aleitamento

 

 
por
Marcos Jorge

É
inegável a importância do aleitamento materno para a saúde do bebê, tanto no campo nutricional quanto imunológico e até mesmo psico-afetivo. Segundo Isília Aparecida Silva, docente da Escola de Enfermagem da USP, o leite materno é o que existe de mais completo para a dieta da criança, que, por ter um organismo ainda em formação, não suporta a digestão de alguns nutrientes presentes em outros alimentos.
A amamentação é fundamental também para o desenvolvimento do sistema imunológico. "A mãe passa para o filho fatores de proteção contra doenças com as quais ela já entrou em contato. É como se o bebê recebesse uma dosagem de vacina a cada mamada", afirma a professora. Do ponto de vista afetivo, o aleitamento estreita a relação entre mãe e filho pois é através dele que o bebê percebe o carinho, o acolhimento e a satisfação de necessidades.
As vantagens para a mãe também não são poucas. "É comprovado que o hormônio que age na produção do leite é o mesmo que promove a redução uterina após o parto. Além disso, pesquisas recentes associam o aleitamento a uma redução na probabilidade do câncer de mama."

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS) e o Ministério da Saúde, as mães devem amamentar seus filhos exclusivamente (somente o leite materno) até, no mínimo, os seis meses de idade. A legislação brasileira, por
sua vez, prevê 120 dias de licença- maternidade, ou seja, dois terços do período recomendado pela OMS. É justamente nesses dois meses restantes que a maioria das mães abandona o aleitamento exclusivo por dificuldades em conciliar a jornada de trabalho com a amamentação do bebê.

Tendo em vista essas dificuldades, o Núcleo de Pesquisas em Aleitamento Materno da Escola de Enfermagem da USP (Nepal) criou, há pouco mais de dois anos, o Programa de Manutenção à Lactação, sob a coordenação da própria Isília. Com o intuito de facilitar o retorno dessas mulheres ao ambiente de trabalho, o programa acompanha a mulher na gestação e durante os primeiros meses do bebê, a fim de orientá-la para manter a amamentação mesmo após o retorno ao trabalho.

HU Banco de Leite A

O programa atende muitas funcionárias, docentes e alunas da USP, mas também está aberto para qualquer pessoa de fora da comunidade uspiana, sempre respeitando a individualidade e as necessidades de cada mulher. "Algumas mães chegam aqui querendo amamentar mais dois ou três meses, para outras basta dar o leite apenas em casa que já está ótimo. A gente tenta respeitar a vontade individual da mulher de acordo com a sua necessidade", ressalta a coordenadora.
A professora aponta a falta de apoio institucional como uma das maiores dificuldades que a mulher enfrenta no retorno ao trabalho. São poucas as empresas que disponibilizam creche para os bebês e menor ainda é o número daquelas que oferecem leite materno no próprio berçário.
Foi uma situação semelhante a essa que viveu Roseneide Rodrigues da Silva Andrade, auxiliar acadêmica da Faculdade de Saúde Pública. Rose, como é conhecida no trabalho, amamentou exclusivamente até os quatro meses (período da licença-maternidade), quando teve que inserir outros tipos de alimento na dieta do filho. "Eu sabia que não ia poder dar somente leite materno ao meu filho porque a creche ficava muito longe do meu trabalho, aí passei a dar água, papinha e outras comidas de bebê para ele já ir se acostumando", afirma. A amamentação ficou restrita a uma sessão antes de sair de casa e outra após o trabalho, de onde ela era dispensada uma hora mais cedo por causa da criança.

Além da licença-maternidade de 120 dias, a legislação garante dois descansos remunerados de 30 minutos por dia a cada 4 horas de trabalho até o bebê completar os seis meses de idade.

No ambiente doméstico o apoio ao aleitamento também é fundamental pois pressões existem mesmo dentro da família. "Esse período se torna um dilema pois, ao mesmo tempo em que a mulher tem seus planos de vida e ambições profissionais, ela também deve exercer o papel de mãe amamentando o filho", ressalta a professora.
A família pode ajudar bastante cuidando não apenas da criança, mas também do leite materno. Estocar e oferecer o leite para a criança em casa enquanto a mãe está trabalhando pode ser uma boa opção para manter o aleitamento exclusivo, mas alguns cuidados e o envolvimento da família são fundamentais (veja box). No caso da funcionária Lilian Garcia o apoio da família foi importante. "Eu estocava o leite de acordo com as orientações da dra. Isília e deixava o bebê aos cuidados da minha sogra, que o alimentava enquanto eu estava no trabalho", ressaltou.
 
Lilian Garcia

O Hospital Universitário (HU) também dispõe de profissionais que informam as mães quanto aos benefícios do aleitamento. Sob a responsabilidade da dra. Virgínia Spindola Quintal, o banco tem como foco principal os bebês recém-nascidos, prematuros ou que acabaram de sofrer cirurgia, mas também atende gestantes na forma de orientá-las de que maneira e quais os cuidados devem ser tomados durante a ordenha do leite. Atendendo a toda a região do Butantã, Osasco, Carapicuíba, Barueri, Alphaville e a própria comunidade uspiana, o banco está sempre precisando de doadoras. As interessadas devem entrar em contato com o Hospital Universitário, passar por algumas avaliações para então receber as orientações de como colher e armazenar o leite materno.

dicas
 

· Antes de qualquer coisa, é importante cuidar da higiene lavando as mãos com sabão. Para as mamas basta uma lavada com água.

· O leite pode ser ordenhado manualmente ou com o uso de bombinhas. O Nepal oferece esse tipo de material.

· É preferível que o leite seja acondicionado num vidro. O plástico não é recomendável por reter gorduras e ser mais frágil à variação de temperatura.
· Depois de ordenhado, o leite deve ser guardado na geladeira por até 24 horas. Caso não tenha uma geladeira, o leite pode ser mantido num isopor com gelo.

· Não é bom que o leite seja estocado na porta da geladeira, pois esse é um lugar muito exposto, o ideal é que ele fique na primeira prateleira, ao fundo, próximo ao congelador. É importante observar também se não existem ali alimentos com muito tempero ou cheiro forte pois o leite pode absorver esse odor. O ideal é reservar essa prateleira só para o leite.

· Se a mulher for usar o leite decorridas 24 horas, é necessário que seja estocado em congelador ou freezer, onde ele pode permanecer por até 10 dias. Na hora de alimentar o bebê, descongele o leite e aqueça-o levemente em banho-maria.

· Nunca use mamadeira, pois ela acostuma o bebê com a forma de sugar do bico artificial e, no momento da mamada no seio, a criança pode encontrar dificuldades. Prefira um copinho ou xícara de café na hora de dar o leite para o bebê.