Regina Celi Sant'anna

 

 
por
Marcos Jorge


Q
uem cruza com Regina Celi Sant'Ana pelos corredores da Diretoria e Administração da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) não imagina a energia e o fervor com que ela leva sua vida, mas basta conversar com essa chefe do setor de pós-graduação por 20 minutos para descobrir que "fervor" é apenas uma de suas muitas qualidades.

A relação dessa paulistana com a USP começou há quase três décadas, no mês de julho de 1974, quando foi inscrita pelo pai num concurso para escriturária e foi aprovada, passando a trabalhar na Filosofia. "Eu queria arrumar um emprego e meu pai, que já trabalhava aqui na USP, me queria perto dele. Ele me levava e trazia do trabalho para casa todos os dias."

O País ainda vivia o período da ditadura militar e, vez por outra, Regina recebia a visita "daqueles homens de preto e óculos escuros" que pediam algumas informações sobre os alunos e rapidamente iam embora. "Por ser jovem e despolitizada, eu não entendia o que aquilo significava. Meus superiores me pediam e eu os atendia. Pra mim aquele era o meu serviço e pronto! Só fui compreender o que era aquilo anos depois, quando os anos de chumbo se foram."

Aos 49 anos de idade, Regina está às vésperas de completar 30 anos de USP, mas nem pensa em se aposentar. Com dedicação de sobra para mais umas duas décadas, ela ainda puxa a orelha dos mais jovens. "Os meus colegas contemporâneos se aposentavam aos 70 anos e ainda achavam que era pouco. Hoje os funcionários já estão caindo fora com 50 anos, no máximo."

Regina relembra o período anterior à informatização da pós-graduação, que começou no final dos anos 80 com o Programa Quíron e culminou, em 1994, com o início do processo de instalação do Sistema Fênix. "O controle da vida acadêmica dos alunos era feito em fichas de cartolina e a cada ocorrência o funcionário colocava a ficha na máquina e registrava." Hoje, o controle dos cerca de 2.500 alunos de pós-graduação da FFLCH é feito exclusivamente por meio eletrônico. "Lá se foram os tempos do papel carbono, mimeógrafo, máquina manual, - tanta sujeita, que trabalhão!", comemora.

As dificuldades de outrora não se limitavam apenas ao trabalho burocrático pré-infomatização. Regina se lembra de outra história curiosa que aconteceu em 1977, período em que ela trabalhou na Fuvest. Era o primeiro ano da Fuvest que havia acabado de ser criada, em 76. Naquela época a prova era aplicada às 8 horas da manhã e justamente na madrugada anterior desabou um temporal que parou São Paulo de ponta a ponta.

Sem poder se deslocar para levar as provas, a equipe contou com uma ajudinha especial. "Os bombeiros pegaram os funcionários da Fuvest de helicóptero e nós íamos de um lugar para o outro entregando as provas. E tudo daquele jeito, né... os bombeiros achando normal voar por aí debaixo de um temporal. Para eles parecia até que nós estávamos pegando um táxi", lembra.

Foi depois desse dia que a Fuvest decidiu realizar as provas no período da tarde. Regina se lembra do ocorrido com uma surpreendente riqueza de detalhes: "Todos os estudantes de calça arregaçada, tudo alagado, gente chegando atrasado, vestibulando chorando. Foi comovente participar daquilo tudo ativamente."

Mas quem pensa que a vida de Regina é só trabalho está redondamente enganado. O seu tempo hoje em dia é dividido igualmente entre os encargos da USP e seus dois filhos adotivos, Alice (6 anos) e Pedro Henrique (3 anos). "Eu costumo dizer que não tem nada melhor do que cuidar dos meus filhos. Minha vida fora do horário de trabalho são eles", emociona-se.

Quanto mais se conversa com Regina, maior é a certeza de que a história de vida dessa mulher se confunde com a da própria USP. Talvez seja por isso que, após trabalhar 29 anos no prédio da Diretoria e Administração da FFLCH, Regina resolveu escrever um poema sobre a sua relação com o ambiente de trabalho. "Eu já passei por estes corredores feliz, triste, chorando... Aí um dia, indo tomar café, eu parei pra pensar no que ele já tinha visto de mim e resolvi fazer uma poesia que retrata muito bem minha época aqui."

Poesia
 


CAMINHO DE VIDA


Quantas vezes te percorri...
Fui em busca de alegrias,
de tristezas,
de boas notícias,
de tragédias,
chorei em ti a espera,
presenciaste minhas emoções do primeiro amor,
do primeiro beijo,
do primeiro prazer
ouviste as conversas que ninguém mais poderia ouvir...
o choro que ninguém poderia presenciar,
noites escuras
dias escaldantes,
fui e voltei
tantas e tantas vezes
conheces toda minha história já que sabes que falo com as sombras,
falo sozinha,
falo para meus anjos...
e tu tens escutado tudo...
escutaste meus gemidos do filho que perdi,
a felicidade incomparável do filho que ganhei,
tantas idas e vindas
fui, voltei triste, transtornada, alegre, esperançosa, desapontada, fatigada, renovada, fui
voltei
fui,
voltei...
cada porta com seus moradores tantas vezes trocados no decorrer desses anos,
olhos e ouvidos que espreitam, suspeitam, arriscam, constróem, destróem,
tantas saudades, mágoas, (des)amores, estrada escorregadia, cúmplice, aliada,
que ouviu tantos sussurros, lamúrias surdas, sempre surdas,
tantos sonhos perdidos,
outros tantos recuperados, realizados, esperanças perdidas, renovadas,
da primeira vez que te percorri era tão fresca
tão vazia de experiências...
fui me preenchendo em tua presença.
Corredor de minha vida, estrada de dores e maravilhas...
Sou feliz!
claro que também isso você já sabe...


REGINA CELI SANT'ANA