Os mitos e lendas dos Jogos Abertos – Os Olímpicos

Por Gustavo Longo

Os Jogos Abertos do Interior possuem um paradoxo em sua essência: ao mesmo tempo em que nasceu como uma competição aberta, ou seja, “livre” para todos os atletas inseridos em cidades interioranas, se consolidou como o maior evento poliesportivo da América Latina e etapa importante no calendário esportivo brasileiro para a grande maioria dos atletas de elite.

Isso cria uma situação única: medalhistas olímpicos e mundiais dividem pistas, quadras, tatames e piscinas com competidores totalmente amadores – em alguns casos com pouco tempo de prática na modalidade. Se a presença dos “olímpicos”, isto é, dos atletas que representam o Brasil internacionalmente, foi a mola propulsora do evento em décadas passada, hoje apenas evidencia o desnível técnico em muitas disputas.

Esta é a terceira parte do especial desta coluna sobre os mitos e lendas dos Jogos Abertos, a maior competição poliesportiva do país. Nas duas semanas anteriores, abordei a participação das cidades de outros estados na competição organizada pelo governo paulista e a relação entre Interior x Capital que marca a trajetória histórica.

Ao longo do tempo, a narrativa passada pelos meios de comunicação na cobertura dos Jogos Abertos do Interior mostrava uma iniciativa que reunia a nata do esporte paulista, auxiliando na formação de futuras estrelas do país. Bom, é preciso afirmar que trata-se de uma meia verdade de acordo com a formação do evento.

De fato, Baby Barioni queria promover uma maior formação esportiva ao integrar cidades do interior em uma mesma competição. Contudo, seu principal objetivo não era apenas o alto rendimento, mas que todas as cidades pudessem estimular a prática de diferentes modalidades a seus cidadãos. Ele não queria uma competição restrita à elite, mas sim uma grande festa em prol do esporte e da vida saudável.

Isso explica, portanto, porque os Jogos Abertos possuem este nome. Uma das premissas de seu fundador era não ter critérios de classificação. As cidades (de todo o Brasil) que quisessem participar precisava apenas se inscrever, informar o nome de seus atletas e se deslocar até a cidade-sede.

Entretanto, nos anos 1930, 1940 e até 1950 (com exceção óbvia do futebol), mesmo os atletas de renome do país não tinham tantas competições disponíveis para participarem. Assim, quando surge um evento com a mesma dinâmica dos Jogos Olímpicos, muitas cidades resolveram inscrever seus principais competidores para colocá-los em atividade e, assim, aperfeiçoarem seus treinamentos.

O jovem Wlamir Marques, então com 18 anos, já era um dos destaques de Piracicaba nos Jogos Abertos do Interior (A Gazeta Esportiva, 8/10/1955)

Foi o que ocorreu logo na segunda edição, em 1937, na cidade mineira de Uberlândia. Com a inclusão da natação masculina e feminina, Amparo encontrou a oportunidade perfeita para estimular ainda mais o esporte na cidade. Afinal, uma das professoras de educação física da cidade era Maria Lenk, já reconhecida como uma das principais nadadoras do continente e presente nos Jogos Olímpicos de 1932 e 1936.

Ela foi a primeira atleta a disputar os Jogos Olímpicos e os Jogos Abertos do Interior. Como afirma nota na Folha da Manhã de 12 de maio de 1937: “Maria Lenk, a consagrada nadadora do Tietê, está preparando os nadadores de Amparo que competirão em Uberlândia”. A atleta, evidentemente, foi a grande destaque da disputa aquática em Uberlândia. Mais do que isso: permitiu que muitas jovens atletas amparenses tivessem suas primeiras experiências em competições regionais.

Não fosse o cancelamento dos Jogos Olímpicos de 1940 e 1944 por conta da Segunda Guerra Mundial, ela provavelmente seria a primeira medalhista olímpica a disputar os Jogos Abertos. Essa honra, contudo, cabe a Alberto Marson, bronze com a seleção brasileira de basquete nas Olimpíadas de 1948. Ao longo da década de 1940, ele competiu por São Carlos, mas a partir de 1948, se mudou para São José dos Campos e seguiu participando no evento regional até o início dos anos 1950.

A presença de grandes nomes catapultou os Jogos Abertos a partir do final da década de 1940. Nas duas décadas seguintes, o evento veria uma constelação do esporte nacional. A lista contempla, entre outros:

  • Tetsuo Okamoto, primeiro medalhista olímpico da natação brasileira (bronze em 1952), que representou Marília na competição entre 1948 e 1952.
  • Anésio Argenton, que chegou a ser quinto colocado no ciclismo nos Jogos Olímpicos de 1960 e vencedor de várias provas para Araraquara nos Jogos Abertos.
  • Wlamir Marques, bicampeão mundial e duas medalhas olímpicas no basquete, que integrava a equipe de basquete de Piracicaba no fim dos anos 1950 antes de se transferir para o Corinthians
  • Nelson Prudêncio, duas medalhas olímpicas no salto triplo e vencedor da prova nos Jogos Abertos entre 1965 e 1970 (com exceção de 1968, ano em que conquistou a prata olímpica nos Jogos da Cidade do México).
Nelson Prudêncio, campeão dos Jogos Abertos de 1970, em Bauru – Crédito: Revista Esporte Clube Noroeste – 102 anos

Nas últimas décadas, a presença de atletas olímpicos consagrados nos Jogos Abertos continuou a crescer: Maureen Maggi, Claudinei Quirino, Jadel Gregório e Fabiana Murer (atletismo), Hugo Hoyama e Hugo Calderano (tênis de mesa), William, Montanaro, Amauri, Serginho, Vera Mossa, André Heller e Ricardinho (vôlei), Rogério Sampaio, Edinanci Silva, Luiz Onmura, Carlos Honorato e Tiago Camilo (judô) Paula e Hortência (basquete), Gustavo Borges e Nicholas Santos (natação), Natália Falavigna e Diogo Silva (taekwondo), Diego Hypólito, Arthur Zanetti e Daniele Hypólito (ginástica), entre tantos outros.

A participação destas estrelas atrai mídia, convida torcedores e reforça a imagem de “Olimpíada Caipira”, mas também aprofunda o dilema enfrentado pelos Jogos Abertos. No intuito de conquistar o título da competição, cidades com maior poderio financeiro contratam estes atletas em vez de promover a formação de jovens campeões. Assim, muitos não estabelecem qualquer vínculo com o município e o propósito de estimular a prática esportiva fica pelo caminho.

São dois lados da mesma moeda, afinal. Os Jogos Abertos não foram criados para a elite do esporte, mas sem esses competidores, o evento não cresceria ao longo de oito décadas. A graça está justamente no paradoxo citado no início: qual outra competição do mundo coloca campeões olímpicos ao lado de anônimos?

Gustavo Longo é jornalista especializado em cobertura esportiva e Mestrando no Programa de Pós-graduação em Ciências da Comunicação na ECA/USP