Um ano especial na Pequena Londres: dos amantes à sutileza do craque Marinho

Por Luciano Maluly

Londrina completaria 60 anos em 1994 e o clima festivo não só alegrou a cidade, mas também trouxe a sorte que eu buscava no jornalismo.

Na Universidade Estadual de Londrina, a chegada das aulas práticas e a “cobrança” (por boas notas e estágios) aos que estavam já no final do curso agitavam a nossa turma de Jornalismo. Uma das aulas mais esperadas era com a competente professora Carly Batista de Aguiar sobre jornalismo impresso e ela não nos decepcionou, especialmente quando propôs o trabalho final para realização de uma reportagem investigativa.

A matéria poderia ser realizada individualmente ou em grupo. Minha parceira foi a amiga Lenize Villaça, hoje renomada professora de radiojornalismo na Universidade Presbiteriana Mackenzie. Escolhemos uma pauta difícil e desafiadora: encontrar pessoas que tinham nascido no mesmo dia da cidade de Londrina, 10 de dezembro de 1934.

O local da pesquisa e das entrevistas já havia sido escolhido e, assim, fomos alegres visitar um baile da terceira idade em um daqueles sábados deliciosos da pequena Londres. Chegando ao local, começamos a conversar com as pessoas e encontramos um casal que nasceu no mesmo dia da cidade. Para nossa surpresa, eles não eram casados, mas sim amantes. Por isso, não poderíamos revelar os nomes na matéria. A entrevista foi maravilhosa, com Carly Batista de Aguiar nos auxiliando, posteriormente, na edição.

As oportunidades de estágio começaram a surgir e Lenize Villaça foi fundamental naquele momento, pois já trabalhava e ainda era formada em Relações Públicas. Por meio dela, consegui realizar um breve estágio na equipe de esportes da Rádio Alvorada.

Depois de alguns dias trabalhando somente na redação, surgiu o primeiro desafio de reportagem: a cobertura de um jogo de futebol amador que contaria com a presença do craque Marinho, campeão mundial interclubes pelo Flamengo, em 1981, no Japão.

Cheguei ao local bem antes da equipe e fiquei conversando com os torcedores. Quando o técnico da emissora chegou para montar os equipamentos, eu já estava a postos para receber o material de reportagem. De microfone na mão, fui direto entrevistar Marinho e perguntei: “Bom dia! Raul; Leandro, Marinho, Mozer e Júnior; Andrade, Adílio e Zico; Tita, Nunes e Lico. Qual o significado do Flamengo em sua carreira?”. Como um cavalheiro, Marinho começou a resposta dizendo: “Bom dia! Gostei muito de você, pois veio preparado…”. Aquele foi um dos principais momentos da minha vida, porém, o melhor ainda estava por acontecer.

Durante a partida, Marinho desfilava soberano, com os demais jogadores, inclusive os adversários, apenas assistindo e reverenciando a sutileza de um bailarino. Ninguém o marcava em respeito aos demais presentes (torcedores e profissionais de comunicação) que apreciavam, em silêncio, uma obra-prima do esporte brasileiro.

Não recordo os nomes das equipes e nem o local do jogo, mas aquela passagem foi o primeiro passo para a realização de um outro sonho: ser repórter esportivo de um espetáculo de futebol-arte.

Luciano Victor Barros Maluly é professor de Jornalismo na Universidade de São Paulo. E-mail: lumaluly@usp.br