Américo Pellegrini Filho
 

 
 

 
No dia 5 novembro é comemorado o Dia da Cultura. A Revista Espaço Aberto entrevistou Américo Pellegrini Filho, especialista em cultura popular e folclore e professor do Departamento de Relações Públicas, Propaganda e Turismo da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP

"0 que cai em pé e corre deitado?" Todos já ouviram, de uma forma ou de outra, essa charada. Mas o que a maioria das pessoas não sabe é que ela é uma forma de manifestação da cultura popular. "Adivinhas como essa são um tipo de manifestação folclórica", explica o professor Américo Pellegrini, da ECA. Essa afirmação pode parecer um pouco estranha à primeira vista, porque normalmente associamos a palavra folclore à Região Nordeste ou ao interior do Brasil. "Criou-se uma idéia de que folclore é Nordeste, e que em São Paulo não pode haver folclore", comenta o professor. "Isso está errado. Para participar de manifestações folclóricas não é obrigatório que a pessoa seja atrasada, analfabeta, pobre, caipira ou negra. Essas são idéias preconceituosas."

O interesse de Pellegrini pelo folclore brasileiro começou quando ele ainda cursava
o segundo grau. "Desde o colégio me interessava conhecer o Brasil. Eu me formei pela Cásper Líbero em Jornalismo, e nesse tempo descobri que, para conhecer o País, um bom caminho era o folclore. Então mergulhei no estudo da cultura popular. Não havia um curso de folclore, tinha de ser autodidata e assim comecei a comprar livros", conta. Depois de terminar o curso de Jornalismo, Pellegrini se interessou pela pós-graduação da ECA. "Fiz mestrado, doutorado e isso abriu meus horizontes. Além do folclore, estudei patrimônio cultural e natural. Para completar essa visão do Brasil."
Logo que iniciou a sua pós-graduação, em 1974, surgiu a oportunidade de dar aulas no recém-criado curso de Turismo da ECA. "Comecei a lecionar na ECA e em outras quatro faculdades", conta Pellegrini. Foi só dez anos mais tarde que ele tornou-se docente da USP em tempo integral e passou a se dedicar exclusivamente à ECA, onde dá aulas no curso de Turismo e faz pesquisas até hoje.

Segundo Pellegrini, todos nós conhecemos e participamos de manifestações da cultura popular. "Independe do nível de erudição da pessoa", explica. "Por que o reitor da USP não pode fazer uma caipirinha, aquele ritual de amassar o limão, colocar a pinga? Por que

ele não pode comer uma feijoada, que é um prato tradicional brasileiro?" Acrescenta que pessoas com um grau de escolaridade mais elevado estão mais em contato com a cultura institucionalizada, erudita. Mas isso não exclui a popular. "Existem três tipos de cultura: a popular, a erudita e, mais recentemente, a cultura de massa. Esses três tipos coexistem e interagem", comenta.

O folclore (ou cultura popular) não é algo distante como muitos podem pensar; faz parte do nosso dia-a-dia. De acordo com Pellegrini, o folclore é definido por coisas que o povo cria para o seu uso, e que independem da cultura erudita e da de massa, embora possam estar relacionadas a elas. "Essas criações populares satisfazem certas necessidades humanas que são delineadas por circunstâncias socioculturais do momento", comenta. Ele também

 

explica que o folclore está em constante mutação. "O folclore é uma coisa viva, não interessa estudar o folclore do século passado, isso seria a história do folclore. Quando a gente fala em folclore é o de hoje."

Entre os exemplos de manifestações folclóricas que acontecem atualmente se encontra a festa de Santa Cruz, na Aldeia de Carapicuíba, em São Paulo. "Ela foi uma aldeia índio-jesuítica, os jesuítas provavelmente aproveitaram alguma manifestação comemorativa dos índios, mudaram o tema, implantaram uma cruz e criou-se a festa de Santa Cruz", explica Pellegrini. A festa acontece nos três primeiros dias de maio e faz parte dela uma dança que, segundo as tradições, tem sua origem em passos indígenas. Em meados de setembro, na mesma aldeia, se realiza a festa de Santa Cruzinha, com os mesmos traços culturais.

Entretanto, nem todas as manifestações de cultura popular são tão características quanto à festa de Santa Cruz. A latrinália, mensagens escritas nas portas e paredes de sanitários públicos, é uma delas. "Em sanitários pode-se encontrar folclore. Eu já registrei várias coisas escritas em sanitários públicos. Isso é comunicação popular escrita", diz Pellegrini. Outro exemplo é o halloween (ou Dia das Bruxas), festa muito comum nos Estados Unidos, que está se popularizando no Brasil. "Essa festa chegou até nós através da comunicação de massa dos Estados Unidos e é um traço cultural que vem originalmente da Europa", explica. "É uma coisa recente. Está obtendo considerável aceitação popular; não há nenhum decreto que crie o halloween ou a festa de Santa Cruz, pois se trata de manifestações folclóricas, é 'natural' e 'espontâneo'".

Américo Pellegrini fez importantes pesquisas e publicou livros que tratam do folclore paulista, patrimônio cultural e natural, incluindo um estudo pioneiro sobre comunicação popular e um primeiro levantamento de pontos da natureza que interessam ao turismo. Atualmente ele continua empenhado nas suas pesquisas, além das aulas. "Interessa-me registrar porque estamos num mundo em constante mudança. Eu me realizo nisso e quero continuar fazendo pesquisa enquanto puder", finaliza Pellegrini.
por
Gabriel Attuy
 
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