, daí o superior vê se é possível contentar a pessoa, ma no nosso tempo, onde te mandava, tinha que ir. Enton, ele nos chamo, era quase 12, 13 padres já, naquele tempo era tanto assim, agora quase não tem padre italiano, a maioria nossa agora é quase brasileira. Então, ele dizia, 'Você vai no Brasil, você vai nos Estado Unido, você vai na Austrália, você vai no Canadá, você vai na Suiça', e assim ia distribuindo. Eu tinha aprendido o inglês, que ainda lembro muito bem. Porque? Porque quando nós nos formamos nos 60, a última migração italiana foi no Canadá e na Austrália. Tanto é verdade que tiveram que mandar per navio, navio de mulhere para que os italiano pudessem encontrar mulher pra casar, se non tinha só ingleses lá. Verdade isso! É... mas, então, me destinou pra cá, eu vim para cá e fiquei de uma vez. 
Pergunta: E o senhor já tinha aprendido português antes? 
Padre Giorgio: Non, non, non... eu fiquei dois ano em São Bernardo, na paróquia matriz, fiquei dois anos, 62, 64 em São Bernardo. Pois fui para o Rio de Janeiro, aí no Rio de Janeiro eu fiquei do 64 ao 69 e foi bom para mim. Seja pela língua, porque, ficando em São Bernardo, falava dialeto enton todo mundo me entendia, apesar de eu não ter aprendido ainda o português. Ma no Rio de Janeiro foi bom para a língua, depois era o tempo dos Mariano, filho de Maria, enton, todo aquele mundo lá... E construímo uma nova Igreja, enton fiquei até 69 lá. E do 69, vim para São Paulo.

RELATÓRIO SOBRE O DOSSIÊ LÍNGUAS DO BRASIL

“As línguas são afetadas, no seu funcionamento, por condições históricas específicas.” Esta frase, retirada do dossiê “Línguas do Brasil”, da revista Ciência e Cultura, explica e sintetiza o ponto fundamental desta pesquisa: uma língua não possui caráter estático, mas sim enfrenta processos de mudança ao entrar em contato com um outro idioma.
Outro dado inicial muito importante, e que também é introduzido pelo Dossiê, é a possibilidade de classificação de uma língua em quatro categorias distintas, a partir do referencial de seu falante. São elas:

- Língua Materna – língua praticada pelos membros da sociedade na qual o indivíduo nasceu;
- Língua Franca – língua utilizada como intermediadora na comunicação de dois sujeitos que possuem línguas maternas diferentes;
- Língua Nacional – língua que representa a unidade de uma nação, a ideologia de um povo;
- Língua Oficial – língua utilizada nos processos legais e administrativos do Estado.

É importante ressaltar que essas categorias acima apresentadas possuem e atribuem às línguas uma identidade muito mais complexa, já que a Língua Materna de um indivíduo pode ser diferente da Língua Nacional do país em que vive; ou ainda, esta última pode não ser necessariamente a Língua Oficial deste mesmo país.
Desta forma, a leitura do dossiê contribui de maneira muito significativa para um melhor desenvolvimento teórico do tema abordado pelo grupo, porque introduz dados que facilitam a compreensão do fenômeno da convivência de várias línguas dentro do contexto de uma mesma nação e o processo de assimilação de alguns elementos de uma língua por outra, a partir do momento em que são praticadas de maneira próxima, sem separações físicas.
No Brasil, por exemplo, ambos os casos (já que o segundo é desencadeado pelo primeiro) possuem bastante expressividade. O Português praticado diariamente aqui diferencia-se tanto do Português trazido diretamente da terra de nossos colonizadores que alguns estudiosos defendem a chamada Língua Brasileira. Essa especificação da língua praticada pelo povo brasileiro deu-se primeiramente devido ao contato da língua do colonizador com a do colonizado, ou seja, do português com as línguas indígenas. Depois veio o período da escravidão, e com ela a cultura e a língua oriunda de povos africanos. 
Posteriormente, o Brasil assistiu a chegada de imigrantes de várias partes do mundo, inclusive italianos, e cada povo foi acrescentando elementos de sua linguagem à nossa língua. Retomando a primeira frase deste relatório, o Português de Portugal diferencia-se do nosso Português porque não conviveu com processos históricos semelhantes.
Devemos destacar o fato de que o Dossiê, ao utilizar exemplos práticos como os citado acima, deixa bem claro que o processo de assimilação das Línguas Indígenas e Africanas pelo Português, não se distancia do mesmo processo ocorrido com as Línguas Européias. Acontece que, como as primeiras eram consideradas Línguas Inferiores, seu uso propriamente dito foi perseguido pelo Estado, enquanto os imigrantes conseguiram preservar grandes traços de sua cultura.
“As línguas estão sempre em relação e sempre se tornam outras.” No caso específico desta pesquisa, a relação estabelecida entre o nosso Português (já alterado por outras culturas) e o Italiano, não resultaram em uma nova língua, porém seus traços são marcas claras, predominantemente orais, como já foi visto nesta pesquisa, e são mais comuns especialmente nas regiões que receberam um fluxo maior desses imigrantes, como por exemplo a cidade de São Paulo, que décadas após o grande fluxo migratório de italianos, continua a comer pizzas de sexta-feira.
CONSIDERAÇÕES FINAIS

Como já foi citado anteriormente no relatório do dossiê, “As línguas são afetadas, no seu funcionamento, por condições históricas especificas.” Pretendemos, com esse estudo, verificar a validade dessa afirmação no caso dos imigrantes italianos no Brasil, e os efeitos que essa migração em massa teve na Língua Portuguesa. 
Após uma pesquisa teórica e prática, pudemos estabelecer as principais manifestações da língua italiana na vida do brasileiro, seja ele imigrante ou descendente, ou não. Descobrimos que a cultura italiana é ainda muito viva no cotidiano, apesar da última grande onda de imigração ter ocorrido décadas atrás. Ainda existem eventos, reuniões e inclusive missas na língua italiana, e a comunidade continua orgulhosa da sua origem. Uma origem que está intimamente ligada com a personalidade do brasileiro, pelo menos nas regiões que mais abrigaram os migrantes. Sua presença ocasionou uma das mudanças mais profundas e indeléveis na cultura, na língua e no jeito de falar do brasileiro. Expressões, vocábulos e alterações na gramática do português de Portugal podem ser observados em grande quantidade, como pudemos apurar a partir de outros estudos e através de conversas com os próprios imigrantes e descendentes. 
Em suma, esperamos que esse estudo tenha conseguido abranger as principais influências da língua e do imigrante italiano no Brasil. Indagações futuras poderão ser feitas para aprofundar o assunto. 

FONTES DE PESQUISA
CENNI, Franco. Italianos no Brasil: “Andiamo in ’Merica”. São Paulo: Edusp, 2003.
CARMO, Maurício Martins do. Paulicéia scugliambada, paulicéia desvairada: Juó Bananére e a imagem do italiano na literatura brasileira. Niterói: Editora da Universidade Federal Fluminense, 1998
Núcleo Temático: Línguas do Brasil. In: Rev. Ciência e Cultura. São Paulo, ano 57, n.2, p. 21-30 e 42-46.
Documentário: Em busca da pátria perdida - produzido por Ugo Giorgetti e dirigido por Cassio Giorgetti. Estréia na TV Cultura em 2009.