estresse

 

 
por
Júlia Tavares


A
cordar muito cedo, pegar horas de trânsito congestionado, bater cartão atrasado e ainda ter que enfrentar oito horas de serviço num ambiente às vezes confinado e mal ventilado pode ser sinal verde para a manifestação do stress. Se o organismo estiver respondendo com reações como dores no estômago, ataques cardíacos, vertigens, alergias na pele e até mesmo suor excessivo ou ruborização constante, cuidado: a situação é de estresse crônico relacionado ao trabalho.

"O estresse é uma resposta normal, saudável e fisiológica do organismo, porque indica a capacidade do corpo em reagir à estimulos do meio ambiente. Mas quando as reações de alerta passam a acontecer sem o estímulo, essa resposta deixa de ser normal e pode indicar o quadro de estresse crônico", explica o Dr. José Luís Pacheco,

Dr. José Luiz Pacheco
médico psiquiatra do Hospital Universitário de São Paulo. Ele conta que pacientes nessa situação normalmente não percebem que estão estressados, chegam nos ambulatórios reclamando dos sintomas específicos e só então são orientados a procurar ajuda psiquiatra.

Para Pacheco, o trabalho pode ser tanto um objetivo como um meio de vida. "Mesmo fazendo o que desejo, terei um stress natural, e aí o que está em jogo é a personalidade da pessoa", diz. Ou seja, uma pessoa segura encara problemas de maneira mais tranqüila do que alguém anscioso. Já quando o serviço é visto somente como um meio de sobrevivência e não traz gratificação pessoal, o trabalhador "está mais sujeito a ficar cronicamente estressado e a desenvolver doenças", afirma ele.

Cícero de Oliveira, funcionário da Escola de Educação Física e Esportes, se encaixa no primeiro caso citado pelo médico. Ele diz gostar de trabalho na área pública, mas confessa passar por diversos momentos estressantes. "Tenho ansiedade em executar os serviços no prazo, lidar com relatórios e ficar cobrando dos outros", conta Oliveira, que compara o trabalho a uma "bola de neve". "É um processo contínuo e a tranquilidade dura pouco, porque logo já tenho outra tarefa", diz.

Oliveira joga futebol duas vezes por semana, mas ainda assim sofre de enxaqueca, dores no corpo e no estômago. "Mas por enquanto não é nada grave", acredita o funcionário, que não percebe uma relação entre essas dores e os períodos de maior cobrança no serviço.

Recente pesquisa da Faculdade de Farmácia de Riberão Preto pesquisou os fatores de estresse em auxiliares de enfermagem e administradores de serviços de saúde comunitários. Os principais foram risco de infecção (93%), exigência de rapidez (75,5%), trabalho repetitivo (91,5%) e falta de perspectiva de desenvolvimento na carreira (90%). "Essas condições acompanhavam sofrimento psíquico e orgânico, mostrando que o trabalho na comunidade não é tranquilo", afirma a orientadora da pesquisa, professora Margarita Villar. Mais de 60% dos 58 participantes reclamaram de dores nos ossos ou músculos, cansaço, falta de interesse e desatenção.

Para tratar pessoas muito estressadas, Dr. Pacheco receita medicamentos que bloqueiam a resposta cronicamente desenfreada do organismo, como anti-depressivos e tranqüilizantes. Mas um tratamento profundo precisa ser feito, e para isso indica a linha da psicoterapia, que utiliza técnicas cognitivo-comportamentais. "A técnica apresenta ao paciente a situação que ele está vivendo e tenta orientá-lo para realizar mudanças", esclarece.

Daniella Pedroso Vieira

A funcionária Daniella Pedroso Vieira, técnica acadêmica da Faculdade de Farmácia, teve o acompanhamento de uma psicóloga durante uma séria crise de estresse em 2001. "Funcionava como uma limpeza, uma descarga", comenta. Esse período coincidiu com a proposta de mudança de função e ambiente de trabalho, onde ganharia maior responsabilidade. "Fiquei muito ansiosa por não saber se conseguiria dar conta. A psicóloga me ajudou a aceitar o emprego e a lidar melhor com a ansiedade", recorda.

Por motivos financeiros, Daniella abandonou o acompanhamento e já percebe o estresse de volta. "Moro em Cotia, pego um trânsito de 40 minutos na Raposo Tavares todo dia, já chego mal-humorada", desabafa. A funcionária menciona a grande responsabilidade em lidar com a vida dos alunos como um dos fatores de pressão no serviço, além de ter que organizar eventos fora da rotina normal. "Aqui não tem rotina, porque sempre aparece um problema novo", diz.

A Faculdade de Farmácia de Riberão Preto aposta na prevenção de doenças ligadas ao trabalho, como a Ginástica Laborativa, técnica moderna que vem alcançando ótimos resultados desde sua implantação, em 1999. A ginástica é composta de três partes: preparatória, pausa e relaxamento, mas atualmente está sendo aplicada em sua versão de pausa. "A cada hora, os funcionários devem fazer uma pausa de dois minutos com exercícios compensatórios dos movimentos repetitivos", explica a professora Maria Angela Piovesan, coordenadora da equipe.

professora Maria Angela Piovesan

"Oito horas de trabalho equivalem a 16 minutos de pausa para exercícios, que revigoram o sistema músculo-esquelético e previnem problemas como Dort (Distúrbios Osteomusculares Relacionados ao Trabalho) e Ler (Lesões por Esforços Repetitivos)", relata a professora. Ela garante que a série de exercícios, individualizada e específica para cada tipo de trabalho, possa aliviar o estresse. "Com a melhora da circulação, aumenta o fluxo sanguíneo e a eliminação de toxinas. O músculo destensionado gera mais flexibilidade e menos tensão, promovendo uma melhora global", afirma.

Outra pesquisa da psicóloga Lícia Barcelos de Souza, da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Riberão Preto, revelou grande diferença na relação entre trabalho e qualidade de vida na comparação de dois grupos de funcionários de várias áreas na USP. Para o primeiro grupo, que tem ensino superior completo e exerce maior posição hierárquica, o trabalho exerce papel central em suas vidas, mas eles são mais críticos quanto às condições a que são submetidos. "Esse grupo é mais insatisfeito, percebe que não tem autonomia e sofre com os mecanismos de controle, que vai desde o relógio de ponto à pressão dos chefes", diz a autora da pesquisa.

Já o segundo grupo, com formação até o ensino médio e predomínio de habilidades operacionais, encontram no trabalho uma maneira de se distanciar dos problemas pessoais. "O trabalho pode ser uma forma de recuperar energia necessária para enfrentar as dificuldades do cotidiano. Colegas do serviço também formam uma rede de apoio social muito importante. Para eles, o referencial de estresse está mais ligado às condições de vida do que de trabalho", analisa a psicóloga.