Curso de Jornalismo da USP: uma revolução silenciosa

Por Luciano Victor Barros Maluly, chefe do Departamento de Jornalismo e Editoração da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP

  Publicado: 07/06/2022

O ano era 2003, e os alunos e egressos do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Comunicação da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP integravam um batalhão de comunicadores que encontrava nas universidades particulares uma oportunidade de emprego para além das quase extintas redações.
Trabalhávamos duro para acompanhar as tendências do mercado e sobreviver ao preconceito de antigos profissionais travestidos de docentes. Enquanto estudávamos, eles contavam suas aventuras de repórter.

E foi assim que, ao chegar à USP para colaborar com o Departamento de Jornalismo e Editoração (CJE) da ECA como professor de Radiojornalismo, em virtude do adoecimento da professora Gisela Swetlana Ortriwano (1948-2003), eu tive a oportunidade de testemunhar uma revolução silenciosa que mudaria o rumo do jornalismo brasileiro.

Na época, a preocupação do corpo docente era formar profissionais capazes de exercer as suas funções na chamada grande imprensa. Com isso, os alunos estagiavam nas principais empresas de comunicação, como Folha de S. Paulo, O Estado de S. Paulo, Editora Abril, Grupos Globo, Bandeirantes, Jovem Pan, entre outros, com a esperança de serem contratados em definitivo.

As mudanças tecnológicas agitavam o nosso meio e, com elas, o passaralho amedrontava os jornalistas analógicos que tinham o texto como base de sua formação. Escrever bem era obrigatório, assim como falar inglês, ficar antenado ao digital e, é claro, estar bem informado. Pelo jeito, o bicho-grilo tinha ficado no século passado, assim como a ideologia e a cultura.

O CJE passava por uma transformação com o falecimento e a aposentadoria de uma parcela de seus professores e, assim, um novo corpo docente se formava, mas ainda pautado pelo pensamento de seus antecessores.

Pouco a pouco, essa história começou a percorrer um atalho ainda despercebido internamente: já não era a técnica que permeava, exclusivamente, o nosso discurso, mas sim o conteúdo das notícias.

As discussões em torno da pauta ganhavam contornos para além da sala de aula, com os alunos a fomentar as suas produções, das reportagens aos debates, de forma independente e alinhada com as propostas das disciplinas e de seus professores.

Um processo lúcido e criativo que ficou evidente durante o isolamento social causado pela pandemia. Nesse período, estudantes e mestres se uniram e continuaram a produzir e publicar periodicamente os projetos do departamento, dos jornais aos programas em audiovisual. As matérias reafirmaram a importância da ciência, da educação, da saúde, da segurança, do trabalho, tendo sempre como pano de fundo uma preocupação visível sobre a dura realidade da desigualdade social em nosso país.

Agora, a revolução ocorrida no curso de Jornalismo da USP deixou de lado o frágil debate mercadológico sobre o produto para se destinar a um objetivo ainda maior: a luta pela democracia e, por conseguinte, dos direitos humanos e civis. Sendo assim, entoamos a nossa mensagem, sem medo do destino.