Camisa 12: o novo telejornalismo e as aulas da Profª Flora Neves

Por Luciano Maluly

Já estamos começando a nos acostumar com as palavras da moda do novo telejornalismo, como live, webinar, entre outras formas de transmissão digital que estão sendo amplamente difundidas neste período de distanciamento social, em decorrência da pandemia causada pelo novo coronavírus (COVID-19).

Como professor de radiojornalismo na Universidade de São Paulo, parece que retornei ao começo do século XX como um personagem do filme “A Era do Rádio” (1987), de Woody Allen.

O atual método de telejornalismo trouxe a oportunidade de conhecer as propostas de pessoas de difícil acesso, do leigo ao especialista. Se Bertolt Brecht estivesse vivo teria criado, junto com Umberto Eco, uma nova “Teoria da TV 2020” em que a produção é fruto da falação e vice-versa.

O oposto é a qualidade da transmissão com imagens (ou faces) estranhas de quem está grudado na câmera, sem foco, tudo borrado ou “reproduzido no meio de um barulho infernal, tudo distorcido, arranhando os ouvidos (…), uma curiosidade sem maiores consequências” – parafraseando a famosa frase de Edgard Roquette-Pinto ao descrever a primeira transmissão oficial do rádio no Brasil, durante Exposição em comemoração ao Centenário da Independência, no Rio de Janeiro, em 1922.

Logo lembrei das aulas de Telejornalismo da professora Flora Neves quando fazia o curso de Comunicação Social, com habilitação em Jornalismo, na Universidade Estadual de Londrina (PR), no início dos anos 1990.

Ai de nós se errássemos o enquadramento, o foco ou mesmo se esquecêssemos de gravar o plano sem contraplano ou a imagem sem preenchimento de tela (o “ponto ouro”, como reforçava o professor Ossamu Nonaka, o famoso Shoni).

Era inadmissível não fazer o balanço de branco antes do começo da gravação ou mesmo estar vestido com roupa xadrez ou quadriculada.

Nossa obrigação era decorar os diversos planos de enquadramento da câmera:  geral, americano, conjunto, aberto, médio, fechado (close-up e suas variáveis, sendo que eu e o Caio Júlio Cesaro adorávamos o big-close), entre outras variações.

Além disso, havia exercícios contínuos sobre os diferentes ângulos (normal, plongée, contra-plongée, frontal, ¾, perfil, de nuca etc.) e os movimentos (pan, tilt, dolly, travelling, entre outros).

Ufa! “O importante é conhecer o conceito”, como ainda reforça o timaço de professores de telejornalismo da ativa composto por Valquíria Aparecida Passos Kneipp, Luiz Fernando Santoro, Egle Muller Spinelli, entre outros.

Retornando aos tempos de UEL, nada escapava aos olhos da nossa professora que exigia, no mínimo, a reportagem com uma passagem bem feita, duas entrevistas (sonoras) e offs com locução segura e coberto por imagens que reforçavam o texto, fora a difícil tarefa da edição.

O meu primeiro grande desafio como repórter universitário foi produzir uma matéria especial sobre o Pronto-Socorro da UEL. Quando cheguei ao local, tendo meu colega Derri Francis Borges como cinegrafista, lá estava Flora para ajustar as nossas posições e auxiliar na construção da reportagem.

Já a segunda atividade da disciplina de Telejornalismo foi engraçada. Agora, eu seria o cinegrafista de uma estudante de Relações Públicas que cursava a disciplina como “ouvinte”. A nossa missão era cobrir um treino do time juvenil de futebol masculino do Londrina Esporte Clube. Estávamos sem ideias para a passagem que é, resumindo, a gravação direta do repórter no local do acontecimento.  Porém, para nós (os estudantes-focas), aquele era o momento sublime que revelaria a nossa criatividade por escolher a cena principal do repórter que seria exibida durante a matéria. De repente, olhei o banco de reservas e não tive dúvidas: pedi a camisa do goleiro reserva emprestada. Morrendo de vergonha, a minha colega fez a gravação vestida com a camisa 12, como se estivesse sendo chamada para entrar em campo e substituir o goleiro titular.  Foi uma vitória e tanto, especialmente após os elogios e risos em sala de aula.

Não era fácil, mas ser repórter de TV, nem que fosse por poucos minutos, era o mais sentimento mais nobre de um estudante de jornalismo.

Agora, nada disso parece importar, porque a ordem é fazer tudo sem custo, seja amador, seja profissional. Porém, quando acesso uma transmissão digital, inclusive reportagens móveis (mobile) e podcasts, penso na professora Flora Neves, no público e reflito sobre as “novidades” midiáticas, chegando à seguinte conclusão: parece tudo tão igual e diferente.

Luciano Maluly é professor de Jornalismo na Universidade de São Paulo. E-mail: lumaluly@usp.br