Os mitos e lendas dos Jogos Abertos – A Capital

Por Gustavo Longo

Por razões óbvias, as capitais estaduais tendem a dominar as competições esportivas que disputam. Afinal, estas cidades conseguem combinar poder político, financeiro e cultural, permitindo melhor estrutura e condições aos atletas e clubes. São poucas as agremiações e competidores que se destacam fora destes centros. Mas na maior competição poliesportiva do país, são os municípios do interior que dão as cartas.

Desde sua criação, os Jogos Abertos do Interior são destinados exclusivamente às cidades interioranas – a princípio de todo o Brasil, mas desde a década de 60 restrito ao estado de São Paulo. A relação com a capital paulista, contudo, existe, é antiga e nutre uma das maiores lendas do evento.

Esta é a segunda parte do especial desta coluna sobre os mitos e lendas dos Jogos Abertos, a maior competição poliesportiva do país. Na semana passada, abordamos justamente a participação das cidades “estrangeiras”, isto é, de delegações de outros estados na competição organizada pelo governo estadual de São Paulo.

Sim, é importante ressaltar que os Jogos Abertos do Interior, desde sua primeira edição, nasceram para ser uma competição exclusiva das cidades interioranas. Em 1927, Baby Barioni ficou encantado com o interesse que a seleção paulista de basquete despertou em Campinas durante a inauguração de uma quadra. Ali ele vislumbrou a possibilidade de criar um torneio que estimulasse a prática esportiva em regiões distantes das capitais e metrópoles.

Contudo, isso não significava que a capital não exercia influência considerável na trajetória dos Jogos Abertos do Interior – como muitos costumam pensar. Entidades esportivas e culturais de São Paulo foram fundamentais na consolidação das primeiras edições, principalmente com a atuação nos bastidores.

Antes mesmo de criar o Campeonato Aberto do Interior em Monte Alto, em 1936, Baby Barioni tentou, a todo custo, mobilizar apoio em clubes e organizações esportivas na metrópole paulista para tirar o projeto do papel. Ele próprio confessou em crônica no Diário da Noite em 11 de março de 1946. “Pena que tudo quanto sugeríamos nas entidades metropolitanas em benefício dos esportes interioranos era considerado oficialmente ‘mais uma loucura do Baby’”.

Sem sucesso na capital, encontrou apoio em Monte Alto, onde pernoitou após perder o trem e apitou uma partida de basquete. Contudo, mesmo com o suporte da Associação Atlética Montealtense e da prefeitura local, Baby Barioni mobilizou o movimento cultural paulistano “A Bandeira”, de Cassiano Ricardo e Menotti del Picchia, para auxiliar na organização do evento e, principalmente, atrair a atenção de cronistas de São Paulo.

As federações esportivas estaduais sediadas na capital paulista, como a de Bola ao Cesto (como o basquete era conhecido na época) e a de Natação, também tiveram papel preponderante nas primeiras edições, garantindo o caráter oficial para a competição aberta que reunia equipes interioranas. Além, é claro, do governo estadual de São Paulo, que passou a responder pelo evento a partir de 1939, permitindo que o centro diretivo da competição interiorana ficasse, paradoxalmente, localizado na capital.

Entretanto, como o objetivo inicial era promover um intercâmbio entre as cidades e estimular a prática de esportes em diferentes regiões, não fazia sentido realmente permitir que clubes e atletas inseridos na capital pudessem competir – lá havia um maior desenvolvimento esportivo do que em outras partes do estado. Mais do que o desempenho atlético, Baby Barioni queria ver mais e mais delegações competindo e iniciando modalidades esportivas em suas cidades a partir dos Jogos Abertos.

A questão é que o intenso desenvolvimento econômico em São Paulo, com a consolidação da região metropolitana, deturpou a relação capital x interior para diversos municípios. Hoje, é estranho falar que São Caetano, São Bernardo do Campo, Santo André e Guarulhos, entre outros, são cidades do interior quando, na verdade, estão coladas na capital – aproveitando, inclusive, de sua estrutura esportiva.

Isso se reflete na performance esportiva da cidade. Basta olhar os últimos campeões dos Jogos Abertos do Interior. Nas últimas 30 edições, as cidades localizadas fora da região metropolitana ganharam apenas cinco (Santos em 2003 e São José dos Campos em 2014, 2017, 2018 e 2019).

Neste ponto entra a segunda questão a ser levantada. Se nas décadas de 1930 e 1940 era importante reunir todas as cidades distantes da capital para trocar experiências e competir em pé de igualdade, hoje essa lógica também perdeu o sentido. Mesmo no interior há diferentes níveis de desenvolvimento entre as regiões. Santos, São José dos Campos, Piracicaba e Campinas têm mais estrutura e condições do que municípios com menos de 100 mil habitantes.

Em suma: Baby Barioni criou uma competição apenas para o interior porque queria promover o esporte da mesma forma que na capital, mas o desenvolvimento econômico posterior acabou criando essa desigualdade entre as cidades interioranas. Esta é a base do dilema que a organização dos Jogos Abertos do Interior está encarando nos últimos anos para recuperar o protagonismo perdido das “olimpíadas caipiras”.

Antes de finalizar, algumas curiosidades sobre a relação capital x interior:

#1 – Baby Barioni não possuía nenhum laço afetivo com o interior em sua juventude. Filho de imigrantes italianos, ele nasceu e cresceu na cidade de São Paulo, mais precisamente na região da Sé. Curiosamente, foi seu irmão mais velho Walther, psicólogo e educador, que teve laços mais estreitos com o interior paulista ao morar e trabalhar em Jaboticabal e Santa Rita do Passa Quatro.

#2 – São Paulo nunca pôde competir, mas ex-capitais estavam liberadas nos Jogos Abertos. A cidade de Goiás, capital do estado homônimo até a década de 1930, participou de algumas edições entre as décadas de 1940 e 1950.

#3 – Da mesma forma, uma futura capital também competiu nos Jogos Abertos. Na década de 1950, Campo Grande era uma próspera cidade interiorana ao sul do estado de Mato Grosso. Apenas na década de 1970, com a criação do Mato Grosso do Sul, que se tornaria na capital do novo estado.

Gustavo Longo é jornalista especializado em cobertura esportiva e Mestrando no Programa de Pós-graduação em Ciências da Comunicação na ECA/USP