A psicanálise nos contos de fadas
Autor: Ana Helena Rodrigues - Ciências da Linguagem II - 2013 Matutino
Postado em 16/09/2013 às 14:04:59 - Editado por Ana Helena Rodrigues em 09/12/2013 às 14:10

Origens 

   A princípio, as narrativas orais populares europeias não eram destinadas especificamente às crianças, serviam de entretenimento e eram baseadas em acontecimentos e temores cotidianos. Mais tarde, com o surgimento da psicanálise, o simbolismo inconsciente que apresentavam tornou-se objeto de estudo.  

   As versões modernas dos contos de fadas, compiladas pelos irmãos Grimm, integram a pedagogia iluminista do século XIX e são dependentes da criação da família nuclear e da infância tal como a conhecemos hoje. 

   Segundo Maria Rita Kehl, a infantilização das narrativas tradicionais, transformadas nos atuais “contos de fadas”, é concomitante à criação de um mundo próprio da criança e ao reconhecimento de uma “psicologia infantil”, da qual mais tarde a psicanálise viria a se destacar radicalmente. [5]


A importância dos contos de fadas

   A ficção de uma vida diferente da minha me ajuda a descobrir o que há de humano em mim. Contardo Calligaris [2]

   Para Bruno Bettelheim, os contos de fadas, à diferença de qualquer outra forma de literatura, guiam a criança para a descoberta de sua identidade e comunicação, e sugerem as experiências que são necessárias para desenvolver ainda mais o seu caráter. Os contos de fadas declaram que uma vida compensadora e boa está ao alcance da pessoa, apesar da adversidade - mas apenas se ela não se intimidar com as lutas do destino, sem as quais nunca se adquire verdadeira identidade. [1]   

   Marilena Chaui acredita que os adultos não devem suavizar os contos nem omitir passagens violentas. "Muitos adultos ficam chocados com a violência dos contos de fadas e se surpreendem com o fato de que não a percebiam quando eram crianças, comprazendo-se nela. É que a maioria das crianças, além de aceitar naturalmente o maravilhoso, espera com inabalável certeza aquilo que o conto promete e sempre cumpre: 'e foram felizes para sempre'." [3]

  Pelo modelo psicanalítico, os contos de fadas transmitem importantes mensagens à mente consciente, à pré-consciente e à inconsciente. Lidando com problemas humanos universais que preocupam o pensamento infantil, estas estórias falam ao ego em germinação e encorajam seu desenvolvimento, e ao mesmo tempo, aliviam pressões pré-conscientes e inconscientes.

   "Ouvir histórias é um dos recursos de que as crianças dispõem para desenhar o mapa imaginário que indica seu lugar, na família e no mundo." [5] 

Aspectos sombrios  

   Durante a formação de sua personalidade, a criança exacerba ou reprime determinados comportamentos e características de acordo com os estímulos e respostas que recebe do ambiente. Damos o nome de sombra à porção que reprimimos da personalidade por ser incompatível com o que é aceito socialmente, mas que ainda assim continua a existir mesmo debaixo dos panos.

  De acordo com Marie-Louise Von Franz, a sombra se constrói de maneira individual e coletiva e tende a se revelar em momentos de crise, como situações de guerra, ou em comportamentos coletivos que diferem dos individuais, como em brigas de torcidas organizadas.

   Os contos de fadas são importantes porque possuem uma estrutura que reflete os traços humanos mais gerais. Por meio deles podemos estudar as formas básicas de comportamento que nos permitem distinguir o que é e o que não é individual e encontrar possíveis soluções. 

   "Os contos de fadas refletem um material coletivo inconsciente." [7]  

 

 

Análise do conto Rapunzel dos Irmãos Grimm 

 Vídeo: Teatro dos Contos de Fadas (Rapunzel) - TV Cultura

   Na situação inicial temos a apresentação dos personagens e do ambiente estável prévio. 

   A mãe de Rapunzel, quando grávida, teve um enorme desejo de comer legumes que cresciam no jardim da vizinha feiticeira. Seu marido entrou no jardim proibido para trazer-lhe alguns, porém foi surpreendido pela feiticeira que lhe permite levar tantos quanto quisesse, desde que "você me dê a criança que nascer. A criança viverá bem e eu cuidarei dela como uma mãe" [4, tradução minha]. Assim, a feiticeira obtém os cuidados de Rapunzel porque os pais invadiram seu domínio proibido e concordaram em entregar Rapunzel, o que leva a crer que a feiticeira queria Rapunzel mais do que os pais. Segundo as funções narrativas de Vladimir Propp, com a entrega do bebê, temos o Afastamento [6].

   A Proibição [6] acontece quando, ao completar 12 anos, Rapunzel é trancada na torre pela feiticeira. Sua história é, de certa forma, a de uma garota adolescente e de uma mãe ciumenta que tenta impedi-la de ganhar a independência. Rapunzel achou os meios de escapar de sua condição em seu próprio corpo - as tranças pelas quais o príncipe subia até o quarto dela na torre. O final feliz em Rapunzel novamente ocorre através do seu corpo: suas lágrimas curam os olhos do amado. Seu corpo é seu próprio Adjuvante [6].

   A Transgressão [6] se inicia com o relacionamento entre Rapunzel e o príncipe. O casal age imaturamente ao manter escondido esse relacionamento. Porém, como consequência de um ato falho de Rapunzel, a feiticeira obtém a Informação [6] da traição através de um Interrogatório [6] e expulsa a filha.

   Na estória chega o momento da Partida [6]. Ao ser banida para o deserto, Rapunzel deixa de estar sob os cuidados da mãe substituta e o príncipe também não tem mais a proteção dos pais. Ambos têm de cuidar de si próprios, porém sentem-se sem esperanças - não confiar no futuro significa realmente não confiar em si mesmo. Nem o príncipe nem Rapunzel são capazes de se buscarem um ao outro com determinação, eles estão no momento da Carência [6]. Ele, "vagou cego pela floresta, só comia raízes e amoras, e não fazia nada além de lamentar-se e chorar porque perdera sua amada" [4, tradução minha]. Rapunzel também viveu na miséria lamentando-se e chorando sua desgraça. Porém, o Deslocamento, Enfrentamento e o Combate [6], formaram o período de crescimento, de encontro consigo mesmo que levou à Vitória e ao Retorno [6]. No final, estão prontos não só a se socorrerem mutuamente (Salvamento [6]), mas a construir uma vida boa, um com o outro, o que constitui o Casamento [6] e o conhecido, e às vezes mal interpretado, felizes para sempre.

Conclusão

   As crianças, sempre abertas a todas as possibilidades da existência e capazes de identificar-se com os personagens mais bizarros e as narrativas mais extravagantes, não se importam se a estória é ou não contemporânea. Como na infância são mais tênues as fronteiras entre o existente e o imaginoso, todas as possibilidades da linguagem servem para compor o repertório imaginário de que a criança necessita para entender os enigmas do mundo e do desejo.

   Dessa forma, as estórias prometem à criança que se ela ousar se engajar nesta busca atemorizante, ela receberá ajuda e vencerá. Em contrapartida, advertem que os muito temerosos e de mente medíocre, que não se arriscam a se encontrar, estão destinados a uma existência banal. 

Bibliografia

1. BETTELHEIM, Bruno. A psicanálise dos contos de fadas. São Paulo: Paz e Terra, 2002.

2. CALLIGARIS, Contardo. "Para que servem as ficções?" in: Folha de S. Paulo, 18 de jan. 2007.

3. CHAUI, Marilena de Souza. "Contos de fadas e psicanálise". in Repressão sexual: essa nossa (des)conhecida. São Paulo: Brasiliense, 1984, p. 32-54. 

4. GRIMM, Jacob and Wilhelm. "Rapunzel," in: Kinder- und Hausmärchen, gesammelt durch die Brüder Grimm [Children's and Household Tales -- Grimms' Fairy Tales], 7th ed., vol. 1 (Göttingen: Verlag der Dieterichschen Buchhandlung, 1857), no. 12, pp. 65-69Translated by D. L. Ashliman, 2000-2006, disponível em: http://www.pitt.edu/~dash/grimm012.html. Acesso em: 30 de nov. 2013.

5. KEHL, Maria Rita. As crianças e seus narradores. Disponível em: http://www.mariaritakehl.psc.br/resultado.php?id=80. Acesso em: 19 de set. 2013.

6. PROPP, Vladimir Iakovlevitch. Morfologia do conto maravilhoso. São Paulo: Forense Universitária, 2006.

7. VON FRANZ, Marie-Louise. A sombra e o mal nos contos de fadas. São Paulo: Paulus, 1985.

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Alunos da Disciplina Ciências da Linguagem II