Meses Coloridos | Ana Carolina e João Victor
Autor: João Escovar - Ciências da Linguagem II - 2016 Matutino
Postado em 05/11/2016 às 13:38:22 - Editado por João Escovar em 27/11/2016 às 14:11



Por: Ana Carolina Aires e João Victor Escovar



Setembro Amarelo. Outubro Rosa. Novembro Azul. Dezembro? É muito comum, no final do ano, ouvir falar de campanhas que envolvem a prevenção e conscientização contra determinadas doenças, como câncer de mama, de próstata ou depressão. Essas campanhas ganharam notoriedade recentemente, mas já existem há mais de 20 anos, com a iniciativa do Outubro Rosa, que, como pioneira, abriu espaço para outras campanhas de conscientização pegarem carona no modo de divulgação, estabelecendo uma corrente discursiva fundada nos meses e nas cores para cada um. Baseando-se em símbolos similares, o interlocutor já reconhece a marca dos Meses Coloridos e procura saber do que cada uma se trata. Nessa análise, vamos discorrer sobre como age esse discurso, nos baseando em conceitos de estudiosos do tema, como Michel Foucault, Patrick Charaudeau e Helena Brandão.


cancer

No começo, a divulgação da Outubro Rosa, por exemplo, limitava-se a pequenos símbolos, como fitas ou camisas da cor determinada. Enquanto estava apenas nesse âmbito, o discurso não era consolidado, abrindo espaço para críticas e controvérsias, como a de que a iniciativa era uma “frescura” ou comercial. Hoje, as campanhas têm um apelo muito maior: na publicidade, na grande mídia, nas redes sociais e nos grandes eventos, os Meses Coloridos são muito citados e divulgados, o que confere o estabelecimento efetivo do discurso na sociedade, hoje raramente criticado. Isso remete à mudança na relação entre o sujeito do discurso e seu interlocutor, no “contrato de comunicação”, de que trata Charaudeau (2006).

 

Através da utilização de termos similares e da abordagem massiva e parecida, estabelece-se o “discurso circulante”, consolidados no imaginário popular (CHARAUDEAU, 2006). A relação de cores e meses, além de símbolos menores, foi apropriada pelas campanhas, gerando um peso simbólico e associativo. Se ouvirmos falar de campanhas desconhecidas, como Janeiro Verde, podemos não saber de que doença se trata, mas já associamos às campanhas preventivas.


Várias doenças possuem meses e cores para suas campanhas, embora muitas sejam desconhecidas (Imagem: Folha de S.Paulo)

 

Segundo a pesquisadora Helena Brandão (s/d), todo discurso abrange características essenciais, que ela determina baseada nas ideias de Dominique Maingueneau (2004). As primeiras características ligam-se ao contexto de produção e circulação do discurso, como sujeito, interlocutores e acontecimentos, além de elementos extralinguísticos. Nas campanhas, o sujeito é bem plural, partindo tanto do poder público, como de empresas ou de indivíduos, como destacam os teóricos da AD francesa, mas de caráter institucional, visando conscientizar. Já os interlocutores são o público em geral, meio para a expansão da campanha, mas em especial o público-alvo de cada campanha: mulheres de meia-idade na Outubro Rosa, homens na Novembro Azul e pessoas com depressão, além de seu círculo social, na Setembro Amarelo.

Recentemente, esse discurso tem sido apropriado pelo estilo das redes sociais, destoando um pouco da sua concepção inicial e adquirindo novos sentidos, de acordo com a interpretação de cada indivíduo. É o caso do Setembro Amarelo que, nesse ano, mostrou-se forte nas redes, mas passou uma mensagem um pouco distorcida em relação à intenção do sujeito, que é conscientizar a respeito da depressão e do suicídio, não consolar pessoas possivelmente “tristes”.

Isso evidencia outras características citadas por Brandão (idem), como a interatividade do discurso, por meio da simultânea atividade e passividade, tanto do sujeito, como dos interlocutores; e a polifonia, já que o discurso dialoga com outras vozes que nele estão presentes. Nas palavras de Brandão: “vozes com as quais concorda ou vozes com as quais discorda. O discurso é polifônico porque é sempre atravessado, habitado por outras vozes” (BRANDAO, s/d, p. 4-5).


Tirinhas a respeito da depressão e suicídio são comuns nas redes sociais


O objetivo dessas campanhas é conscientizar as pessoas em geral, para expansão da ideia e os grupos de risco, para que se previnam e estejam alerta aos sintomas de cada doença e as precauções necessárias para evitá-las. Esse ponto é um exemplo claro da ação do discurso, que é uma forma de agir sobre o outro visando modificar seus comportamentos. A incessante campanha busca efetivar nas pessoas uma compreensão real da gravidade e dos perigos de cada tema, sendo discurso ativo sobre elas.

Por outro lado, as iniciativas remetem à busca de seus sentidos implícitos: apesar de todas as campanhas tratarem a respeito de alguma doença, geralmente ela envolve temas que possuem algum tabu ou entrave para a prevenção. No caso do câncer de mama, os entraves são a exposição e o desconforto na realização da mamografia; do câncer de próstata, o preconceito com o discurso homofóbico, relacionado com a maneira que é feito o exame de toque; do suicídio/ depressão, a condenação moral e dificuldade em aceitar o problema, tanto parte do doente quanto das pessoas que o cercam.

 


Campanha de conscientização da importância do exame de toque


O principal elo entre os discursos dessas campanhas é a interdiscursividade. Seu maior símbolo é a forma de divulgação da campanha a partir da associação entre mês e cor. Conforme os meses vão passando, em especial no final do ano, as campanhas funcionam como se fossem uma única, com diversas abordagens. Foucault (1996), por exemplo, trata da ideia da historicidade do sujeito, ou seja, seus discursos e enunciados são povoados por outros enunciados, construindo o que chama de “memória discursiva”, que possibilita a própria interação entre os discursos.


dfffAlém das cores, há todo um “ritual” e abordagem midiática padronizada e muito semelhante, com a promoção e divulgação de maratonas contra o câncer, seja de mama, em Outubro, seja de próstata, em Novembro; mudança de foto de perfil e correntes do bem no Facebook; ou utilização de adornos relacionados à cor da campanha do mês.


Assim, tanto quando se fala em Outubro Rosa quanto em Novembro Azul, ou na promoção que se faz das campanhas, é impossível não relacionar uma a outra e às iniciativas como um todo. Como afirma Brandão, “dialogamos com outros discursos, trazendo a fala do outro para o nosso discurso. Isso se faz de forma explícita ou implícita quando usamos, por exemplo, um provérbio, uma paródia ou uma imitação” (BRANDAO, s/d, p.4).

 
 

Ao passo que essa sensação de campanha unificada pode ser interessante, dando um peso e destaque para doenças que anteriormente não eram discutidas, a sistemática abordagem pode fazer com que as campanhas percam o foco e a capacidade de mobilização genuína, já que elas se tornam repetitivas e cansativas para o público.


Campanha via Facebook no Setembro Amarelo


A polifonia e a interação entre o interlocutor e o propósito podem, a despeito das intenções, ser prejudiciais e desgastantes para a campanha. É o caso do Setembro Amarelo e sua repentina aparição no Facebook. Com mensagens repetidas e padronizadas, um assunto sério acabou banalizado, e percorreu a rede como uma mera corrente de consolo. Pessoas que de fato possuem distúrbio depressivo precisam de acompanhamento médico e psicológico, não de uma simples conversa por chat com amigos. Ainda assim, as publicações que ofereciam ajuda pelo Facebook tornaram-se parte da iniciativa como um todo.


O discurso toma, portanto, proporções inimagináveis, dificultando, assim, seu perfeito entendimento. Embora a questão dos meses coloridos não possa ser considerada uma formação ideológica, em geral esse é o caminho que tomam os grandes complexos de ideias: várias vozes se misturam, de modo que já não conseguimos identificá-las separadamente.


Segundo Helena Brandão (p.6), uma mesma formação ideológica abarca diversos discursos que podem conflitar. Esses, por sua vez, são compostos de enunciados, textos e símbolos. As vozes então se misturam numa grande rede interdiscursiva. No caso dos Meses Coloridos, podem existir vários discursos: o de que a campanha é boa para a conscientização, o de que é mera publicidade, ou o de que é mero estímulo das indústrias farmacêuticas, por exemplo. Dentro do primeiro, surgem diversas formas de enunciá-lo, seja pelo nome, pela cor, pelo mês, pela forma de divulgação (marcas características) ou pelos textos de conscientização.

Outro ponto interessante a ser considerado é a relação entre discurso e disciplina, já discutido por Foucault (1996). Com a penetração das formações discursivas, de modo a se tornarem dominantes e circulantes, elas mesmas acabam sendo referendadas na sociedade e obedecidas quase que passivamente. O poder disciplinatório das campanhas está ligado ao incentivo aos cuidados e prevenções, a priori bons, mas indiscutivelmente incutidos no público.

As campanhas são, desse modo, exemplo claro de como certos discursos surgem, se enraizam e agem na sociedade. Marcadas por características como interdiscursividade e interação com o público, e potencializadas pelas redes sociais, as iniciativas são uma inocente maneira de ilustrar a onipresença das formações discursivas.



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BRANDÃO, Helena H. N. “Analisando o discurso”. Portal da Língua Portuguesa (mimeo), S/D.

CHARAUDEAU, Patrick. “Conclusão: contrato midiático, máquina de construir espaço público e opinião pública”; “Do espaço público”; “Da opinião à opinião pública”. In: Discurso das Mídias. São Paulo: Contexto, 2006, pp. 114-125;

FOUCAULT, Michel. A Ordem Do Discurso. São Paulo: Loyola, 1996;

GREGOLIN, Maria do Rosário. "Análise do discurso e mídia: a (re) produção de identidades. Revista Comunicação, Mídia e Consumo. Volume 4, número 11, 2007, pp. 11-25.

MAINGUENEAU, Dominique. Análise de textos de comunicação. São Paulo: Cortez Ed., 2001.

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Alunos da Disciplina Ciências da Linguagem II