Os 4 anos desde a medalha olímpica de Thiago Braz: uma análise sobre as vaias, a educação e a cultura

Por Marcelo Cardoso

Há quatro anos o atleta brasileiro Thiago Braz da Silva, então com 22 anos, conquistava a inédita medalha de ouro na modalidade Salto com Vara, nos Jogos Olímpicos de Verão do Rio de Janeiro, no Brasil. O feito histórico, como definiram jornalistas especializados, quase foi ofuscado por algo que tangenciou a competição.

O excesso de vaias de torcedores brasileiros, durante certas disputas, incomodava alguns atletas, organizadores do evento e, até, parte do público. O presidente do Comitê Olímpico Internacional, Thomas Bach, por exemplo, criticou o comportamento da torcida e o classificou de inaceitável.

O embate entre Thiago Braz e o francês Renaud Lavillenie foi acirrado e mexeu com o orgulho do nosso torcedor, presente no Estádio Olímpico Nilton Santos, o Engenhão, no bairro Engenho de Dentro, no Rio. O francês era o campeão olímpico e, portanto, o “cara” a ser batido. Parte da torcida, porém, o vaiou fortemente durante a prova e na cerimônia de entrega de medalhas.

Durante a competição as vaias aumentaram quando torcedores perceberam que o brasileiro só teria Lavillenie como adversário final a ser superado. Os apupos provocaram situações que foram do constrangimento à provável desconcentração do francês.

Thiago Braz superou o oponente atingindo a marca de 6,03 metros de altura e, além da medalha de ouro, bateu o recorde olímpico da modalidade. Lavillenie, por sua vez, demonstrou irritação e afirmou – em entrevista concedida à emissoras de TV e em posts nas redes sociais – que a bagunça o desconcentrou e o fez sentir desrespeitado.

O fair play, preconizado pelo espírito olímpico, foi deixado de lado, dentro e fora do campo da disputa. A polêmica foi alimentada pela imprensa e pelas redes sociais e gerou um processo de retroalimentação que ultrapassou 72 horas após a competição no Engenhão.

O atleta francês comparou o comportamento dos brasileiros aos dos alemães na Olimpíada de Berlim, em 1936, quando o chanceler Adolf Hitler pretendia demonstrar a superioridade da raça ariana, mas foi derrotado, na pista e simbolicamente, por Jesse Owens (James Cleveland Owen, morto em 1980).

O velocista norte-americano era negro e venceu quatro das principais provas do atletismo. Uma facada no coração nazista. A comparação de Lavillenie foi infeliz e incorreta, afinal, um público de várias nações aplaudiu Owen no Estádio Olímpico de Berlim. O francês se desculpou mais tarde e elogiou Thiago Braz.

Vaias pertencem à cultura esportiva do brasileiro

Vaiar o adversário é um exemplo de falta de educação do nosso torcedor? Ou seria algo aceitável porque o brasileiro não tem o hábito de torcer em certas modalidades esportivas?

Uma largada da natação paralímpica foi prejudicada pelo grito inesperado de um torcedor. Alguns atletas caíram na água e a largada foi anulada – Foto: Marcelo Cardoso

Eu estive nos Jogos Olímpicos e Paralímpicos de Verão em 2016 e, na época, resolvi tentar compreender a questão. No período de realização dos eventos entrevistei e conversei com professores, pesquisadores, atletas, jornalistas especializados em esporte e observei torcedores nas competições olímpicas e paralímpicas de atletismo, basquete, boxe, canoagem, judô, natação e rugby.

De forma geral todos explicaram que as vaias fazem parte da cultura esportiva do brasileiro: ele está acostumado a torcer, principalmente, em jogos de futebol onde gritos, vaias e até xingamentos são proferidos a partir das arquibancadas.

Outros esportes com forte apelo por aqui são o vôlei e o basquete onde o comportamento da torcida é semelhante. A mídia também tem um papel nesta “cultura da vaia” ao cobrir largamente os esportes mais admirados pelo brasileiro.

Ao transmitir a algazarra coletiva das arquibancadas, para milhões de ouvintes, internautas e telespectadores, a mídia auxilia a consolidar um comportamento-padrão no qual gritos, canções e vaias se tornam parte de um grande espetáculo. E, na maioria das vezes, os ruídos realmente produzem um bonito “colorido sonoro” antes, durante e depois das partidas.

No Rio, porém, algumas das modalidades esportivas envolviam particularidades. O atleta necessitava de segundos preciosos de silêncio para buscar concentração e, assim, evitar erros, ou melhor, atingir o seu máximo rendimento.

Nas arquibancadas cariocas, no entanto, havia torcedores que assistiam, pela primeira vez, certas modalidades e não faziam qualquer ideia sobre os rituais que precedem um salto, um tiro, uma largada, uma rebatida ou um arremesso.

Na ginástica, por exemplo, gritos e flashes de celulares “fotográficos” prejudicam o atleta. No tênis o juiz costuma pedir silêncio antes de recomeçar a partida e o torcedor não deve se levantar enquanto os jogadores estão em ação.

Quando assisti a uma prova de natação nos Jogos Paralímpicos, no Estádio Aquático Olímpico, vi a seguinte situação: nadadores se alinharam para a largada e o silêncio imperou. Eram nítidas a concentração e a imobilidade dos atletas, prontos para saltar para a água. Um repentino grito de apoio aos brasileiros ecoou da torcida e alguns nadadores se atiraram para dentro da piscina. A largada foi anulada.

Ao ver a cena, entendi que havia ali uma mistura de alegria exacerbada e certa dose de falta de educação, ambas permeadas pela inexistência de uma cultura esportiva mais diversificada. No Brasil, as vaias já eram relatadas pelos jornais em 1904, nos primórdios do nosso futebol.

Após um jogo entre São Paulo Athletic Club e Germânia, o Jornal do Commercio registrou em sua página o descontentamento com os apupos contra jogadores e juízes. O diário deixou claro que as vaias eram inaceitáveis e que, se continuassem, ameaçariam o próprio futebol.

Após os dois eventos, quando retornei para casa, refleti sobre um possível legado deixado pelos Jogos Olímpicos e Paralímpicos de Verão no Brasil. Acreditei que o contato do brasileiro com modalidades menos divulgadas por aqui, poderia, aos poucos, aumentar o interesse por aquelas práticas esportivas.

Em minhas reflexões lembrei que, em suas interfaces com outras áreas, o esporte pode ser uma poderosa ferramenta para a educação, para o incremento da saúde, do lazer e, também, da cultura em nossa sociedade.

Para conhecer mais:

O futebol explica o Brasil: uma história da maior expressão popular do país (Marcos Guterman). Editora Contexto, 2014. (p.25)

Olimpianos – Journal of Olympic Studies: A medalha de ouro de Thiago Braz da Silva e o Olimpismo: um estudo da cobertura do portal Uol nos jogos Olímpicos de 2016 (Marcelo Cardoso), 2017. Disponível em: http://olimpianos.com.br/journal/index.php/Olimpianos/article/view/8

Raça. Direção de Stephen Hopkins. 2h03 min. Canadá, Alemanha, 2016. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=LiooRD3Iej0

UOL. Coluna Roberto Salim: Primeiro treinador de Thiago lamenta vaias a francês: “Coisa de futebol”, 2016. Disponível em: https://olimpiadas.uol.com.br/colunas/roberto-salim/2016/08/19/primeiro-treinador-de-thiago-lamenta-vaias-a-frances-coisa-de-futebol.htm

Marcelo Cardoso é jornalista e professor universitário. Pesquisa o jornalismo, o rádio e o podcast em suas várias interfaces com o esporte – contato: Facebook, Instagram @cardosomarcelo68 e Twitter @MCardoso68