O voo do urubu

Por Edwaldo Costa

Depois de um ano avassalador, o Urubu sonha com voos tão altos quanto aquele que empreendeu em 2019. Será que tem asas para repetir o feito em 2020?

As condições foram excepcionais para o Flamengo em 2019. Vendas milionárias, contratações igualmente valiosas e a chegada de um técnico carismático e cheio de ideias para renovar o futebol brasileiro, especialmente o carioca.

Jorge Jesus talvez seja a senha para entender o sucesso rubro-negro no ano passado.

Para acompanhar a mística portuguesa, a diretoria do clube teve de manter-se focada em gerenciar as coisas com responsabilidade.

Em 2020, o que muda é a postura do clube, especialmente quanto aos rendimentos obtidos com os jogos televisionados. Em outras palavras: o Urubu “peitou” a maior rede de TV do país, exigindo pagamento proporcional ao público “oferecido” à emissora.

Sem assinar contrato para transmissão do Campeonato Carioca, o clube simplesmente inaugurou a era das transmissões diretas dos jogos pelos próprios clubes, através do Youtube. Resultado: quatro milhões de espectadores para o jogo contra o Boavista.

O time parece estar no mesmo patamar de 2019. Basta ver o comentário de um adversário, que disse ser simplesmente impossível acompanhar a equipe da Gávea.

Será que isso representa, realmente, um novo patamar para o clube?

Se os patrocínios de camisa se repetirem na internet, certamente o caixa do clube receberá um aporte significativo, o que pode representar um alívio em um ano tão conturbado e com paralisação de todos os torneios disputado.

Até agora, o Urubu soube administrar as coisas em casa e conseguiu manter as bases do elenco vencedor. Ainda que o coronavírus tenha criado o caos também no futebol, o Flamengo se mostrou precavido, quando anunciou um orçamento menor e com previsão inclusive de não conseguir repetir uma grande venda. Isso demonstra experiência e o necessário cuidado na condução do clube.

Aproveitar o alcance da internet e promover o acesso fácil dos torcedores, é, sem dúvida, outra jogada de mestre. Isso e os sócios-torcedores são capazes de alimentar as finanças e manter a estabilidade do clube, juntamente com patrocinadores.

Agora, é saber tocar o projeto na rede. A primeira experiência mostrou-se bem sucedida e levou até mesmo ao cancelamento do contrato de exclusividade para transmissão dos jogos do Carioca. A quebra desse monopólio, a partir da reivindicação de valores proporcionais às rendas auferidas por cada time, pode ser a porta para um novo estágio do futebol brasileiro, em que só os fortes e bem organizados sobreviverão.

O Flamengo se mostra preparado para essa nova era. Pena que esse espírito não tenha chegado à casa de outros grandes do futebol brasileiro. Qual será o próximo clube que seguirá o voo do Urubu?

Edwaldo Costa possui pós-doutorado pela ECA-USP e atualmente é jornalista do Centro de Comunicação Social da Marinha do Brasil