A trajetória da heroína invisível de Mansfield Park
Autor: Marina Yukawa - Ciências da Linguagem II - 2013 Noturno
Postado em 01/10/2013 às 13:23:51 - Editado por Marina Yukawa em 08/12/2013 às 21:49

Este artigo pretende analisar Manfield Park de Jane Austen segundo a narratologia de Vladimir Propp, envolvendo o enredo de Austen e todos os principais personagens da obra.

Mansfield Park: a obra mais profunda de Jane Austen

Jane Austen é um dos maiores nomes das literaturas inglesa e mundial, autora de grandes sucessos como Orgulho e Preconceito e Razão e Sensibilidade. De todas as obras da autora, Mansfield Park é a mais profunda, pois é marcada por traços de crítica reflexiva às relações sociais de aparência e ao valor que as pessoas dão a si e aos outros. 

Fanny Price é a primeira filha mulher de uma família grande e de poucas posses. Com dez anos a menina foi levada à Mansfield Park para ser criada por seus tios abastados. Em seu novo lar, apenas o primo Edmund a tratou com amabilidade, ensinando-a a apreciar a leitura e a moral. O tempo passa e o equilíbrio de Mansfield é rompido com a chegada dos irmãos Crawford. Henry desestabilizou a união entre as irmãs Bertram, enquanto Mary conquistava o coração de Edmund. E no momento em que Henry desvia suas atenções para Fanny de modo insistente e apaixonado, o coração frágil dela parece explodir de angústia.

Segue abaixo um fluxograma que sintetiza as relações interpessoais na obra:

 

As funções narrativas de Propp presentes em Mansfield Park

1. O INÍCIO

AfastamentoFanny Price deixa a casa dos pais para viver em Mansfield Park. Fanny é apresentada como a heroína frágil, tímida e chorosa do romance desde o momento de sua chegada à casa.

A chegada de Fanny à Mansfield Park

2. O ENCANTAMENTO DE EDMUND POR MARY CRAWFORD

Carência: Com a chegada dos irmãos Crawford à Mansfield Park e o encantamento de Edmund por Mary, o primo deixa suas preocupações por Fanny de lado, como no caso em que ela deixou de montar porque a égua estava emprestada à Mary.

Mediação: Fanny ouve as falas apaixonadas de Edmund sobre Mary com dor no coração, mas sem expressar nenhum tipo de desagrado. 

Desafio: Fanny se submete a ser ouvinte de Edmund sobre seus sentimentos amorosos por Mary.

Reparação: Edmund percebeu as faltas que estava cometendo com sua prima. O caso da égua foi solucionado e Fanny pôde voltar a montar.

 
Edmund contempla Mary tocando harpa

3. A PEÇA TEATRAL "PROMESSAS DE AMANTES"

Fraude: Tom e os outros tentam convencer Edmund e Fanny a participarem da peça teatral que organizavam. Eles eram contra o teatro por romperem com a moral e a discrição familiar que tanto zelavam.

Cumplicidade: Edmund cede ao teatro dos irmãos e amigos assumindo o par romântico da personagem de Mary.

Dano: Sir Thomas volta de sua viagem e veta completamente o teatro dos filhos; Maria e Julia se atritam por Henry; o afeto entre Edmund e Mary aumenta e Fanny sofre; Rushworth se constrange com a relação de Maria e Henry.

4. AS ATENÇÕES SE VOLTAM À FANNY: A HEROÍNA DEIXA DE SER INVISÍVEL

Desafio: Maria casa-se com Rushworth e Julia se vai com a irmã, e então Fanny torna-se o centro das atenções, saindo completamente de sua zona de conforto.

Recebimento de ajuda: Henry consegue a promoção de William, o irmão de Fanny, na marinha, por intermédio de seu tio, o almirante aposentado.

Falso herói: Henry mostra-se apaixonado e completamente rendido à Fanny. Confessa que ajudou William apenas por ela.

Decisão: Fanny não aceita as investidas de Henry e permanece decidida até o fim a não ceder, mesmo com a pressão dos tios e de Edmund.

Designação da prova: Fanny tem um desempenho satisfatório em seu primeiro baile.

Henry conduz Fanny ao centro do salão de baile

5. O FIM

Desmascaramento do falso: Maria foge da casa do marido com Henry, com intenções de se casar com ele; Crawford é completamente desmoralizado perante todos. Mary decepciona Edmund completamente ao propor uma solução frívola e imoral para o caso do irmão.

Castigo: Henry perde Fanny para sempre; Mary acaba sozinha com as lembranças de Edmund; Maria é logo abandonada por Crawford e acaba sozinha em uma cidade distante de Mansfield junto de sua tia Norris.

Casamento: Edmund percebe que tem bem próximo a mulher ideal para o casamento, aquela que ele mesmo ajudou a formar e educar. Logo propõe casamento à Fanny, e se surpreende ao saber que sempre teve o amor dela. 


Fanny Price: a heroína invisível

Fanny Price é a heroína mais discreta de Jane Austen. Uma moça reservada, que ouve mais do que fala e prefere ficar longe dos holofotes. Grata aos tios e primos pela acolhida em Mansfield, ela é sempre submissa e prestativa a todos. As repreensões humilhantes de sua tia Norris confirmam e amplificam sua dependência e inferioridade na casa.

Com quinze anos, Fanny diz ao primo Edmund: “Eu nunca vou ser importante para ninguém.”. Porém, por trás de toda sujeição, Fanny é uma moça doce e livre de qualquer mácula. Sobre a aprovação de seu tio sobre Fanny, Henry diz: “Fanny é exatamente a mulher que ele pensa não existir no mundo; ela é a própria impossibilidade que ele acabará descrevendo”.


Henry Crawford: o falso herói

As obras de Jane Austen são marcadas pela presença de falsos heróis que enganam os personagens da trama e até os leitores. Grandes exemplos são Wickham e Willoughby, que conquistaram a simpatia e o amor de Lizzy Bennet e Marianne Dashwood, respectivamente.

O falso herói de Mansfield Park é Henry Crawford, um conquistador. Destroçou os corações de Maria e Julia e quis deixar sua marca em Fanny. “Eu não poderei ficar satisfeito sem Fanny Price... sem fazer um pequeno buraco no coração de Fanny Price.”. Fanny se tornou o desafio de Henry. “Os olhares dela me dizem: ‘Eu não gosto do senhor, estou determinada a não gostar do senhor’. Pois eu digo que ela gostará”.

O que era capricho se tornou sentimento, o que fixou Henry em Mansfield por mais tempo do que planejara. Ele estava completamente apaixonado por Fanny, e queria se casar com ela. “Eu vou fazê-la muito feliz, Mary; mais feliz do que ela mesma jamais foi, ou jamais viu alguém ser”. Porém, seu plano de casamento nunca se realizou.

 
As investidas amorosas de Henry e as recusas desesperadas de Fanny

Conclusão

Mansfield Park difere-se grandemente dos contos maravilhosos analisados por Propp para a elaboração de suas 31 funções narrativas. Ele lidou com contos de magia que envolvem aspectos sobrenaturais, conforme o sistema de Aarne-Thompson. Mansfield Park é um romance de costumes do século XVIII, não tem personagens ideais, nem monstros ou magia. Como disse Lady Gordon sobre a obra: “(...) nas obras da Srta. A, acima de tudo em M.P., nós de fato vivemos com elas (personagens)(...)”.

Fanny Price não é uma heroína aventureira, que atravessa uma jornada rumo a desafios sobrenaturais. Ela quase não sai do seu lugarzinho em Mansfield, sua trajetória é metafórica, seus desafios são sentimentais, seus vilões são mascarados e dissimulados. Em Mansfield os personagens não são de fácil classificação, pois não são absolutos e são mais próximos da realidade.

Mansfield Park é um conto de fadas, tão charmoso e genial como Branca de Neve, Cinderela ou Rapunzel, mesmo sem as fadas e as bruxas. As ações da obra, independentemente dos personagens atuantes, são descritas pelas funções proppianas. Pois, como Propp mesmo deixa claro, “no estudo do conto maravilhoso o que realmente importa é saber o que fazem os personagens. Quem faz algo e como isso é feito, já são perguntas para um estudo complementar”

Referências Bibliográficas

PROPP, Vladimir in "Morfologia do Conto Maravilhoso".

AUSTEN, Jane. "Mansfield Park", Porto Alegre, RS, LP&M Edições, 2013. 

BREUNIG, Rodrigo, "Como gostar de Fanny" in "Mansfield Park" Porto Alegre, RS, LP&M Edições, 2013.

VASCONCELLOS, Sandra, "O clássico de combate" in Revista Cult.

Ilustrações de C. E. Brock in Biblioteca Jane Austen do Brasil.

Universidade de São Paulo
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Alunos da Disciplina Ciências da Linguagem II