As lutas antifascistas das torcidas de futebol: reflexões e indagações (Parte 1)

Por Felipe Tavares Paes Lopes 

Nas últimas semanas, assistimos a torcedoras e torcedores de diferentes clubes brasileiros tomarem de assalto as ruas das principais cidades do país e empunharem as bandeiras da democracia e do antifascismo, chamando a atenção da imprensa nacional e, até mesmo, internacional. Tais episódios ensejam uma série de reflexões e indagações, tais como: quem são essas pessoas? Fundamentalmente, há dois tipos de agrupamentos envolvidos nesses atos: os novos movimentos de torcedoras e torcedores – compostos por coletivos progressistas e por torcidas que se autointitulam antifascistas – e as tradicionais torcidas organizadas de futebol. Debruço-me, nesta coluna de estreia, sobre essas últimas. Ao fazer isso, busco oferecer algumas respostas, ainda que muito provisórias, para a seguinte questão: o que a participação de torcedoras(es) organizadas(os) nos referidos episódios nos diz sobre as próprias torcidas organizadas?

Em primeiro lugar, nos diz que, diferentemente do que a mídia costuma sugerir, essas torcidas não são compostas por pessoas irracionais, que apenas se envolvem em brigas e arruaças e não possuem nada de significativo a dizer. Ao contrário, são compostas por pessoas que possuem capacidade de refletir criticamente sobre a sociedade em que estão inseridas e que estão dispostas a lutar pela transformação de formas permanentes de dominação, que resultam em desigualdades e injustiças sociais.

Em segundo lugar, nos diz que tampouco as torcidas organizadas se degeneraram, distanciando-se de seus propósitos iniciais, outro discurso recorrente na mídia. Afinal, elas sugiram, na segunda metade dos anos 1960, justamente para fazer frente a uma série de práticas tidas como injustas e autoritárias na sociedade, em geral, e no mundo do futebol, em particular. Não à toa, como nos recorda Bernardo Buarque de Hollanda, no livro “O clube como vontade e representação”, alguns dos primeiros gritos de protesto entoados pelas torcidas organizadas cariocas contra os dirigentes esportivos foram inspirados e adaptados das passeatas estudantis.

Em terceiro lugar, nos diz que, a despeito dessa dimensão combativa das torcidas organizadas, elas constituem espaços marcados por conflitos, por disputas entre forças antagônicas, não podendo ser vistas, portanto, como agrupamentos uniformes, monolíticos. Notemos que, após a primeira grande manifestação a favor da democracia, várias torcidas emitiram notas oficiais explicando que a participação de suas(eus) integrantes foi feita de forma autônoma. Isso  se deu não apenas pelo medo de suas lideranças de que as associações pudessem ser responsabilizadas legalmente e punidas caso ocorressem ações vandálicas e violentas nesses eventos, mas, também, porque temiam “rachas” internos. Afinal, havia forte resistência por parte de alguns setores mais conservadores das torcidas, que não concordavam com a ligação do nome de sua associação com os protestos.

Em quarto lugar, nos diz que, diante da atual “crise de representação”, em que antigas instituições (como os sindicatos e partidos políticos) parecem não conseguir mais garantir algum tipo de pertencimento como antes, as torcidas organizadas acabam, em alguma medida, preenchendo o vácuo identitário deixado por essas instituições, como sugere José Garriga Zucal, no livro “Nosotros nos peleamos”. Com isso, elas se convertem em um importante vetor de mobilização política. Não à toa, foram elas que puxaram e capitanearam as manifestações antifascistas. Mas se a participação de torcedoras e torcedores nessas manifestações nos diz algumas coisas sobre as próprias torcidas de futebol, ela também nos diz algumas coisas sobre as interpretações acadêmicas desse esporte, tema da próxima coluna.

Felipe Tavares Paes Lopes é docente do Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Cultura da Universidade de Sorocaba – UNISO