Espaço USP

Filmes pornográficos, eróticos e autorais para discutir representações do ato sexual

CinuspDe 6 a 28 encontra-se em cartaz pelo Cinusp Paulo Emílio a mostra Obscena: O Sexo no Cinema, que reúne produções desde os anos 1970 até hoje, incluindo clássicos polêmicos e lançamentos recentes como Ninfomaníaca e Azul é a Cor Mais Quente. Haverá sessões no próprio Cinusp, no Centro Universitário Maria Antonia e no Departamento de Rádio e Tv da Escola de Comunicações e Artes (ECA).

Apesar de o corpo e o sexo serem expostos, comercializados e alvos de exploração imagética constante, o ato sexual ainda é um tema tabu na sociedade e sempre enfrentou diversos tipos de censura ao ser levado às telas de cinema. Mas a decisão de transformar em espetáculo público um ato tão íntimo não é sempre desprovida de intenções que vão além da exploração pornográfica: sua forma de representação pode denotar também, além de uma escolha estética, uma afirmação ideológica capaz de expressar e subverter relações de poder sociais e psicológicas estabelecidas. Essas relações podem estar associadas aos tradicionais sentimentos de afeto e união, mas também aos de frustração, raiva, vingança ou ainda à busca do simples prazer, sem nenhum sentimento envolvido, bem como a associações com criminalidade e política.

Partindo dessas reflexões, a mostra inspira o debate sobre os limites ambíguos entre pornografia, erotismo e sensualidade, colocando em discussão a ideia de obscenidade por meio de uma seleção de dezoito longas-metragens e sete curtas que escancaram o sexo sem pudor nem maquiagem, utilizando-se do tratamento explícito para provocar o espectador, questionar os interditos e problematizar as fronteiras entre arte e pornografia, não tão bem demarcadas quanto as concepções tradicionais poderiam querer.

Motivada pelos lançamentos recentes nos cinemas do Brasil de um número significativo de filmes que se utilizam de cenas de sexo explícito como Ninfomaníaca, de Lars Von Trier, Azul é a Cor Mais Quente, de Abdellatif Kechiche, Um Estranho no Lago, de Alain Guiraudie, e o recém-lançado filme chileno Jovem Alocada, de Marialy Rivas, esta programação busca reacender o debate sobre o registro do sexo em sua explicitude, colocando em pauta tanto filmes contemporâneos quanto representantes da cinematografia erótica e pornográfica de décadas passadas, verdadeiros marcos na abordagem do tema pelo cinema, considerados audaciosos e controversos à época em que foram lançados. Estão presentes na seleção algumas obras cujas cenas de sexo causaram tanta polêmica que chegaram a levá-las a ser banidas ou censuradas em diversos países, como O Último Tango em Paris, de Bernardo Bertolucci, e O Império dos Sentidos, de Nagisa Oshima. Em ambos os casos, a controvérsia gerada pelos filmes foi tão grande que seus diretores foram processados em seus países de origem.

A mostra também resgata filmes concebidos para o mercado pornográfico, mas que ao longo dos anos adquiriram um novo status, tornando-se autênticos cult movies, como Garganta Profunda O Diabo na Carne de Miss Jones, ambos de Gerard Damiano, e Atrás da Porta Verde, de Artie e Jim Mitchell. Verdadeiros “clássicos” do cinema pornográfico, também chamados de porn chic ou cult porn, essesfilmes pertencem à “Era de Ouro do Pornô”, ocorrida entre o início dos anos 1970 e o início dos 80, quando foram lançados dezenas de filmes pornográficos que atingiram um status mais prestigioso frente à crítica e ao público, levando aos cinemas uma parcela da audiência que sempre rejeitou obras do gênero, incluindo as mulheres.

A programação inclui ainda os autênticos blockbusters do sexo, filmes comerciais mais convencionais que fizeram sucesso entre o final dos anos 1980 e 1990 ao explorar o erotismo, como 9½ Semanas de Amor, de Adrian Lyne, e Instinto Selvagem, de Paulo Verhoeven, além de produções independentes dos anos 1990 e 2000 que se propuseram a testar os limites da exibição do ato sexual e das perversões nas telas, como Crash – Estranhos Prazeres, de David Cronenberg, Ken Park, de Larry Clark, 9 Canções, de Michael Winterbottom, e Shortbus, de John Cameron Mitchell. Como representante do cinema pornográfico atual e de suas múltiplas vertentes, a mostra exibe Five Hot Stories For Her, de Erika Lust, diretora integrante de um movimento europeu que, baseado nos pornôs chic dos anos 1970, busca produzir uma pornografia de qualidade feita por mulheres e para mulheres, por isso também chamada de pornô-feminista.

É interessante notar que, enquanto esses filmes trabalharam o ato sexual na chave do erotismo e da sedução, ou de forma realista, mas ainda na esfera da intimidade e da atração, outros utilizam o sexo com intenções opostas, representando-o de maneira repulsiva, proveniente de abusos físicos e psicológicos nos quais são ressaltados conflitos de gênero e classe. É o caso dos filmes Baixio das Bestas, de Cláudio Assis, que conta a história de uma cidade do interior onde os personagens parecem ser movidos pelo sexo e pela prostituição, e Salò ou os 120 Dias de Sodoma, de Pier Paolo Pasolini, diretor já famoso por suas obras com forte apelo erótico, que nesse filme se inspira em um conto de Marquês de Sade para tratar o sexo como metáfora da violência dos regimes fascistas.

Dando continuidade à discussão sobre a pornografia no presente, a mostra apresenta, por fim, uma sessão de curtas-metragens que utilizam cenas de sexo – explícito ou não – com viés experimental e/ou puramente estético, apontando novas formas de se pensar e registrar o sexo. Para discutir essas obras, alguns dos realizadores brasileiros destes curtas comparecem ao CINUSP para um bate-papo com o público no dia 13 de março, quinta-feira, após a sessão das 19 horas: Daniel Augusto, diretor do curta-metragem Porn Karaoke, que intercala o registro da ficção contemporânea com cenas de filmes pornográficos dos anos 1920, Gustavo Vinagre, desafiado a vivenciar e registrar experiências totalmente novas ao fazer um documentário sobre o poeta Glauco Mattoso em Filme Para Poeta Cego, e Juliana Dornelles, que faz uma declaração de amor carnal às cidades de Porto Alegre e São Paulo em Amor Com a Cidade.

Outro debate promovido pela mostra acontece no dia 19 de março, após a sessão de O Império dos Sentidos, entre o crítico de cinema Christian Petermann e o doutorando em Literatura e Erotismo Ronnie Cardoso, no qual é colocada em pauta a utilização do sexo explícito em filmes autorais.

Confira a programação completa no site do Cinusp.

Locais:
Cinusp Paulo Emílio – rua do Anfiteatro, 181, Colméia (Favo 04), Cidade Universitária, São Paulo
Centro Universitário Maria Antonia – rua Maria Antonia, 294, Consolação, São Paulo
Escola de Comunicações e Artes – av. Prof. Lúcio Martins Rodrigues, 443, Cidade Universitária, São Paulo
Temporada: 6 a 28/3
Horários: sessões às 16h e às 19h
Mais informações: cinusp@usp.br / www.usp.br/cinusp / www.facebook.com/cinusp / www.twitter.com/cinusp / (11) 3123-5200
Entrada gratuita

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