Carro tem gênero masculino. Não é “a” McLaren, mas sim “o” McLaren

Por Sergio Quintanilha

Para quem pretende seguir carreira como jornalista especializado em automobilismo, convém chamar as coisas do que elas realmente são. É desabonador cometer erros técnicos e/ou erros de linguística. É verdade que a língua é dinâmica, portanto muda, mas cabe aos jornalistas manter algumas tradições e, quando rompê-las, explicar por que está abrindo mão delas. Uma regra difícil de cumprir nesse setor é o gênero dos carros.

É errado falar “a” McLaren, “a” Williams, “a” Alfa Romeo, “a” Renault. A menos que você esteja se referindo à equipe McLaren, à equipe Williams, à escuderia Alfa Romeo, à empresa Renault, o correto é usar sempre o artigo “o”, pois o gênero dos carros é masculino. Portanto, o correto é escrever ou dizer “o” McLaren de Ayrton Senna, “o” Williams de Nelson Piquet, “o” Alfa Romeo de Kimi Raikkonen e “o” Renault de Fernando Alonso. Afinal, trata-se do carro, do automóvel, do chassi, do modelo – todos substantivos masculinos.

Na área de carros de passeio, esse problema é ainda maior. Apesar de raros jornalistas descumprirem a regra do gênero masculino, muitas pessoas dizem “a” Porsche 911, “a” EcoSport, “a” Renegade ou “a” Pajero. Está errado! Se é assim, por que então não dizem “a” Fusca, “a” Gol, “a” Corcel ou “a” Opala? Simples: porque está errado. Leigos costumam usar o gênero feminino sem nenhum critério. Costumam associar, sem razão específica, carros de marcas premium com o gênero feminino, por isso dizem “a” Porsche, “a” BMW.

“Dois” Ferrari disputam posição na pista é a forma correta de escrever. Mas a “Lei Carsughi” aceita “duas” Ferrari como exceção à regra

Mesmo entre jornalistas, não existe consenso sobre qual gênero usar no caso de peruas e picapes. Mas é fácil. O carro é “o” Fiat Palio, portanto usa-se “o” Fiat Palio Weekend. Seria confuso usar “o” Fiat Palio e “a” Fiat Palio Weekend. Porém, é correto usar o artigo feminino quando o nome do carro vem precedido da palavra perua ou picape: “a” perua Fiat Palio Weekend, “a” picape Fiat Toro.

Voltemos às corridas. Muitos dizem “a” McLaren, “a” Williams, “a” Penske devido à tradição, apesar de a origem dos nomes vir de três homens: Bruce McLaren, Frank Williams e Roger Penske. O automobilismo começou na França, no final do século XIX. E na França o automóvel é chamado de “voiture” (viatura), por isso os franceses usam “la” Renault Megane, “la” Bugatti Royale, “la” Peugeot 3008. Mas é preciso tomar cuidado. Os franceses também dizem “la” Seine, para o rio Sena, mas nenhum brasileiro diz “a” rio Sena.

Depois da França, outro país que tem fortíssima tradição nas corridas é a Itália. Também nesse país, o carro é tratado no feminino porque os italianos o chamam de máquina, “la macchina”. Por isso, “la” Fiat Panda, “la” Ferrari Testarossa”. Dizer “a” Ferrari se tornou muito comum, mesmo que Ferrari seja o nome de um engenheiro italiano, Enzo Ferrari. O engenheiro Enzo Ferrari, “l’ingegnere” Enzo Ferrari. Lamborghini também é nome de um homem, Ferruccio Lamborghini. Portanto, “o” Lamborghini Diablo (dois masculinos).

O nome Alfa Romeo é ainda mais complexo. Romeo é nome de homem, mas Alfa pode ser tanto masculino como feminino. Da mesma forma que existe o “macho” alfa, pode existir a “fêmea” alfa. Além disso, no caso da marca de carros, Alfa é a sigla de “Anonima Lombarda Fabbrica Automobili”, ou seja, Fábrica Anônima de Automóveis Lombarda (da região da Lombardia), assim como Fiat é a sigla de “Fabbrica Italiana Automobili Torino” ou Fábrica Italiana de Automóveis Turim.

No caso da Alemanha, entretanto, usa-se o gênero neutro “das” para se referir ao carro ou ao automóvel. Portanto, “das auto” significa o automóvel. Os alemães não usam o masculino “der” (o) nem o feminino “die” (a) para se referir a um automóvel genérico. Ainda que o nome Mercedes tenha sido uma homenagem à menina Mercedes Adrienne Jellinek, filha de Emil Jellinek, representante dos veículos Daimler, os alemães não usam “die” Mercedes (feminino) em suas reportagens sobre os carros da marca, tampouco “das” Mercedes (neutro), mas sim “der” Mercedes (masculino) ou “der” Ferrari 488 Pista (masculino).

No caso da língua inglesa, “the” é sempre neutro, então o problema simplesmente não existe. A imprensa portuguesa, porém, usa o nome dos carros no masculino. Não custa nada lembrar que foi Portugal quem inventou nossa língua.

“O” Mercedes de Lewis Hamilton é a forma correta de escrever, embora o nome Mercedes, feminino, tenha sido homenagem a uma menina

Quando Emerson Fittipaldi foi correr na Europa e se consagrou na Fórmula 1, a partir de 1970, trouxe com ele o estilo italiano de se referir aos carros. Por isso, dizia “minha” Lotus, “minha McLaren”. O feminino para se referir aos carros de Fórmula 1 ficou ainda mais arraigado com as transmissões de Luciano do Valle, Reginaldo Leme e Galvão Bueno na Rede Globo. Porém, nem Emerson nem os jornalistas falavam ou falam “a” Copersucar e sim “o” Copersucar. Entretanto, dizer “a” Lotus, “a” McLaren, “a” Williams, “a” Benetton, “a” Tyrrell ou “a” Ferrari se tornou popular.

Mesmo assim, muitos jornalistas de revistas especializadas resistiram e continuaram escrevendo o nome dos carros no masculino, ou seja, “o” Porsche, “o” BMW, “o” Lotus, “o” McLaren, “o”, Williams, “o” Alfa Romeo, “o” Renault e até mesmo “o” Ferrari. O caso da Ferrari, aliás, é curioso. Muitos jornalistas usam o gênero masculino para todos os carros de todas as marcas, mas feminino para a Ferrari. A explicação está numa regra sentimental, mas sem critério técnico, criada pelo jornalista Claudio Carsughi quando trabalhava na revista Quatro Rodas.

Como Carsughi é italiano de nascença, ele se recusava a escrever “o” Ferrari em seus textos. Por isso, decretou na redação que “todos os carros são masculinos, com exceção da Ferrari”. Essa regra curiosa é seguida até hoje por muitos jornalistas e se tornou conhecida no meio automotivo como “Lei Carsughi”. Bem, diante do exposto, cabe a nós, jornalistas especializados em competição, usarmos sempre “o” Porsche, “o” Mercedes e “o” McLaren em nossas reportagens. Quanto à Ferrari, resta saber se você concorda ou não com a Lei Carsughi, pois ela vale para “a” Ferrari, que é italiana, mas não para as também italianas Fiat, Alfa Romeo, Maserati, Lamborghini e Lancia.

Sergio Quintanilha é doutorando em Ciências da Comunicação na ECA-USP e escreve sobre automobilismo desde 1989 – twitter: @QuintaSergio