O clima boleiro nos cinemas (por Danilo Maciel de Barros)

Um dos programas mais comuns da boemia brasileira é sentar-se à mesa de um bar ao final da tarde, sem pressa e sem hora para ir embora, e conversar sobre futebol. É desse contexto que nasce o enredo de Boleiros – Era uma vez o futebol, filme de 1998 dirigido pelo cineasta e amante da bola Ugo Giorgetti, profissional que também se aventura nas crônicas esportivas escritas aos domingos no jornal O Estado de São Paulo.

O filme parte da roda composta por ex-jogadores e ex-árbitros, amigos que tem em comum a paixão pelo futebol. Da conversa à mesa de um típico bar paulistano com a temática futebolística, recordam-se de histórias e causos do esporte, que são então retratados na tela. Aqui, o jogo fica às vezes em segundo plano e a bola quase não vai a campo – ao invés disso, é retratado o mundo da bola, com seus personagens, seus contextos e sua ligação com a sociedade, extrapolando as quatro linhas.

A primeira narrativa, Pênalti, conta a história de um juiz corrompido, que praticava o apito amigo a um time do interior que precisava vencer o Juventus da Rua Javari para escapar do rebaixamento. O problema é que o time é tão ruim que o juiz se vê obrigado a cometer as mais absurdas irregularidades em campo para tentar levar o jogo ao resultado desejado, vendido aos credores do juiz com dívidas incorridas na jogatina. Por um lado, o roteiro acerta ao começar o filme com a história mais bem-humorada do longa, conquistando o espectador logo nos primeiros minutos. Por outro lado, as expectativas do público também crescem proporcionalmente, e acabam não sendo cumpridas em sua totalidade em todas as histórias que se seguem.

O segundo episódio retrata a história de Paulinho Majestade, um ex-jogador famoso que vê seus dias de glória e fortuna se esvaírem e volta aos jornais por colocar à venda seus troféus e medalhas conquistados em épocas mais áureas. Um jornalista, fã do jogador, passa a procurá-lo para retratar sua história, explorando o orgulho, o ego e a majestade do ex-jogador, representando a história mais emocionante do filme.

O longa segue com Pivete, a história de um menino pobre, marrento e cercado por más influências, mas bom jogador de futebol, que ganha uma chance de treinar em uma escolinha em meio a pernas de pau nascidos em berços mais afortunados, retratando a desigualdade social, a violência e a falta de oportunidade para as crianças. A quarta narrativa, Azul, retrata a história de um bom jogador profissional de futebol, que acaba de marcar o gol mais bonito de sua carreira, mas faz falta feia fora das quatro linhas, fugindo da mulher e filha a quem deve o pagamento de três meses de pensões atrasadas. O jogador também sofre preconceitos, que levam à reflexão e o motivam a sair do país e buscar a sorte em gramados europeus.

A história seguinte, Pai Vavá, traz as loucuras e o fanatismo de três torcedores corinthianos, que fazem de tudo para a recuperação rápida do jogador mais importante do time, lesionado. Por fim, a última passagem conta a história de dois jogadores que tentam furar a concentração do time para se encontrarem com mulheres.

O elenco é composto tanto por craques das telas já consagrados, quanto por atores então principiantes ou menos conhecidos que não deixam o ritmo de jogo cair. Destacam-se as atuações de Flavio Migliaccio como Seu Naldinho, personagem simpático, emotivo e cativante que dita o ritmo da mesa do bar, um camisa 10 do boteco. Destaque também para a atuação de Lima Duarte, de indiscutível qualidade e carisma, além das atuações de Otávio Augusto, Rogério Cardoso e João Acaibe, que completam o timaço reunido à mesa do bar. Um senão fica para a trilha sonora, que acaba por imprimir o mesmo ritmo a diferentes histórias, escolha que pode não agradar a parte do público.

A direção de Ugo Giorgetti é competente e o formato adotado no roteiro é interessante, reunindo as diferentes histórias através das lembranças e discussões no boteco. Trata-se de um filme agradável, que ironicamente se engrandece principalmente em função de seu caráter despretensioso e construção simples, retratando com humor e sensibilidade diferentes histórias do mundo da bola. Boleiros é mais um filme nacional com potencial para agradar às arquibancadas dos cinemas.

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