Sentados à espera de um manchete

Henrique Votto

“No momento, eu tinha 19 anos. Pra mim, tinha acabado a minha vida. Pensava que eu ia acabar numa cadeira de rodas.” Wellington Platini Silva, o autor da frase, sofreu um acidente de moto enquanto voltava de um banco em Osasco, há doze anos. Sua perna direita foi comprometida no impacto e teve de ser amputada. Hoje, ele é o camisa 9 da Seleção Brasileira de Vôlei Sentado e é um exemplo de superação da deficiência na vida por meio do esporte paralímpico.

O convite para praticar o vôlei sentado surgiu apenas quatro meses depois do acidente, por ninguém menos que o atual capitão da seleção nacional, Renato Leite. “[Ele estava] colocando um esporte novo no Brasil, tinha acabado de vir da Argentina e me explicou da modalidade que era o voleibol [sentado], que eu tinha altura para aquele esporte. Aceitei o convite de imediato”, explica Wellington, que começou a treinar, ainda em 2005, no projeto Próximo Passo.

Wellington em ação pela Seleção Brasileira, à direita (Crédito: NPC Brazil)

O vôlei sentado surgiu da junção do vôlei convencional com um esporte alemão praticado por pessoas com pouca mobilidade, mas sem rede, chamado sitzbal. A união das duas modalidades fez surgir o vôlei sentado em 1956. O esporte é disputado oficialmente pelos homens desde as Paraolimpíadas de Arnhem-HOL (1980), mas ganhou destaque de vez a partir dos Jogos de Atenas (2004), quando passou a receber a entrada das mulheres no quadro.

O esporte concentra as mesmas regras do vôlei indoor. A principal diferença é que os atletas não podem bater na bola sem estar em contato com o solo, apenas nos deslocamentos. O sistema de disputa também é igual: sets de 25 pontos corridos e tiebreak de 15, em melhor de 5 sets. Diferentemente do vôlei convencional, porém, é permitido o bloqueio de saque. 

A quadra de competição mede 10m X 6m, e a rede é posicionada a 1,15m do chão para os homens e a 1,05m para mulheres. Podem competir no vôlei sentado jogadores amputados, paralisados cerebrais, lesionados na coluna vertebral e pessoas com outros tipos de deficiência locomotora, de acordo com várias categorias.

Segundo o atleta, falta divulgação da mídia para que a modalidade seja reconhecida em um país onde o esporte paralímpico em si é pouco explorado. “Nem sabia que existia esporte paralímpico antes do acidente, como muitas pessoas hoje não sabem. Infelizmente o esporte paralímpico é muito mal divulgado no nosso país”, afirma. Talvez, se não fossem os convites, Wellington jamais teria conhecido o mundo do esporte para deficientes.

A propagação do esporte na televisão, seja em canais abertos ou fechados, também é fundamental para atrair novos praticantes, como ex-atletas de vôlei indoor que possam passar experiência de quadra aos jogadores deficientes e agregar, assim, à modalidade. “Na questão geral, o esporte é visto no Brasil só de duas a três modalidades né, que é o futebol, o vôlei indoor e um pouco do basquete. É difícil um atleta olímpico viver daquilo, ainda mais um paralímpico. É necessário explicar mais sobre a modalidade, investimento geral que eu digo em mídia”, considera o paratleta.

Apesar dos problemas, o vôlei sentado brasileiro frequentemente conquista boas posições nas competições internacionais. O time masculino é tricampeão pan-americano, vice-campeão mundial e, na última Paralimpíada no Rio de Janeiro (2016), terminou na 4ª colocação, enquanto as meninas ganharam a primeira medalha olímpica do país na modalidade, ao terminarem na 3ª posição. Desde que iniciou sua participação no esporte, em 2008, o Brasil não deixa a desejar no desempenho.

Wellington Platini atribui o sucesso recente do esporte paralímpico a um nome: Andrew Parsons. O ex-presidente do Comitê Paralímpico Brasileiro (CPB) e atual mandatário do Comitê Internacional é o grande expoente da evolução. “É um cara novo mas com a visão imensa, e graças a ele que alavancou o esporte paralímpico no Brasil”, afirma Wellington. E a tendência é de que cresça ainda mais e atraia um público diferente.

Hoje, Wellington vive apenas do esporte. Ele aprendeu também a conviver com sua deficiência e não sente vergonha de mostrá-la para o mundo. É essa a ideia que ele busca passar para as pessoas nas ruas: “Para você ver, não sabia nem que existia prótese, não sabia que existia esporte paralímpico, não sabia de nada. Hoje em dia eu só ando de bermuda, principalmente se estiver calor assim, para mostrar para as pessoas. Uma pessoa me vê, me para e pergunta, diz que tem um parente em casa que tem vergonha de se expôr ao mundo devido à sua deficiência. E eu procuro ajudar nessa parte, mostrando que dá para viver normal e que Deus é maravilhoso.”

 

Email para contato: henrique.votto@usp.br