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por
Júlia Tavares

 

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Contra todos os esteriótipos



Giulio Lopes em Contra Todos










FILME DE PROFESSOR DA ECA MOSTRA A REALIDADE CRUA DA PERIFERIA DE SÃO PAULO

Depois dos primeiros quinze minutos de Contra Todos, as chances de continuar bem preso à poltrona do cinema, seja ela confortável ou não, são grandes. A promessa é do próprio diretor e professor da Escola de Comunicações e Artes da USP, Roberto Moreira.

Com estréia em circuito nacional no próximo dia 19 de novembro, o filme é o primeiro longa metragem de Moreira e também fruto de sua tese de doutorado. Contra Todos foi destaque na recente Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e também premiado como melhor longa brasileiro de ficção no Festival do Rio 2004. Tida como um "retrato cru da periferia de São Paulo", a narrativa enfoca a saga de uma família de classe média baixa nada estruturada.

O pai Teodoro, aparentemente homem religioso, ganha a vida como matador de aluguel, bate na filha adolescente Soninha e tenta trair sua segunda esposa, Cláudia, com uma companheira de culto. Insatisfeita com o casamento, Cláudia vive um caso com Júlio, jovem filho do açougueiro da vizinhança que é misteriosamente assassinado, provocando novas reviravoltas à ágil trama.

O tom realista e quase documental de Contra Todos é a forma encontrada por Moreira para neutralizar os extremos emocionais dos personagens, sem que parecesse um "melodrama mexicano", nas palavras do diretor. Outros pontos que contribuíram para o naturalismo da história são o uso da camâra digital nas filmagens, a ausência de gravações em estúdio e a construção de personagens e roteiro baseada na improvisação.

"Para garantir que o espectador acreditasse no que é contado, queria que os personagens grudassem na história, que eles falassem como a gente fala", explica Moreira, que atribui o caráter áspero e duro do filme à realidade da periferia e da vida de um matador, profissão desconhecida e, no entanto, não tão rara na terceira maior cidade do Brasil. crédito:Francisco Emolo

Roberto Moreira

Ainda colaborando para o tom de documentário, todas as gravações In loco são principalmente na zona leste, que, segundo o diretor, é uma região que sintetiza vários espaços diferentes da cidade. "A zona leste tem um lado árido, desolado, com a variedade de áreas de subúrbio, favela e rua de terra", afirma ele, que procurou fugir ao clichê dos bairros subdesenvolvidos, lembrando a agitação dos morros cariocas.

O elenco conta com Leona Cavalli, Ailton Graça, Giulio Lopes, Dionísio Neto e Sílvia Lourenço, também premiada como melhor atriz no Festival do Rio 2004. Craques no improviso, ao talentoso time do professor foi cobrado "reagir" e vivenciar as situações de seus personagens de forma espontânea.

A experiência criativa e radical alcançada por Moreira, e que em muito lembra o estilo de Fernando Meirelles, diretor de Cidade de Deus e produtor de Contra Todos, pode, contudo, contrariar aqueles que esperam ir ao cinema para reforçar preconceitos morais. "Assim como na situação brasileira, em Contra Todos o mal não é punido nem o bem recompensando", adverte o diretor, que acrescenta: "é um filme emocionante que ao mesmo tempo ajuda a desenvolver uma visão mais crítica".