Bolão: um esporte de família

Por: Debora Mangold Campos

                Foto das pistas do E. C. Pinheiros

 

O bolão é um esporte de origem germânica – no original kegeln – composto por uma pista de madeira, bolas de resina e nove pinos. Apesar de ser menos conhecido, o bolão é mais antigo e originou o boliche, e, por suas similaridades, um dos erros mais comuns de pessoas ao jogarem pela primeira vez é falar “strike” quando derrubam todos os pinos, mas na verdade o termo correto é “nove”, uma vez que não há como se fazer um “strike”- derrubar 10 pinos – no bolão.

O objetivo do jogo em si é similar com o do boliche, ganha a equipe que derrubar mais pinos, contudo, o formato da pista e das bolas e a quantidade de pinos é diferente, pois enquanto a pista do boliche é reta, as bolas são maiores e são 10 pinos, no bolão temos uma pista mais estreita no início com uma abertura no final, bolas pequenas sem os característicos três furos do boliche e apenas 9 pinos.

O jogo consiste em arremessar quarenta bolas nas quatro pistas e derrubar pinos, contudo, em duas das pistas (1 e 3) é jogado o “cheio”, em que o jogador arremessa as dez bolas e todos os pinos são e rearmados em cada uma das vezes, e nas outras duas pistas (2 e 4) é jogado o “limpa”, em que se deve derrubar todos os pinos que sobraram da bola anterior, e, após se derrubar todos os 9, eles são rearmados e o jogador arremessa novamente até chegar a 10 bolas.

No Brasil os principais estados no esporte são os das regiões Sul e Sudeste do país, nos quais houve maior imigração alemã, como São Paulo, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Paraná e Santa Catarina. No resto do mundo, o esporte é principalmente praticado por países europeus, como Alemanha (país de origem do bolão e, portanto, com as melhores pistas e jogadores), Áustria, Luxemburgo, Bélgica, Holanda, entre outros.

Em São Paulo atualmente existem 5 equipes de bolão, que praticam em seus respectivos clubes: Esporte Clube Pinheiros, Club Transatlântico, Clube Paulista de Bolão, União Cultural São Caetano do Sul e Colégio Imperatriz Leopoldina. No passado havia muitos mais equipes e clubes de bolão em São Paulo, contudo, nos últimos anos o número de jogadores vem caindo e muitos clubes fecharam por problemas financeiros; por exemplo, nos anos 1990 havia mais de 15 clubes de bolão no estado.

Os principais campeonatos internacionais são o mundial de seleções, que ocorre a cada quatro anos, e o mundial de clubes, que ocorre anualmente, ambos sempre na Europa; e no Brasil, temos os campeonatos estaduais e o nacional que ocorrem anualmente. O principal bolonista brasileiro é Rogério Arkie, da equipe do E. C. Pinheiros, que foi campeão mundial em 1995 e se tornou o primeiro e único atleta brasileiro a conseguir tal título; o atual tricampeão mundial é o alemão Holger Mayer.

Em junho de 2017 as equipes do Esporte Clube Pinheiros disputaram tanto no feminino quanto no masculino o campeonato mundial de clubes na Alemanha e ambas ficaram na terceira colocação. A entrevistada deste trabalho é a pinheirense Marion Wenger Cantieri, a melhor jogadora dessa equipe premiada e também a melhor de São Paulo.

Marion Wenger Cantieri é uma bolonista paulista de 42 anos, e pratica o esporte filiada à Federação Paulista de Bocha e Bolão desde os 12 anos. Já atuou pelas equipes A.A.B.Babenberg, Club Transatlântico e atualmente  Esporte Clube Pinheiros, na qual está há mais de 10 anos.

 

BJE: Olá Marion, obrigada por conceder essa entrevista.

Marion Wenger: Sem problemas.

BJE: Você poderia contar um pouco sobre como conheceu o bolão?

Marion Wenger: Minha família joga bolão desde antes de eu nascer,  por exemplo meus avós já jogavam campeonatos estaduais, então sempre frequentei clubes de bolão, em especial o Clube Babenberg (Associação Austro Brasileira Babenberg). Desde pequena então convivo com o bolão, treino toda semana e ainda frequento um clube toda sexta-feira para conversar com a família e amigos.

BJE: Quem foram seus professores e técnicos?

Marion Wenger: Quando comecei fui ensinada principalmente pela minha tia Freia Burger e também Wanda Cantieri, que se tornou minha sogra anos depois, ambas do Clube Babenberg. Também tive apoio dos meus pais, Gisela e Lothar, que sempre me incentivaram a continuar praticando e melhorando.

BJE: Qual a importância do bolão na sua vida, além do âmbito do esporte?

Marion Wenger: O Bolão é meu passatempo predileto. É onde cultivei as amizades mais verdadeiras, onde conheci meu marido e companheiro de jogo; é também um esporte que está em minha família há mais de três gerações.

BJE: Sabemos que no bolão existem poucos atletas canhotos, você sentiu alguma dificuldade no começo por fazer parte dessa minoria? Existem diferenças técnicas entre os arremessos dos jogadores destros e canhotos?

Marion Wenger: Dificuldade nenhuma, sou aquela canhota que não faz nada com a mão direita, então nem passou pela minha cabeça tentar com a mão direita. Aliás, em algumas pistas é até uma vantagem, dependendo da dificuldade. Hoje vejo muitos jovens canhotos jogando. Minhas professoras souberam me ensinar sem problemas na época que comecei a jogar.

BJE: Em junho de 2017 as equipes feminina e masculina do E.C.Pinheiros participaram do Mundial de Clubes em Langenfeld, na Alemanha, e ambas terminaram na terceira colocação. Você poderia compartilhar como foram as emoções e impressões desse campeonato, desde a chegada até a sonhada medalha?

Marion Wenger: Após muitos anos sem estar em pistas na Europa foi uma realização estar lá novamente. Para este campeonato houve muito treino e dedicação, tanto da minha parte como do meu time, já que não é fácil conciliar trabalho, família e esporte quando se trata de um preparo para um campeonato mundial, mas o fato da minha família toda participar torna tudo mais fácil. Foi uma realização pessoal e uma euforia incrível. Nossa intenção neste campeonato era ter uma boa performance, mas chegando lá fomos crescendo na competição e conseguimos conquistar uma posição de terceiro lugar, que foi até o momento a melhor colocação de uma equipe feminina brasileira.

BJE: Para encerrar, qual seria seria sua dica para quem deseja começar a jogar bolão?

Marion Wenger: Paciência, treino, persistência e dedicação. É um esporte que não exige um estilo de vida de atleta e nada tão regrado, mas sim muita técnica e autocontrole. Mas, principalmente, saiba que por trás desse esporte existe uma família e amigos maravilhosos.

Email para contato: deboramangold@usp.br