Política e Futebol

Por Edwaldo Costa

Não é de hoje que a política tenta encampar o futebol, como forma de se estabelecer.

Melhor dizendo, não é de hoje que políticos tentam encampar o futebol para se tornar mais popular.

O uso do “esporte das multidões” com finalidade política sempre ocorreu. E não apenas do futebol. Basta lembrar que o horripilante Adolf Hitler tentou usar os Jogos Olímpicos de agosto de 1936 para comprovar sua tese de supremacia ariana. Jesse Owens (James Cleveland Owens) demoliu essa tese, conquistando quatro medalhas de ouro (nos 100 e 200 metros rasos, no salto em distância e no revezamento 4x100m).

Em terras brasileiras, a conquista do terceiro título mundial, em 1970, também foi capitalizada pelo então presidente militar, Emílio Garrastazu Médici. A mobilização em torno da seleção foi incentivada ao extremo e até hoje boa parte da população sabe cantar a obra de Miguel Gustavo: “90 milhões em ação / pra frente, Brasil / do meu coração / (…) / Todos juntos, vamos / pra frente, Brasil, Brasil / salve a seleção”.

Não é, portanto, de se estranhar que políticos se apresentem à nação, nos finais de semana, envergando sempre a camiseta de um time do país.

Também não é de se estranhar que emissoras de rádio e TV tendem capitalizar a paixão do brasileiro pelo futebol. Tem sido assim desde que Assis Chateaubriand inaugurou a TV Tupi e que Walter Abrahão criou a narração de jogos de futebol com imagem.

A diferença é que, em 2020, a associação do futebol com a política acontece em um momento de crispação social, com a radicalização dos discursos e a virulência campeando solta na internet.

A movimentação das torcidas dos quatro grandes do Estado de São Paulo (Corinthians, Palmeiras, Santos e São Paulo) em manifestação pela Democracia, promovendo o surgimento de um discurso antagônico àquele dos grupos de extrema direita, que têm ido às ruas para defender o fechamento do Congresso e do STF, também não escapa às tentativas de amealhar simpatias e encampar as paixões.

Um exemplo? O maior conglomerado de comunicação do país, as Organizações Globo, optou por definir a manifestação pró Democracia como manifestação antifascista, aproveitando a atitude das torcidas organizadas para definir “colar” em seus adversários a definição de grupos com discurso antidemocrático e, portanto, fascista e radical.

Verdadeiros ou falsos, esses “selos” só fazem desmerecer o futebol como manifestação social. Ao invés de educar, através do esporte, o que se vê é apenas um jogo que não vale o campeonato da evolução social.

Edwaldo Costa possui pós-doutorado pela ECA-USP e atualmente é jornalista do Centro de Comunicação Social da Marinha do Brasil