A diversidade nos institutos de ciências exatas e o DiversIME
Autor: Luiz Joaquim Dias de Lima Nunes - Ciências da Linguagem I - 2015 Matutino
Postado em 30/04/2015 às 17:14:46 - Editado por Luiz Joaquim Dias de Lima Nunes em 30/6/2015 às 22:20

  

 

Desde o dia em que eu, Luiz, entrei no Instituto de Matemática e Estatística da USP, em fevereiro de 2011, senti um clima bastante receptivo, contudo de um modo incompleto. Dentre tantas pessoas na Comissão de Recepção do instituto, identifiquei um veterano cujos trejeitos femininos ele tentava disfarçar perante as outras pessoas, mas que eu, já por convivência com outros homossexuais, acabei notando sem muita dificuldade.  

Eu estava saindo da casa dos meus pais aos dezessete anos, no interior do Rio de Janeiro, indo rumo a uma cidade muito maior que a minha, onde não conhecia nada nem ninguém. Tinha muito a explorar e desde o princípio não queria ter de esconder quem eu era, como já havia feito durante todo o tempo antes dali, mesmo entrando em um instituto de exatas, ambiente onde já era esperado um maior índice de opressão de mulheres e LGBTs. 

Ao meu estado nesta época se aplica a citação de Foucault durante a reflexão feita em Quem precisa da identidade? de Stuart Hall (2000): 

 

A entrada na USP em si já era um chamado à aventura - como se chamaria na Jornada do Herói, em O Herói de Mil Faces, de Campbell (1992). Só que, além do desconhecido que eu sabia existir e estava ansioso por conhecer, eu já tinha alguns objetivos próprios a serem cumpridos, sendo o maior deles conquistar respeito, tanto próprio quanto alheio, pelo que eu era. 


Frente do Instituto de Matemática e Estatística (IME-USP)


Até então nunca havia saído de casa com a sensação de poder admitir quem eu era, e decidi colocar isto acima do desconforto que senti na matrícula. E estava disposto a fazer isto mesmo que, para tanto, tivesse de deixar outro alguém desconfortável.

Uma questão de perspectiva: para aquelas outras pessoas do instituto, provavelmente a situação no momento era de calmaria, sem nenhum problema aparente, e eu assim não seria o Herói, e sim o causador do Conflito. Talvez esta seja uma boa definição para anti-heróis, no fim das contas.

E assim seguiram as primeiras semanas, enquanto eu tentava me adaptar ao novo ritmo e estilo de vida como possível. Meu primeiro avanço significativo foi quando, algumas semanas após o começo do semestre aconteceu a chamada Festa dos Bixos, realizada pela Comissão de Recepção para integrar os ingressantes. Nela, nós participamos de uma espécie de gincana em equipes, cumprindo tarefas durante a festa, até que surgiu uma tarefa secreta, consistente em um calouro homem roubar um beijo de um entre dois veteranos indicados, que eu realizei, com a ajuda de uma colega - que se tornou então amiga, e Propp (1984) chamaria isto de recepção do adjuvanteOs membros da Comissão não souberam reagir à minha atitude, afinal não estava constrangido por ter feito aquilo, e meu olhar a encarar suas reações, criou em mim uma força que eu desconhecia. Aquela foi a travessia do primeiro limiar na jornada do herói, ao mesmo tempo em que, inesperadamente, também se fez em uma revelação do poder para o personagem que eu estava sendo, ou seja, foi o momento em que encarei meu próprio potencial para criar uma mudança naquele ambiente. 

 

 

 

A partir de então, mais e mais pessoas de mente aberta se aproximaram de mim, afinal nossas companhias faziam bem uns aos outros. Garotas, pessoas LGBTs ou que fossem diferentes ou oprimidas de qualquer outro modo passaram a facilmente criar amizades comigo, já que fazíamos questão de manter o ambiente à nossa volta confortável e respeitoso a quaisquer pessoas. E assim se reuniu, naturalmente, um grupo de pessoas dispostas a transformar nosso instituto em um ambiente mais receptivo, o que não passou despercebido aos olhos de outros estudantes. E foi assim que construí minhas primeiras amizades na cidade e no IME.  

Este foi um período de treinamento e crescimento para mim - também figura do deslocamento, para Propp (1984) -, onde tanto conquistava o espaço que desejava quanto aprendia muito. E dentre meus amigos também foram surgindo algumas pessoas inesperadas, como membros da Comissão de Recepção, que a princípio eu havia enxergado como um inimigo. Descobri que muitas daquelas pessoas nunca haviam parado para pensar se suas atitudes poderiam ofender alguém, nem haviam notado que às vezes pessoas acabavam preferindo não reclamar de nenhuma atitude ofensiva, por medo, ou até mesmo fingiam ser quem não eram. O mesmo desconhecimento ocorria também nas outras entidades do IME, como a Atlética e o Centro Acadêmico, também ambientes frequentemente hostis.

Neste ponto, eu tive a revelação do inimigo a ser enfrentado, que não eram aquelas pessoas do instituto, as quais não agiam de modo diferente da maioria da sociedade ao não prestar atenção a questões sociais. Aqueles meus colegas não eram quem nós tínhamos de enfrentar, mas sim todas as construções sociais e ideias que foram aprendidas desde crianças. A partir daí, surgiu entre nós um plano

Estávamos, então, em uma batalha ideológica: o nosso desejo de liberdade e de identidade contra os muitos pequenos preconceitos ensinados a cada pessoa de nossa sociedade desde o nascimento. Se ao menos pudéssemos atingir àquelas pessoas que frequentavam nosso instituto, esse efeito seria espalhado aos poucos pelo mundo também. 

E, nesse combate ideológico, cada combate era travado a partir do momento em que dávamos a nós mesmos a liberdade de por nossas reais identidades em jogo. Como discutido por Hall, a definição da própria identidade pode ser um processo limitador e incompleto, mas a privação da identidade de um indivíduo também o é. A luta pela diversidade consiste em combater essa privação, em prol do respeito e reconhecimento das liberdades individuais de cada um.

 

 

No começo de 2012, Plínio, um antigo amigo meu, foi agredido até a morte no Rio de Janeiro por homofóbicos ao voltar para casa acompanhado do namorado. Sua mãe me ligou no dia seguinte para dar a notícia, e acredito que nunca vou conseguir lidar com o tom de sua voz naquela ligação. No mesmo ano eu havia passado a participar da Comissão de Recepção, onde pude começar a tentar melhorá-la em certos aspectos. E então na matrícula conheci uma caloura transexual, que acabou sendo a primeira pessoa trans que conheci no instituto. Tentei conversar com ela e mostrar que não estava sozinha. Ainda assim, não foi suficiente: a garota não reapareceu quando as aulas começaram. 

Estes dois fatos para mim foram danos - outro elemento da Jornada do Herói - insuperáveis, que me fizeram mais consciente do quão mais rígido aquele trabalho de conscientização tinha de ser.

Até que, em 3 de abril de 2012, junto dos amigos que me deram tanta confiança, fundou-se o DiversIME, coletivo de diversidade do IME, dedicado a acolher e preservar todas as diferenças individuais presentes no instituto. 


Logo do DiversIME, o cubo-mágico


Dotados já da noção de que nossos maiores inimigos eram os preconceitos despercebidamente ensinados a todos, direcionamos muitas de nossas atitudes a esse combate, através do esclarecimento de diversos assuntos que nos afligiam, a fim de criar aproximações amigáveis para com todos enquanto fosse possível. Para todo efeito, o melhor que conseguimos fazer às vezes é impedir que alguém continue sendo ofensivo em voz alta, permitindo que a pessoa acredite no que quiser, mas desde que guarde para si. 

A criação da página do coletivo no Facebook, ao final daquele ano, contribuiu para a aproximação com os estudantes, além da realização de debates e rodas de conversa. 


Um dos cartazes feitos pelo coletivo, combatendo o uso de termos ofensivos 

(acesse: https://goo.gl/iwMP9n)


Outro cartaz do coletivo, feito para ser utilizado em banheiros

(acesse: https://goo.gl/WBxpTd


Uma das partes mais gratificantes é o fato de que, a cada pessoa tocada pela mensagem do grupo, temos mais alguém a contribuir e prestar atenção quando alguém for desrespeitado. 

Com o tempo, vários membros do grupo se tornaram também membros das entidades do IME, levando aos seus espaços uma maior atenção às questões da diversidade e assim espalhando ainda mais pelo instituto uma postura mais consciente sobre a importância do respeito e do acolhimento. Em 2013 o grupo começou a ter também um tempo para apresentação aos calouros durante a Semana de Recepção, organizada pela Comissão, de modo que todos já entrassem no IME cientes de que, fossem lá quem fossem, tinham o direito humano de serem respeitados como tal naquele espaço, e teriam nossa ajuda para garantir isso. 

 

 Bottons do DiversIME em 2015, vendidos a preço de custo a partir dos dias de matrícula 

(foto: página do DiversIME no Facebook) 

 

 Apresentação para os calouros 2015 durante a Semana de Recepção

(foto: Comissão de Recepção IME-USP)


 


O coletivo mantém seu trabalho até hoje, e é por si só uma conquista para o instituto, que já ajudou muitas pessoas a se aceitarem e a conseguirem serem felizes consigo mesmas durante seus tempos no IME. É uma jornada de muitos heróis, onde cada um teve seu próprio caminho para chegar até aqui e agora trabalhar em conjunto, com sua luta sendo respeitada - mulheres, LGBTs, assexuais, pessoas negras, pessoas gordas, etc. E também é, mais importante ainda, uma jornada que não terminou, onde aguardamos pelos próximos heróis que nela se juntarão a nós. 

Na última sexta, dia 26 de junho de 2015, grande foi minha felicidade ao ser aprovado o casamento homoafetivo nos Estados Unidos e então eu ver todas as entidades do instituto, além de grande parte dos estudantes, entrando na comemoração. E na segunda-feira seguinte, dia 29 de junho, a página oficial do instituto aderiu também à comemoração, junto de uma nota divulgada (acesse: https://goo.gl/mmX6Ku) apoiando o trabalho do coletivo e demonstrando o tamanho reconhecimento conquistado no instituto. 


Logo estilizado na página do IME-USP no Facebook em 29/06/15 

(facebook.com/imeusp) 


Sob as figuras da narrativa de Propp (1984), a defesa da diversidade é uma jornada onde a real vitória se dá, na prática, por uma sucessão de conquistas menores e reparações, sem uma vitória pontual que encerre tal história. Um coletivo como o DiversIME só existe porque é necessário, e se mantém de pé a fim de que um dia já não seja mais necessário, ou seja, a fim de que possa deixar de existir, num mundo futuro onde cada um de nós tenha a liberdade de ter sua identidade, e cada uma de suas características, respeitada. 

 


 

DiversIME. Página no Facebook, acessível em fb.com/diversimeusp . Todas as imagens utilizadas neste trabalho estão disponíveis nessa página. 

BUTLER, Judith. Gender trouble. Londres, Routledge, 1990.

CAMPBELL, Joseph. O Herói de Mil Faces. São Paulo: Cultrix, 1992.

HALL, Stuart. “Quem precisa da identidade?”. In SILVA, Tomaz Tadeu da (org.). Identidade e diferença. A perspectiva dos estudos culturais. Petrópolis, Vozes, 2000.

PROPP, Vladimir. Morfologia do conto maravilhoso. Rio de Janeiro, Forense Universitária, 1984.

Universidade de São Paulo
Reitor: Marco Antonio Zago
Vice-Reitor: Vahan Agopyan
Escola de Comunicações e Artes
Diretora: Margarida Maria Krohling Kunsch
Vice-Diretor: Eduardo Henrique Soares Monteiro
Departamento de Jornalismo e Editoração
Chefe: Dennis de Oliveira
Chefe Suplente: Ciro Marcondes Filho
Professores Responsáveis
Mayra Rodrigues Gomes e Rosana Lima Soares

Alunos da Disciplina Ciências da Linguagem II