O Esporte que precisa ser tratado como um

O Esporte que precisa ser tratado como um

André Martins Gonçalves

No Pebolim, todos os gols valem 1 – inclusive os de goleiro. (Créditos: Reprodução Internet/Portal de Dicas)

“Ta aberto ein, o canto ta aberto!!”, provocou Letícia Tanaka, momentos antes de fazer o gol com o atacante central no Pebolim. A estudante de Jornalismo da USP, que pratica a modalidade no espaço da Vivência, costuma jogar com seus amigos em seu tempo livre.

O Pebolim é considerado um esporte profissional, quando organizado com estruturas e regras. O jogo consiste na reunião de duas ou quatro pessoas para “reproduzir”, em mesa, uma partida de futebol em menores proporções. Os praticante são divididos proporcionalmente em dois times, cada qual possui onze bonecos acoplados em quatro eixos representando os jogadores de futebol, e intercalados a partir da segunda fileira.

Controlados por manetas, a disposição desses bonecos varia conforme alternativas táticas, sendo a mais comum e adotada pelas principais competições o 2-5-3. O primeiro eixo é onde se encontra o goleiro; o segundo é onde ficam os dois bonecos da defesa; no terceiro, é onde se dispõem os cinco jogadores do meio; e no quarto e último eixo ficam, “na banheira”, os avançados.

A invenção do Pebolim é motivo de disputa entre Alemanha e Espanha. Os espanhóis consideram o jogo como patrimônio nacional e acreditam que tenha sido inventado durante a Guerra Civil Espanhola. Alexandre de Fisterra, o responsável, teria criado o jogo para que crianças feridas, impossibilitadas de jogar futebol assim como ele, pudessem praticar uma variação do esporte. Segundo essa versão, o galego teria patenteado a invenção em 1937, mas perdeu os papéis da patente.

O Pebolim teve uma rápida divulgação na Europa, grande parte devido ao fato de que fabricantes espanhóis assumiram o jogo como nacional e terem intensificado tanto a produção quanto a sua disseminação. Os alemães contestam, alegando que já em 1930 um alemão tinha comercializado uma mesa de futebol.

Em 2002, foi criada a International Table Soccer Federation (ITSF), apesar de na década de 60 alguns países já terem criado federações nacionais para regulamentação e organização de competições. O Brasil filiou-se em 2007, com a criação da Associação Brasileira de Pebolim ou Federação Brasileira de Pebolim, Febrape.

Apesar da ITSF utilizar “futebol de mesa” como a nomenclatura oficial, esta não pode ser adotada no Brasil. Devido à existência de uma Federação antiga com este nome, de Futebol de Botão, utiliza-se Pebolim; mas a variação de nomes pelo Brasil é diversa, como: Fla-flu, no Rio Grande do Sul; Totó, no Rio de Janeiro e em alguns Estados do Nordeste; e Pacau, em Santa Catarina. No cenário internacional, essa variedade também é extensa: é chamado de Matraquilhos em Portugal, Futbolín na Espanha, Metegol na Argentina, Foosball nos EUA, Baby-foot na França e Tischfussball na Alemanha.

No Brasil, os torneios oficiais são recentes. O Campeonato Brasileiro é o torneio nacional de Pebolim, organizado pela entidade máxima no Brasil. O primeiro ocorreu em 2008, disputado nas categorias Individual e Duplas, e seguiu com este formato até 2010. Em 2011, a ABP lançou um torneio com diversas categorias: Individual Open, Duplas Open, Sênior (para maiores de 50 anos), Júnior (para menores de 18 anos) e Feminino. Este ano marcou, ainda, a estreia da 2ª divisão na categoria Individual Open.

Os participantes dos torneios são clubes associados à Federação. Concebida com a ideia de possibilitar a prática do Pebolim entre familiares e amigos, a Ultimate League Pebolim Football (ULPF) é um dos 7 clubes do Estado de São Paulo associados à Febrape. A ULPF também organiza campeonatos internos, com estrutura, prêmios e classificação. “A ULPF tournou-se respeitada na área e membro da Associação Brasileira, justamente por ser regrada e valorizar o esporte”, segundo um dos fundadores, Rafael Matias Silva, de 35 anos.

Entretanto, ele também conta que “a liga completa 2 anos em pausa”. A falta de quórum e a perda de 2 amigos que participavam da Liga foram um dos motivos, conforme desabafa Rafael. Bem como o empresário José Luiz Nascimento, da Federação Capixaba de Pebolim, que declara que a FCP também está parada atualmente. Ele, inclusive, assevera: “estou tentando fazer algo maior ano que vem, mas é muito difícil sem investimento”.

O presidente da Febrape desde sua criação em 2007, Clayton Fonseca, possuía o sonho de competir em um mundial desde que conheceu a ITSF pela internet. O fundador de 46 anos da Associação teve sua aspiração atendida já no ano de fundação, 2007, com a filiação à ITSF. “Fomos muito bem recebidos na Itália. Nos foi demonstrado como jogar profissionalmente em alto nível e enxergar o Pebolim como esporte de verdade”, conta Clayton.

Desde então, a Febrape envia uma delegação Brasileira para 6 Mundiais e 3 Copas do Mundo. “Trouxemos tudo o que aprendemos para o Brasil e começamos a organizar torneios oficiais a fim de apontar nossos melhores jogadores para representar lá fora”, alega o presidente. Questionado sobre o papel e os objetivos da Federação, Clayton afirma: O Papel e os objetivos da Febrape são atrair jogadores de todo o Brasil, descobrir novos talentos, unir e preparar jogadores que demonstrem potencial e que queiram levar o esporte a sério para competir na Copa do Mundo e nos Mundiais realizados nos EUA e na Europa”.

Sobre as projeções, ele completa que estas são “estar cada vez mais visível a todos utilizando os meios possíveis para a atração tanto de jogadores já existente quanto de novos adeptos”. Para o presidente, a maneira de realização desse propósito é “semelhante à um ‘trabalho de formiguinha’, pois não dispomos de recursos financeiros”. Ele também revela que as ações da Febrape são engendradas com seus recursos próprios e com o que é arrecadado com os torneios – mas que mal cobrem a logística de organização.

Clayton lamenta a falta de recursos para ”viajar o Brasil e levar o aprendizado e crescimento da prática do pebolim como esporte para todos os cantos, como gostaríamos, e de fazer divulgação em mídia para atrair mais adeptos”. Além disso, ele conta que “Até hoje, todos os competidores que tiveram a oportunidade de disputar grandes torneios foram com recursos próprios. Devido à isso, não conseguimos enviar nossos melhores jogadores, apenas os que tinham recursos suficientes para arcar com as despesas por si próprios”. Fonseca crê que a Febrape não está em melhores colocações nos rankings internacionais por causa desta situação.

Sobre o atual cenário do Pebolim no Brasil, todos os praticantes entrevistados afirmam em uníssono: a falta de investimento torna-o complicado, acabando por corroborar a manutenção da situação. José Luiz tem a opinião de que “aqui no Brasil é muito complicado, não tem investimento nenhum nessa modalidade”, mas completa, esperançoso: “temos esperança que isso mude”. O presidente da Associação Brasileira enxerga como um “grande problema para a evolução do esporte no nosso país vem da cultura de se achar que mesas de Pebolim são todas iguais”.

O mesmo ainda acrescenta, “para piorar ainda um pouco mais, as mesas que dão a condição de jogo profissional custam pelo menos 4 vezes mais do que a mais barata oferecida no mercado”.Rafael enxerga a escassa divulgação e o baixo reconhecimento como fatores principais na determinação de tal cenário. “Hoje em dia as crianças não conhecem o Pebolim, é difícil encontrar a mesa em shoppings, em parques”, asserta o membro da ULPF.

Outro ponto de confluência dos entrevistados pelo BJE é o início da prática esportiva: todos, sem exceção, tiveram seu primeiro contato com a modalidade ainda na infância ou na adolescência. Rafael teve sua primeira experiência aos 17; Letícia “brincou” pela primeira vez com 15; Clayton joga desde os 14; e José começou a praticar aos 8. Desta forma, torna-se evidente a importância da iniciação logo nas primeiras fases da vida, demonstrando que tal fomentação, como já citado, é de extrema relevância para o desenvolvimento do Pebolim como esporte.

André Aloísio, um dos diretores do Clube os Funcionários do SERPRO, comenta que a principal intenção do Clube em organizar um campeonato de Pebolim é o de “incentivar a prática esportiva, o lazer e a interação entre os associados”. O CFS, localizado em São Paulo, conta com uma boa frequência e interatividade na prática do Pebolim por parte de seus associados, conforme André.

“Acho que o que mais dificulta a prática é o acesso, pelo menos foi o meu caso. Resolvendo ou minimizando essa situação, a prática do Pebolim tende a aumentar”, conclui Letícia. Com isto, a profissionalização do Pebolim como esporte, por conseguinte, tende também a aumentar. A próxima edição da Copa do Mundo do Pebolim será em 2019, na Espanha. Fica esta mensagem para, já de imediato, melhorarem as condições para uma melhor representação na competição.

amgoncalves@usp.br