O hibridismo e a dinamicidade dos modelos contemporâneos de telejornal
Autor: Quéfren de Moura Camargo - Ciências da Linguagem II - 2013 Noturno
Postado em 29/09/2013 às 18:09:01 - Editado por Quéfren de Moura Camargo em 09/12/2013 às 21:33

O telejornalismo na contemporaneidade 

telejornalismo é um gênero televisual tradicional e sedimentado e, por isso, possui grande aceitação e goza de legitimidade por parte dos espectadores. No Brasil, continua sendo preponderante como fonte de informatividade, e isso o torna um importante meio de veiculação de informações e notícias. Nos últimos anos, ele passou por mudanças e, a despeito de sua estrutura convencional, vem se tornando um gênero cada vez mais híbrido e incorporando outras possibilidades de construção de discursos. 

  


“O telejornal é, antes de mais nada, o lugar onde se dão atos de enunciação a respeito dos eventos.” (Arlindo Machado)

 

O telejornalismo brasileiro




Um discurso polifônico

A televisão, por ter um apelo grande em nossa sociedade, tem a prerrogativa de estabelecer e construir valores-notícia, ou seja, determinar critérios de noticiabilidade. Por isso, de um modo geral, os telejornais possuem credibilidade para noticiar os acontecimentos do cotidiano com grande margem de aceitação, e o fazem por meio de um discurso construído de forma complexa. Isso significa dizer que envolve múltiplos enunciadores, que se alternam e apresentam diferentes enunciações e níveis de dramaticidade muito particulares na composição de uma notícia. Isso o torna um discurso essencialmente polifônico. E a própria narrativa dos fatos se constrói nessa multiplicidade de vozes e espaços.

  

 

 Apresentadores de telejornais pelo mundo

  

Tecnicamente falando, um telejornal é composto de uma mistura de distintas fontes audiovisuais: gravações, filmes, material de arquivo, fotografia, gráficos, mapas, textos, além de locução, música e ruídos. Mais recentemente, com o advento de novas tecnologias, vem incorporando também materiais de internet, vídeos de celular, informações advindas de redes sociais e tantas outras. 

 

Novas possibilidades de fontes

 

Os modelos de telejornais

Apesar dessa estrutura comum, os telejornais se distinguem entre si por características que determinam a tônica de seus discursos. Arlindo Machado, em seu texto “As vozes do telejornal” (in: A televisão levada a sério, São Paulo: Senac, 2000), propõe uma divisão em dois modelos gerais de telejornal: o modelo polifônico ou tradicional e o modelo centralizado ou opinativo. 

No primeiro, o relato telejornalístico (ou a reportagem) é pensado como uma estrutura livre de entidade narradora central, e a notícia é contada através das falas de quem vivenciou ou de enviados especiais da rede de TV para o espaço do acontecimento. A função do apresentador seria basicamente ler as notícias e estabelecer a coesão entre os vários enunciados. Nesse modelo, o âncora não tece comentários ou emite conclusões, e o repórter de campo possui grande autonomia.

Já no modelo centralizado ou opinativo, nas palavras de Arlindo Machado, "o telejornal se sustenta na autoridade de um âncora onisciente, onividente e onipresente, uma espécie de voz consensual que se intromete nos relatos e os fecha com um comentário de tipo editorial". Aqui o âncora possui o poder de delegar voz aos outros, ou seja, é ele quem decide quem entra ou sai de cena e quando, e é a fonte principal de organização dos enunciados.

 

O telejornalismo atual

Atualmente, a maior parte dos telejornais brasileiros mantêm sua estrutura, mas vêm incorporando novas configurações. As categorias de telejornal acabam se mesclando, e abrindo espaço para novas formas de pensar o telejornalismo e sua narrativa.

Há certos modelos de telejornalismo, por exemplo, cujas reportagens flertam com o gênero documentário, com a utilização de trilha sonora, tomadas cinematográficas, efeitos, narrativas heroicizantes etc. Um bom exemplo disso é a TV Folha. Em suas matérias, há componentes que efetivamente aproximam-se dos elementos do documentário, como podemos ver na matéria sobre a violência contra jornalistas na cobertura dos protestos de junho:


Cobertura da TV Folha sobre a violência nos protestos de junho


Certos telejornais mantém uma tônica polifônica, porém, evidencia-se uma grande autoridade do âncora e uma certa vinculação da credibilidade do próprio programa associada a ele. Assim, parece haver uma mescla dos modelos apresentados por Arlindo Machado. A figura de William Bonner, apresentador e editor-chefe do Jornal Nacional, é um exemplo desse modelo "híbrido" de telejornal.

 

William Bonner e Patrícia Poeta, Jornal Nacional (Rede Globo)


Dentro dessa perspectiva, algumas matérias são compostas de maneira inusitada, com narrativas excessivamente dramatizadas, fora dos padrões tradicionais, e com pouca profundidade informativa, aproximando-se dos faits divers. É o caso da reportagem abaixo, que reforça essas noções e confirma a autoridade do âncora, cuja voz conduz a notícia:


Notícia do Jornal Nacional sobre bebê encontrado no lixo

 

Outro exemplo paradigmático das mudanças dos gêneros de telejornal é o jornalismo policial, um modelo de programa em grande evidência na TV brasileira hoje. Ele exacerba o conceito de gênero opinativo, pois adota um discurso absolutamente inflamado, expressando um tipo de telejornalismo hierarquizante, ultrapersonalista, centralizado, fundamentado no discurso muitas vezes superficial e emotivo do apresentador. A interação com a audiência também caracteriza esse tipo de telejornal. Os exemplos mais conhecidos desse tipo são os programas Aqui Agora, do SBT (1991-2009); Linha Direta, da Rede Globo (1990-2007); Cidade Alerta, da Rede Record (de 1995 até hoje); e o Brasil Urgente, na Rede Bandeirantes (de 2001 até o presente).

   

José Luiz Datena, Brasil Urgente (Bandeirantes)



Marcelo Rezende, Cidade Alerta (Rede Record)


No vídeo acima, do programa Cidade Alerta, vemos o âncora, depois da reportagem, tecendo comentários pessoais e menosprezando a pergunta do repórter, quebrando sua legitimidade enquanto voz enunciativa. Isso demonstra o discurso autoritativo desse tipo de telejornal, em um nível bastante elevado, sem qualquer sutileza, desmontando a polifonia e apontando para uma hierarquização bem estabelecida de vozes dentro do programa telejornalístico. O gênero opinativo, dessa maneira, é levado às últimas consequências.


Considerações finais

Essas observações apontam para a pluralidade do telejornalismo contemporâneo e para mudanças de paradigma e novas abordagens possíveis para a composição da narrativa de suas reportagens. Além disso, a própria internet e os canais pessoais têm possibilitado a recriação da interação dos espectadores com a notícia. Com tudo isso, o telejornalismo brasileiro tem se revelado plural e multifacetado, e os modelos tradicionais já não podem mais ser compreendidos como categorias estanques e imutáveis, diante das quais se classifica os programas existentes. Antes, devem ser considerados pontos de partida, a partir dos quais é possível pensar novas dinâmicas. 

 

Bibliografia


MACHADO, Arlindo. A Ilusão especular. São Paulo, Brasiliense: 1984.
MACHADO, Arlindo. A televisão levada a sério. São Paulo: Senac, 2000.
McLUHAN, Marshall. Os meios de comunicação como extensões do homem. São Paulo: Cultrix, 1974.
SODRÉ, Muniz; FERRARI, Maria Helena. Técnica de reportagem. Notas sobre a narrativa jornalística. São Paulo: Summus, 1986.




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