O discurso sobre a realidade através das ficções de Jeff Wall.
Autor: Thiago Neves Dias - Ciências da Linguagem II - 2013 Matutino
Postado em 28/11/2013 às 21:46:49 - Editado por Thiago Neves Dias em 08/12/2013 às 23:02

Sobre a obra.


 

A obra do fotógrafo canadense Jeff Wall foi descrita por Craig Burnett da seguinte forma: 

Digamos que as imagens de Wall dão vida, na mente do observador, a coisas invisíveis. Talvez esse seja o outro lado da fotografia proposto por Wall. O que torna sua obra tão significativa na arte contemporânea não é o fato de ele ter convidado a história da arte ou a complexidade teórica a aliar-se à fotografia, nem mesmo o uso das caixas de luz. A grandeza de sua obra talvez esteja no fato de que suas imagens ocultam tanto quanto revelam. Wall abriu a fotografia para o invisível. (Burnett, Craig, Revista Zum nº 1, São Paulo, Instituto Moreira Salles 2011, p. 72)  

E o que define a obra mais recente desse fotógrafo como algo tão especial é justamente aquilo que não se pode ver num primeiro contato com suas imagens, aquilo que o próprio define como “neodocumental”, descrito por Sergio Burgi (Zum, nº1, São Paulo , Instituto Moreira Salles, 2011, p.69) como uma associação entre uma meticulosa direção de cena e de figuração a elementos da linguagem vernacular, como instantaniedade e casualidade. Suas realidades construídas, portanto.

  A obra de Wall é dotada de força através da imagem, e consegue, com suas “ficções”, promover discussões por uma ótica universal daquilo que é também contado pelos noticiários.


Wall constrói suas realidades por meio da associação de elementos digitalmente.

Wall constrói suas realidades a partir da associação de elementos digitalmente. 

 

‘Conversa de soldados mortos (Visão após uma emboscada contra uma patrulha do Exército Vermelho perto de Moqor, no Afeganistão, no inverno de 1986)’. Jeff Wall, 1992.


 

Um dos exemplos produzidos por Wall que demonstra tal capacidade de sua obra é a fotografia antibelicista “Conversa de soldados mortos (Visão após uma emboscada contra uma patrulha do Exército Vermelho perto de Moqor, no Afeganistão, no inverno de 1986)” (1992), na qual a situação de homens dispostos em uma paisagem devastada por explosões é a “antítese de um documento”, visto que a cena foi construída no estúdio do artista canadense, e que nunca foi ao Afeganistão. A emboscado é um fato fictício, mas discute a violência de uma guerra narrada nos jornais.

Wall atribuiu-se a tarefa de imaginar os horrores da guerra (cita Goya como sua inspiração), a exemplo do que fizeram as pinturas históricas do século XIX e outras formas de história-como-espetáculo surgidas no fim do século XVIII e no início do XIX -imediatamente antes da invenção da câmera-, como os chamados tableaux vivants, ou quadros vivos, as estátuas de cera, os dioramas e os painéis móveis que faziam o passado, em especial o passado recente, parecer espantosa e pertubadoramente real. (Sontag, Susan. “Diante da dor dos outros. São Paulo, Cia. das Letras, 2003, p.102/103)


‘Conversa de soldados mortos (Visão após uma emboscada contra uma patrulha do Exército Vermelho perto de Moqor, no Afeganistão, no inverno de 1986)’. Jeff Wall, 1992.


Wall, a mentira e o fotojornalismo. 


 

 O ponto de partida é a discussão sobre fotografia e verdade, abordada no livro “O Beijo de Judas” (2010) do fotógrafo e pensador catalão Joan Fontcuberta. Nessa obra, o autor afirma que a fotografia é construção, ou seja, há diversas intervenções que transformam qualquer cena fotografada numa imagem que não é objeto passível de crença: 

Toda fotografia é uma ficção que se apresenta como verdadeira. [...] a fotografia mente sempre, mente por instinto, mente porque sua natureza não lhe permite fazer outra coisa. (O Beijo de Judas, 2010, p. 57) 

Partindo da abordagem de Fontcuberta acerca da constituição da fotografia pretende-se comparar duas produções fotográficas: a abordagem fotojornalística de acontecimentos e as “realidades construídas” do fotógrafo canadense Jeff Wall.

A opção pela comparação dessas produções deve-se ao fato de que, por meio de diferentes métodos, ambas encaminham a mesma discussão sobre a crença no registro fotográfico. Wall, faz capturas de elementos separadamente, e, com eles, constrói uma cena previamente determinada. Enquanto parte dos fotojornalistas capturam cenas ocorridas no cotidiano, sem  grandes intervenções póstumas. Contudo, há escolhas feitas nessa captura, que aproximam o “aparente registro da verdade” no fotojornalismo às “realidades construídas” de Wall.

[...] Contudo, o importante não é essa mentira inevitável, mas como o fotógrafo a utiliza, a que propósitos serve. O importante, em suma, é o controle exercido pelo fotógrafo para impor um sentido ético à sua mentira. O bom fotógrafo é o que mente bem a verdade. (O Beijo de Judas, 2010, p. 61)


“A Sudden Gust of Wind”. Jeff Wall, 1993.

“A Sudden Gust of Wind”. Jeff Wall, 1993.

 

Robert Capa fotografa a morte de um guerrilheiro durante a Guerra Civil Espanhola 

Robert Capa, fundador da Magnum Photos, esteve presente nos fronts de batalha da Guerra Civil Espanhola.


Considerações finais.



A obra de Wall, portanto, pode ser entendida como metalinguística, pois não preza apenas pelo estímulo estético, ou pelo valor do registro factual. Wall, que ora usa a plataforma fotográfica para discutir sobre ela, e ora extrapola seus limites para debater as possibilidades da imagem, é um artista fascinante. E que mente para potencializar seus posicionamentos sobre aquilo que se passa no mundo ao seu redor. Seu discruso, portanto, é plural é coeso. Pois em uma mesma imagem discute os horrores de uma guerra, o imaginário infantil ou retoma momentos históricos da arte ocidental, mas nunca abandona o constante questionamento acerca da confiabilidade de fotografia.


"Menino cai da árvore". Jeff Wall, 2010.


Jeff Wall trouxe à fotografia uma antítese ao discurso de que o obturador da câmera fotográfica guardava instântes para que eles pudessem tornar-se posse da humanidade. O fotógrafo canadense apenas reforça uma outra ótica em relação ao equipamento e técnica fotográfica, a do discurso, na qual o produtor da imagem tenha consciência da história ali contada, e saiba como transmitir seus relatos para o espectador.


Bibliografia.



Burnett, Craig. Revista Zum nº 1,.São Paulo, Instituto Moreira Salles, 2011.

Fontcuberta, Joan. O Beijo de Judas. São Paulo. São Paulo, Gustavo Gili, 2010.

Sontag, Susan. Diante da dor dos outros. São Paulo, Cia. das Letras, 2003.

 




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Alunos da Disciplina Ciências da Linguagem II