As lutas antifascistas das torcidas de futebol: reflexões e indagações (Parte 2)

Por Felipe Tavares Paes Lopes

Retomo, nesta coluna, a discussão sobre as manifestações de torcedores e torcedoras realizadas nos meses de março e junho deste ano contra o governo Bolsonaro e a favor da democracia. Desta vez, todavia,  busco mostrar como essas manifestações problematizam algumas narrativas acadêmicas sobre o futebol. Como sabemos, alguns dos primeiros estudos desenvolvidos no Brasil sobre o tema baseiam-se nas obras de Althusser, Adorno e Horkheimer, interpretando o futebol ora como um Aparelho Ideológico de Estado, ora como parte da Indústria Cultural. Um exemplo desse tipo de interpretação pode ser encontrado no clássico “Futebol: ideologia do poder”, de Roberto Ramos. Certamente, tais narrativas trouxeram grandes contribuições para a compreensão dos significados e das funções sociais do futebol na sociedade brasileira, mostrando, entre outras coisas, que seu exame rigoroso exige uma teoria social crítica, capaz de elucidar as formas como tal esporte se entrecruza com relações de dominação. Todavia, não podemos fechar os olhos para algumas de suas limitações, iluminadas por eventos como os supramencionados.

Em primeiro lugar, a apropriação que as referidas narrativas fazem das obras de Althusser, Adorno e Horkheimer parece ser um pouco limitada, convertendo o futebol em mero epifenômeno da ordem econômica, ignorando sua (relativa) autonomia. Consequentemente, perdem de vista que o futebol, assim como a cultura de modo geral, é um espaço de disputa, marcado por conflitos entre forças antagônicas, que visam intervir, de modos distintos, nos rumos de seus acontecimentos e no da vida política do país. As próprias manifestações em questão foram objeto de ampla controvérsia, suscitando, ao mesmo tempo, apoio e repúdio dentro das torcidas. O fato de o futebol ser um espaço de disputa não significa, todavia, que os conflitos entre seus atores e atrizes se desenvolvam em espaços estruturalmente simétricos. Há, obviamente, indivíduos e instituições com muito mais poder (econômico, político, simbólico etc.) do que outros. Todavia, isso não é suficiente para calar as vozes dissonantes e anular a possibilidade de resistência.

Assim, considerando que o futebol abriga grupos que efetivamente podem constituir um desafio à ordem social dominante, como, então, interpretá-lo como um elemento integrador e unificador da sociedade? Como interpretá-lo como algo capaz de abafar as tensões e contradições nela existentes? Como um artifício capaz de garantir a reprodução do status quo? A única resposta possível para essas questões é argumentar, como fazem alguns althusserianos, que, a despeito de ser caracterizado por formas encarniçadas de lutas, em última instância, ele estaria a serviço das forças dominantes. Este argumento, todavia, parece-me frágil. Por que em última instância ele serviria a tais forças? O que justifica essa afirmação? Trocando em miúdos: as recentes manifestações de torcedores e torcedoras organizados(as) e antifascistas parecem colocar em xeque a capacidade do futebol de cimentar a sociedade, ou seja, de construir consensos em torno dos interesses e valores de frações da classe dominante.

Em segundo lugar, ao jogar luz nos conflitos existentes no universo do futebol, apontando para a existência de vozes dissidentes, que fazem frente ao fascismo e lutam pelo aprofundamento da democracia, tais manifestações colocam em xeque a ideia de declínio do(a) torcedor(a), mobilizada pelas narrativas sob análise. Longe da figura do(a) alienado(a), de alguém que teve suas faculdades mentais atrofiadas e que perdeu a capacidade de pensar criticamente, devido aos (supostos) efeitos narcotizantes do futebol, os torcedores e torcedoras manifestantes revelaram disposição para lutar por uma ordem social alternativa, mais justa e solidária. Com efeito, as manifestações em questão indicam que os atores e atrizes engajados no processo de recepção/consumo do futebol não podem ser vistos como indivíduos passivos, facilmente manipuláveis por forças autoritárias e reacionárias. Mas, sim, como sujeitos ativos, capazes, inclusive, de articular, de forma organizada, a resistência a essas forças.

Felipe Tavares Paes Lopes é docente do Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Cultura da Universidade de Sorocaba – UNISO