A análise do discurso na realidade ficcional dos mockumentaries
Autor: Marcelo Flora Grava - Ciências da Linguagem II - 2013 Noturno
Postado em 07/12/2013 às 12:11:59 - Editado por Marcelo Flora Grava em 09/12/2013 às 19:36

The Office (em cima) e Parks and Recreation (embaixo): exemplos de mockumentaries humorísticosConsolidado nas últimas décadas como um subgênero de ficção, o mockumentary (do inglês mock = imitar e documentary = documentário) é um formato no qual os eventos de uma série ou de um filme fictício são apresentados simulando as características gerais de um documentário. Diferente dos documentários que apresentam fragmentos ficcionalizados, o mockumentary não esconde sua natureza fictícia, mas a trabalha de forma paradoxal.

A maioria dos mockumentaries são humorísticos, mas alguns podem ser configurados como drama e até suspense ou terror. Frequentemente, os atores dos mockumentaries não recebem script, a fim de improvisarem suas falas e utilizarem a espontaneidade como artifício da simulação. 

Embora o termo tenha se popularizado recentemente, com séries de comédia como The Office (2005-2013), Parks and Recreation (2009--) e Modern Family (2009--) a origem dos mockumentaries pode ser traçada até a década de 60.

Origem e história

Há muita controvérsia ao tentar definir quando o termo mockumentary foi usado pela primeira vez ou qual a primeira obra que se encaixa neste formato. Simulações da realidade através da ficção existem desde a década de 30, quando se deu a famosa transmissão radiofônica do livro Guerra dos Mundos feita pelo cineasta Orson Welles, que simulava um noticiário e fez com que ouvintes desinformados acreditassem estar presenciando uma invasão alienígena.

Na década de 60, o filme A Hard Day's Night, que retratava um dia na vida dos Beatles, também se utilizou de recursos documentais, embora de forma primitiva. Cinco anos depois, o diretor Woody Allen lançou Um Assaltante bem Trapalhão, este sim mais similar ao conceito de documentário da época, com depoimentos fictícios e narração. A outro filme de Allen, Zelig, de 1983, também pode ser atribuída a consolidação do subgênero mockumentary, pois precedeu um significativo crescimento de produções nesse formato. Já no ano seguinte, 1984, foi lançada a comédia This is Spinal Tap, que mostrava o dia-a-dia de uma banda de rock fictícia e consagrou o mockumentary dentro da esfera cult.

Mais recentemente, observamos uma multiplicidade de mockumentaries não só em relação ao gênero mas à abordagem de um tema e aos artíficios escolhidos para simular a realidade. Nas supracitadas séries The Office Parks and Recreation, por exemplo, o falso documentário se passa em um ambiente corporativo e o tipo de humor produzido beira o nonsense. Além disso, as séries são filmadas no formato câmera única, próximo do cinema-verdade de Jean Rouch

No cinema atual, o mockumentary se torna mais complexo e variado, aproximando-se um pouco mais dos documentários ficcionalizados (chamados também de docuficção) e, por isso, muitas vezes confundindo o espectador. Exemplos recentes são o sul-africano Distrito 9 (2009) e Dark Side of the Moon (2002). Uma espécie de derivação dos mockumentaries são os found footage films (ou "filmes perdidos"), mais populares no gênero de horror, como A Bruxa de Blair (1999) e Cloverfield (2008).

mockumentary, entretanto, possui características discursivas que garantem sua particularidade.

Análise do discurso nos mockumentaries

Independente do gênero ao qual pertence, o mockumentary geralmente é construído através de uma paródia ou de uma sátira. No primeiro caso, identifica-se uma reprodução exagerada de elementos da sociedade, de forma quase grotesca. Sem representar, necessariamente, uma crítica ou algum tipo de rompimento, o autor brinca com estereótipos e convenções culturais, delimitando a natureza ficcional da obra através de seus elementos caricatos e consolidados.

Esse tipo de abordagem é o observado, por exemplo, no supracitado This is Spinal Tap. Apesar de empregar alguns elementos mais próximos do documentário que da ficção, como depoimentos dos personagens, o filme explicita, através da exageração, a natureza cômica de sua aproximação ao cinema documental. Conforme o mockumentary se distancia de uma mera paródia e se aproxima da sátira e da crítica, observamos que essa fronteira entre o factual e o ficcional torna-se mais tênue, utilizando ferramentas cinematográficas menos ortodoxas e propositalmente confundindo a audência. 

Por trás dessa manipulação, os mockumentaries podem reforçar discursos críticos de diversas naturezas. Implícito neste cenário, porém, está o questionamento sobre a própria autenticidade do documentário e de seu discurso factual, que se aproxima do jornalismo. Em The OfficeParks and Recreation, embora a caracterização do ambiente corporativo se aproxime da paródia, observa-se que os comportamentos dos personagens é bastante influenciado pela presença das câmeras e dos documentaristas fictícios, e que os depoimentos contradizem, muitas vezes, ações observadas às escondidas, sem que o personagem saiba que está sendo filmado. Nesse complexo jogo entre ficção e realidade e natural e artificial, o mockumentary opera não só como um comentarista de hábitos e vícios contemporâneos - como o faz toda a comédia em si - mas como um sátiro da divisão entre a verdade e a ficção.

Assim, o mockumentary "questiona como a verdade é percebida e representada, mas não a critica [enquanto verdade]" (Schockmel 2007, p. 45-46). Através de suas diferentes formas e abordagens, ele fornece ferramentas críticas ao espectador acerca do discurso factual utilizado pelos documentários. Por não prever o que brotará dessa relação, apenas "impulsionando o público ao coração do discurso" (id.), o mockumentary é classificado por alguns teóricos como sendo, ele mesmo, "uma forma de discurso, ao invés de um gênero ou subgênero propriamente dito" (Roscoe & Hight 2001, p.183, apud Schockmel 2007, p.46).

Bibliografia

AUSTIN, T. & DE JONG, W. Rethinking Documentary: New Perspectives And Practices. McGraw-Hill International, 2008.

http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?pid=S0009-67252013000100024&script=sci_arttext (acessado em 07/12/2013)

http://en.wikipedia.org/wiki/Mockumentary (acessado em 07/12/2013)

ROSCOE, J. & HIGHT, C. Faking it: Mock-documentary and the Subvertion of FactualityManchester: Manchester University Press, 2001.

SCHOCKMEL, E. Hijacking Factuality: an attempt at mapping out the mockumentary. Publicação online, 2007.

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Alunos da Disciplina Ciências da Linguagem II