De olho no doping esportivo – Parte 2

O texto a seguir integra a série que discute o doping no esporte e tem o objetivo de auxiliar o leitor a compreender melhor o tema. O conteúdo é parte do que o professor Marcelo Cardoso trabalhou em aula, neste semestre, com alunos do curso de pós-graduação em Jornalismo Esportivo e Multimídias da Universidade Anhembi-Morumbi (SP). A colaboração da estudante foi voluntária e gratuita.

Por Sarah Américo

Falta de conhecimento ainda faz doping ser um tabu 

Quando matérias jornalísticas são publicadas a respeito do doping no esporte, o primeiro pensamento para muitas pessoas é: “fulano é drogado” ou “tal atleta trapaceou”. Logo de imediato já utilizam um tom julgativo sem nem ao menos terem base do que ocorreu, qual a substância foi utilizada e o que provocou a punição do esportista.

Falar em doping é muito mais do que realizar a associação com o uso de drogas ou medicações que auxiliem na melhora do desempenho do atleta, até pelo fato de que há muitas outras atitudes incluídas nesta categoria. Mas, afinal, o que é o doping?

Em uma palestra, seguida de entrevista coletiva, realizada para alunos de pós-graduação em Jornalismo Esportivo e Multimídias da Universidade Anhembi-Morumbi (SP), o jornalista da Empresa Brasil de Comunicação (EBC), William Douglas de Almeida, trouxe o doping como tema central. Almeida é doutor pela Escola de Educação Física e Esporte da Universidade de São Paulo e membro da Academia Olímpica Brasileira.

O que é o doping? 

O doping é um termo multidisciplinar que engloba várias áreas. Dopar-se é muito mais do que usar substâncias proibidas pela WADA – agência internacional que tem como principal finalidade promover a luta e a prevenção contra o doping por meio do auxílio às federações esportivas internacionais.

O termo é um tema que se associa com vários outros campos, portanto, o doping no esporte é:

  • fazer uso ou tráfico de substâncias proibidas;
  • não denunciar ou a cumplicidade com atletas que se dopam;
  • a recusa em deixar colher material para exames;
  • o descumprimento do dever da informação à Adams¹ sobre a localização do praticante desportivo;
  • a tentativa de manipulação de qualquer integrante do controle de dopagem;
  • associação à pessoas que estejam punidas por doping (confederações, médicos ou países).

A complexidade do tema e o pouco aprofundamento no assunto podem fazer prevalecer apenas o conhecimento sórdido e distorcido. “A impressão que dá é que, ao você falar de doping, está se falando sobre drogas, uso social, e não é”, explica Almeida.

A mídia esportiva fica no senso comum ou no sensacionalismo 

A imprensa esportiva não tem a obrigação de ensinar para o atleta, por exemplo, o que é doping e o que não é, mas tem como função fazer com que as pessoas, ao criticarem, reflitam e se questionem a respeito das substâncias e dos motivos que levaram alguém a ingerir aquele componente proibido.

Para Almeida, mais do que informar e gerar dúvidas em quem está de fora, é importante difundir a ideia de que “uma boa educação sobre o doping empodera atletas e técnicos” e faz com que questionem e reflitam sobre tudo o que é passado para eles.

Mesmo sendo uma ação constante em diversas modalidades, o doping não é algo apresentado ao esportista desde a base e muitos só passam a conhecer mais o tema quando são submetidos a exames durante a prática de esportes de alto rendimento. E isso se deve ao fato de que ainda se trata de um assunto tabu.

O tabu do doping e a cobertura da mídia 

O doping ainda é um tabu porque as pessoas fazem a associação pelo senso comum com o uso de drogas e julgam como se fosse um tema fácil de ser solucionado quando, na verdade, abrange questões jurídicas, atenuantes e agravantes.

A maneira como a mídia pode tratar o tema, em vez de educar, pode fazer com que as pessoas tenham mais interesse em realizar o consumo de substâncias estimulantes para o aumento do desempenho.

Existem alguns fatores que impossibilitam que a mídia realize a cobertura mais aprofundada do tema, sendo eles:

1 – Dificuldades com as fontes

Quando a imprensa tenta realizar uma cobertura mais complexa, é difícil encontrar certas fontes que queiram falar sobre o assunto porque elas já veem como acusação ou pensam que está havendo uma investigação.

2 – Estrutura do trabalho 

Jornalismo trabalha constantemente com o factual e, fazer reportagens aprofundadas requer tempo que está associado a investimentos, fontes e estudos, mas, é comum haver dificuldades para a realização de todas estas ações.

3 – Conseguir boas fontes

Localizar especialistas que consigam tratar do assunto de uma forma didática e compreender e adequar os termos, nem sempre é um trabalho dos mais fáceis para o jornalista. O profissional precisa de conhecimento específico e estudo.

“O tabu acaba quando a realidade é compreendida e há uma contextualização”   (William Almeida)

Apesar de ser um desafio conseguir desfazer a visão que se firmou em torno do doping, existem diversas maneiras de a mídia esportiva passar a deixar o assunto mais compreensível.

Ações podem ser adotadas pelo jornalista neste sentido: atribuir espaço e relevância para atletas que foram absolvidos; mostrar os históricos dos exames negativados dos atletas e, como explicou Almeida, “não limitar o tema doping e fazer a contextualização, além de trazer mais vozes de autoridades para explicar o assunto, deixando de ficar só na acusação”.

Para conhecer mais:

Código Mundial Antidopagem: Disponível em: https://www.gov.br/abcd/pt-br/composicao/regras-antidopagem-legislacao-1/codigos/copy_of_codigos/codigo-mundial-antidopagem-2021.pdf/view. Acesso em: 11 out. 2020.

World Anti-Doping Angency. Disponível em: https://www.wada-ama.org/en. Acesso em: 11 out. 2020.

¹ Sistema de Administração e Gerenciamento Antidopagem (Adams), criado pela Wada, é baseado em um banco de dados online e que permite o envio e análise de informações sobre as atividades dos atletas. Por meio do Adams o atleta deve informar constantemente a sua localização e poderá ser submetido a um exame antidoping surpresa.

Marcelo Cardoso é jornalista e professor universitário. Pesquisa o jornalismo, o rádio e o podcast em suas várias interfaces com o esporte – contato: Facebook, Instagram @cardosomarcelo68 e Twitter @MCardoso68

Sarah Américo é jornalista e estudante do curso de pós-graduação em Jornalismo Esportivo e Multimídias da Universidade Anhembi-Morumbi (SP) – contato: Facebook, LinkedIn e Instagram @sarahamerico