Surge um novo herói na F1

Por Edwaldo Costa

A Fórmula 1 vive um ano inusitado: temporada encurtada, em meio à pandemia do novo coronavírus, mas com a expectativa de consagrar um novo herói da categoria.

Perto dos 130 anos (começou com a disputa de GPs na Europa, no início do século XX, embora só tenha sido oficializada em 1950), a mais famosa categoria do automobilismo coleciona campeões, mitos e ídolos imortais, verdadeiros gênios da velocidade.

Nos anos 50, surgiu o mito Juan Manuel Fangio. Na década de 60, brilharam nomes como Jack Brabham, Jim Clark e Graham Hill. Nos anos 70, era a vez de Emerson Fittipaldi (primeiro brasileiro campeão mundial), Jackie Stewart e Niki Lauda. As décadas de 1980-1990 viram alguns dos maiores pilotos da História em disputas emocionantes, agregando nomes como Alain Prost, Nelson Piquet, Nigel Mansell e, claro, Ayrton Senna!

Com eles, chegou ao fim o que podemos chamar de Era Romântica da F-1.

Nos anos 2000, era a vez das inovações tecnológicas e, principalmente, táticas na categoria. Foi a vez de pilotos como Michael Schumacher, Mika Hakkinen e Fernando Alonso. As equipes ganharam protagonismo e vimos brasileiros como Rubens Barrichello serem sujeitados ao jogo do time e cederem vitórias certas para pilotos melhor colocados na tábua de pontuação e dentro da equipe, principalmente Schumacher.

A Era do Jogo de Equipe rendeu 7 títulos mundiais ao alemão.

Mas esse recorde pode cair agora, na Era da Tecnologia, em que o talento do piloto volta a falar mais alto, depois de medidas que reduziram as diferenças técnicas entre as equipes.

E na Era da Tecnologia, o talento do inglês Lewis Hamilton o projeta como novo ídolo.

Mais maduro, Hamilton vem assumindo o protagonismo não apenas dentro do cockpit, mas também como agente social dentro do esporte.

Hexacampeão, o inglês pode igualar-se a Schumacher em número de títulos (já tem o dobro de títulos de seu ídolo, Ayrton Senna) e continuar a derrubar recorde atrás de recorde, tornando-se o maior piloto de todos os tempos – em termos estatísticos.

Ninguém sabe como seria o embate entre Senna e Schumacher, na transição da Era Romântica para a Era do Jogo de Equipe. Também não foi possível acompanhar uma disputa entre Schumacher e Hamilton, na transição do Jogo de Equipe para a Era da Tecnologia. Mas uma coisa é certa: Hamilton está se tornando um herói não apenas pelas vitórias, mas pela coragem de não se calar contra o preconceito. Foi firme e criticou duramente o policial branco que asfixiou, com o joelho, o americano George Floyd, nos Estados Unidos. O hexacampeão mundial de Fórmula 1 é o único piloto negro no grid em mais de 70 anos de competições.

Lewis Hamilton fez um textão no Instagram e seguiu com uma série de posts com o ativismo esperado de um campeão consciente do seu papel e da sua capacidade de influenciar pessoas para o bem. Em uma de suas publicações, o piloto afirmou que “sofreu danos irreparáveis” devido ao racismo. Na Fórmula 1, um mundo praticamente de brancos elitistas, poucos tiveram esta coragem. Com isso, Hamilton prova que é mais que um campeão, é uma pessoa que pensa num mundo com menos descriminação e mais igualdade.

“Não pense na cor da pele, pense na cor da mente. Somos todos humanos” (Hamilton).

Edwaldo Costa possui pós-doutorado pela ECA-USP e atualmente é jornalista do Centro de Comunicação Social da Marinha do Brasil