Desconstruindo o telejornal: Uma análise de discurso no programa Furo MTV
Autor: Gabriel Margato Marques - Ciências da Linguagem II - 2014 Matutino
Postado em 05/12/2014 às 20:48:23 - Editado por Gabriel Margato Marques em 08/12/2014 às 01:02


Introdução

O Furo MTV foi um programa de televisão exibido pelo extinta MTV Brasil entre 2009 e 2013. Apresentado por Dani Calabresa e Bento Ribeiro, o programa fazia uma paródia do formato tradicional dos telejornais.

A mescla entre entretenimento e informação gerou um programa que se tornou bem popular, porém não ficou definida uma questão trivial. Até que ponto as piadas dos apresentadores interfere na parte verídica do telejornal? A partir do formato, será feita uma análise de discurso, que pretende esclarecer ao final da pesquisa, qual é o limite entre o humor e o telejornalismo.

No ano de 2013, com a saída de Dani Calabresa do canal musical, o Furo MTV acabou sofrendo diversas mudanças, que resultou na perda de seu formato original. Por estes motivos, para efeitos de análise, será avaliado de uma maneira geral apenas o período entre os anos de 2009 e 2012.

Logotipo do programa Furo MTV em 2009.

 

Formato do programa

No programa, a dupla passava as notícias como em qualquer telejornal. O diferencial eram os comentários dos fatos feitos pelos apresentadores, que davam o teor humorístico do programa. Por causa desta comicidade, o Furo MTV optava por não veicular notícias trágicas, que não condiziam com o tom do programa. Mas isto não impedia que outros assuntos mais densos fossem discutidos, como política ou economia.

Por exemplo, no dia 06 de novembro de 2012 estava em destaque em grande parte do mundo às eleições presidenciais norte-americanas, que foram realizadas neste dia. Em um telejornal com o formato mais conhecido, como o Jornal Nacional, a notícia foi dada com grande destaque, tendo inclusive a participação do jornalista William Bonner ao vivo direto de Washington, nos Estados Unidos.¹

Já o Furo MTV aproveitou a situação e fez uma brincadeira quanto à referida notícia. Acompanhe: *


 

Aliás, o humor do programa também depende da intertextualidade com outros programas de televisão. Por exemplo, nas piadas realizadas entre 3:13 e 3:30 (no vídeo original), é citado o cantor Agnaldo Timóteo, fazendo uma referência à dúvida quanto à sua sexualidade, questionada no programa Superpop, da Rede TV.

 

A intertextualidade do programa

O Furo MTV é cheio de intertextos, uma vez que o próprio formato do programa acaba por trazer à mente do telespectador outros enunciados já produzidos anteriormente. Um grande exemplo é o próprio visual do programa: um casal em uma bancada dentro de um estúdio apresentando notícias, um formato bem comum à maioria dos telejornais.

    

Tanto no Jornal Hoje, da Rede Globo, quanto no Furo MTV, os modelos para os estúdios são bem parecidos.

As notícias contidas no programa são completamente atuais e reais, seguindo o padrão de qualquer telejornal. O que o diferencia dos demais seriam os comentários dos âncoras a respeito das reportagens. Sempre a dupla tentava fazer uma piada sobre o fato que estava sendo discutido. *

 


E o que seria o humor senão um grande intertexto? Afinal, ele sempre deve ecoar em algum outro texto, instigando o público a tentar fazer uma retomada a outros conhecimentos prévios. Além disso, depende de pressupostos (conhecimentos prévios e implícitos nos quais o discurso se baseia) e subentendidos (uma mensagem que cabe ao receptor decifrá-la para que então a compreenda).

Por isso, é evidente que existem diversas intertextualidades, não apenas com os demais telejornais, mas também com outras situações que provocam o humor do programa. O Furo MTV costumava ter várias piadas recorrentes, que eram comuns ao público que acompanhava o programa, porém caso houvesse um novo telespectador que não sabia dos fatos anteriores talvez poderia ficar sem entender.


Entrevistas” e “externas”

No seu primeiro ano, o Furo MTV tinha apenas 15 minutos, o que não permitia que o seu conteúdo fosse muito expandido. Após o sucesso do formato, o telejornal chegou a 30 minutos de duração, o que permitiu que mais detalhes de telejornais fossem incorporados. Por exemplo, a presença de um especialista na bancada para analisar um tema relevante do dia (mesmo não sendo, de fato, um conhecedor do assunto), ou ainda, um humorista imitando uma personalidade pública. Assista a seguir, um exemplo com uma entrevista com o "suposto" então candidato a governador do estado de São Paulo, Geraldo Alckmin, exibida em 20 de maio de 2010. *


Também começaram a ter repórteres ao vivo nos lugares onde se passavam as notícias, como em qualquer telejornal. Porém, todas as “externas” eram gravadas dentro de um estúdio, sempre com os apresentadores caracterizados de algum personagem relacionado com a notícia. E ainda, ao lado, era ressaltado por escrito que eles não estavam ao vivo de verdade. Perceba estes fatores em um exemplo de 09 de fevereiro de 2012, em uma notícia referente a uma possível disputa pelas ilhas Malvinas. *


 

Também passou a ser explorado mais o lado humorístico do programa, com um quadro chamado “Você não pode dormir sem saber”. Nesta parte, eram noticiados fatos completamente irrelevantes envolvendo pessoas famosas, mas que estão presentes nos veículos de comunicação. Mais uma vez cairia perfeitamente aquela pergunta: até que ponto notícias assim seriam (ou não seriam) jornalismo? *

 

Conclusão

O Furo MTV sempre será lembrado por seu formato de telejornal misturado com humor, que tanto atraía o público. Porém, a quem faz uma análise, o programa é meio incerto, já que não se pode definir um gênero específico do mesmo.

Por um lado, o jornalismo está presente, porque são notícias reais, que podem ser encontradas facilmente nos veículos de comunicação. Por outro, a parte humorística acaba falando mais alto, o que compromete a veracidade dos fatos em certo nível, uma vez que não se pode confiar cegamente em tudo o que o programa diz.

Afinal, o Furo MTV não pode ser uma fonte única de informação, já que muitos outros fatos relevantes não são aproveitados porque não gerariam comentários engraçados. Cabe ao telespectador saber os limites para conseguir fazer suas observações à sua maneira. Mas isto não deveria acontecer apenas com este programa, mas com todos os outros. Somente assim, uma pessoa estará completamente bem informada.

Dani Calabresa e Bento Ribeiro em foto promocional do Furo MTV.




Notas:

¹ A plataforma Wiki não consegue colocar links disponíveis no domínio globo.com. Mesmo assim, gostaria que o vídeo fosse assistido para uma melhor análise do  trabalho.

* O site YouTube não permite que seus vídeos possam ser recortados para o uso de incorporações por outros websites. Por isso, optei por usar a plataforma de vídeos TubeChop, que reduz os vídeos a apenas os trechos específicos, possibilitando ser mais específico. Mas, por segurança, e também como fonte de indicação, segue em anexo uma lista com os vídeos presentes neste Wiki, na mesma ordem apresentada.

Vídeo no YouTube
Momento do vídeo
Furo MTV - 06/11/2012 De 02:40 a 06:49
Furo MTV - 05/07/2012 De 16:12 a 18:55
Furo MTV - 20/05/2010 De 00:00 a 03:12
Furo MTV - 09/02/2012 De 01:59 a 04:49
Furo MTV - 18/08/2010 De 00:16 a 00:49




Sobre a experiência com o Wiki

Certamente, a experiência em trabalhar com o site Wiki foi muito interessante. A plataforma permite mais interatividade, já que não é apenas um texto corrido. Com a possibilidade de adicionar imagens, vídeos e hiperlinks, a leitura e o acompanhamento das páginas são facilitados e tudo deixa de ser somente um trabalho cansativo do final do semestre, sendo muito mais dinâmico e interessante no geral.



Bibliografia

BRANDÃO, Helena Nagamine. Introdução à análise do discurso. Campinas, Editorada Unicamp, 1997.

DUCROT, Oswald. O dizer e o dito. Campinas, Pontes, 1987.

_____________________. Análise do discurso e mídia: a (re)produção de identidades. Disponível online: http://www.revistas.univerciencia.org/index.php/comunicacaomidiaeconsumo/article/viewFile/6865/6201


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Alunos da Disciplina Ciências da Linguagem II