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Os mitos e lendas dos Jogos Abertos – As divisões

Por Gustavo Longo

Em 2008, para tentar resolver o evidente desnível técnico que existia entre as delegações, o Governo Paulista adotou uma medida extrema e inédita: a criação de divisões nos Jogos Regionais e Jogos Abertos, as principais competições esportivas do estado. O objetivo? Tentar igualar a competitividade entre as cidades participantes.

Foi um reflexo direto do gigantismo que o evento tomou ao longo de oito décadas e da constante profissionalização e espetacularização do esporte como um todo. Se na década de 1930 fazia sentido estimular a prática de diferentes modalidades em jovens cidades do interior, na virada do século essa realidade já era bem diferente.

Esta é a quinta parte do especial desta coluna sobre os mitos e lendas dos Jogos Abertos, a maior competição poliesportiva do país. Nas semanas anteriores abordei a participação das cidades de outros estados na competição organizada pelo governo paulista, a relação entre Interior x Capital que marca a trajetória, a presença de atletas renomados do esporte nacional e os jovens atletas que despontam no torneio.

A instituição de duas divisões nos Jogos Abertos tornou-se polêmica por um motivo bem simples: vai ma contramão da proposta que Baby Barioni tinha quando oficializou a competição em 1936 na cidade de Monte Alto.

Em sua visão, os Jogos Abertos deveriam ser uma grande festa, aberta a todas as cidades do interior do país. Mais do que provar qual município tinha a melhor delegação, o objetivo era trocar experiências e permitir que esses locais desenvolvessem a prática esportiva em seus cidadãos.

Com estrutura exemplar, atletas de ponta e espaço para jovens, São José dos Campos é a atual tricampeã na primeira divisão dos Jogos Abertos/Crédito: Site dos Jogos Abertos de Marília

Impor qualquer restrição à participação e disputa, portanto, estava totalmente fora de cogitação nas primeiras edições. Em 1936, por exemplo, Barioni escreveu de próprio punho ofícios para mais de uma centena de cidades de todo o país convidando para o torneio inaugural em Monte Alto! Um dos motivos que o afastou da organização do evento foi justamente seu posicionamento em manter a competição aberta a todos os interessados – o Departamento de Educação Física e Esportes (DEFE), que havia assumido a organização a partir de 1939, pensava em criar regras classificatórias mais rígidas.

Em seus primeiros anos, contudo, isso não foi um problema. Como a maioria das modalidades batizadas de “olímpicas” no país era amadora, as cidades paulistas conseguiam competir em certo pé de igualdade. Havia, claro, diferenças entre municípios maiores, como Santos e Campinas, em relação aos menores, mas não era algo que incomodava ou atrapalhava o desenvolvimento da competição.

Contudo, a constante profissionalização da estrutura esportiva, principalmente a partir da década de 1970 com a entrada de patrocinadores em clubes pelo país, fez com que essa discrepância ficasse cada vez maior. Equipes e atletas que dispunham de ótimas condições de treinamentos (uma vez que representavam o país em competições internacionais, como os Jogos Olímpicos) começaram a sobrar nos Jogos Abertos, uma vez que não tinham rivais à altura.

Pegue o exemplo do basquete feminino na década de 1980. Paula e Hortência, as duas principais estrelas da seleção brasileira que seria campeã mundial em 1994 e prata nos Jogos Olímpicos de 1996, jogavam por Piracicaba e Sorocaba, respectivamente. As duas cidades praticamente competiam entre elas para ver quem conquistava o título dos Jogos Abertos.

O exemplo também vale para outros esportes, como o vôlei (Pirelli, que reunia a base da seleção medalha de prata em 1984, representou Santo André em 1983), futsal, futebol feminino, tênis de mesa, judô, natação, atletismo, entre outros. De repente um medalhista olímpico como Robson Caetano dividia a pista de atletismo com atletas totalmente amadores. Quais chances eles tinham de conquistar uma medalha?

Dessa forma, a competição deixou de ser competitiva e atraente aos olhos do torcedor (que também ganhou inúmeras opções esportivas com o advento da televisão por assinatura e o PPV). Foi para resolver essa questão que o Governo Paulista resolveu instituir a primeira e a segunda divisão nos Jogos Abertos do Interior a partir de 2008.

A teoria preconizava a ideia do mérito, ou seja, o desempenho atlético que permitia uma cidade subir à primeira divisão de acordo com os resultados alcançados nos Jogos Regionais, que servem de evento classificatório. A prática, porém, apenas acentuou a falta de competitividade nos Jogos Abertos – um elemento essencial em qualquer competição esportiva.

Cidade-sede em 2019, Marília competiu na segunda divisão/Crédito: Site dos Jogos Abertos de Marília

Modalidades inteiras passaram a ter apenas quatro ou cinco participantes em cada divisão, ainda mais que algumas também instituíram categorias “júnior” e “adulto” em sua disputa. Em determinados anos, houve a criação da Divisão Especial, para modalidades que contavam com algumas equipes de ponta no país (como o basquete e o vôlei)!

A instituição de divisões não só aumentou o desinteresse na disputa, como também apagou a proposta original de Baby Barioni em reunir todo o interior em uma grande festa.

Felizmente, o Governo Paulista, por meio da Secretaria Estadual de Esporte, está ciente dos problemas. Há um grupo de trabalho convocado entre os servidores justamente para debater e identificar novos caminhos para os Jogos Abertos. Antes da pandemia, a pasta já havia confirmado que as divisões seriam abolidas a partir da edição de 2020, que deveria acontecer em Sorocaba.

Ainda hoje os Jogos Abertos do Interior são considerados um evento importante no calendário esportivo brasileiro – apesar de ter ganhado a concorrência de diversos eventos nas últimas décadas. O trabalho, portanto, consiste em recuperar seu prestígio perdido – o que não é fácil, preciso reconhecer. A saída passa pela competitividade inerente ao esporte, permitindo que cidades e atletas voltem a ter a certeza de que a competição vai acrescentar muito em suas trajetórias.

Gustavo Longo é jornalista especializado em cobertura esportiva e Mestrando no Programa de Pós-graduação em Ciências da Comunicação na ECA/USP