Tempos de rua, tempos de reportagem

“Os séculos passam, deslizam, levando as coisas fúteis e os acontecimentos notáveis. Só persiste e fica, legado das gerações cada vez maior, o amor da rua”

Por Gustavo Longo

As belas palavras na epígrafe deste texto não são minhas, evidentemente, mas de João do Rio, pseudônimo de Paulo Barreto, um dos brilhantes cronistas que o Brasil já teve. Seu livro mais conhecido tem o sugestivo nome “A Alma Encantadora das Ruas” e, atualmente, serve de referência a jornalistas que sabem que a matéria-prima da reportagem está justamente lá fora, nas ruas.

Não se faz um bom jornalismo sem a percepção das demandas que emergem na sociedade. Em suma: é preciso ouvir o que as ruas querem, precisam e falam. Isso não é válido apenas para o repórter de cotidiano que cobre buraco na rua, como pejorativamente afirmamos em redações. Não, essa “alma” tem que estar presente nas demais editorias, de política a cultura, passando por tecnologia, saúde, economia e, claro, esportes.

A cobertura esportiva, por muito tempo, falhou com essa visão. É claro que as ruas querem saber notícias de seus times favoritos, mas é um erro pensar que apenas isso basta para atendê-los. Nos últimos anos, acompanhamos a redução cada vez mais significativa da reportagem na editoria de esportes, centrada, quando muito, no futebol masculino.

O foco sequer estava nos bastidores dos grandes clubes, no resgate de memória de grandes feitos esquecidos ou no aprofundamento dos detalhes que forjam as melhores equipes. O que se via aos montes eram boatos envolvendo as estrelas do esporte, comentários rasos sobre jogos realizados há dias e as intermináveis mesas-redondas, que apenas retroalimentavam essa estrutura comunicativa.

O jornalismo esportivo no Brasil precisava se reencontrar com as ruas.

A pandemia de covid-19 se mostrou um inesperado fator de mudança nesse sentido. De uma hora para outra, as principais competições esportivas foram suspensas e canceladas, clubes tiveram que interromper treinamentos e atletas ficaram literalmente parados. Sem jogos e boatos de atletas, os repórteres ficaram sem a (pobre) matéria-prima que conduzia seus trabalhos.

Para tapar o buraco e atender até mesmo os patrocinadores, a solução encontrada em um primeiro momento foi apostar em reprises e reciclar velhas histórias. Mas diante da continuidade da doença, era preciso encontrar uma alternativa rápida – e o bom e velho espírito da reportagem surge novamente como opção diante desta realidade.

Recentemente, escrevi com meu orientador Luciano Maluly uma crônica para o site Ludopédio que elencava os motivos que colocam o tempo em que vivemos como crucial para repensar o jornalismo esportivo. É um consenso que ganha força a partir da necessária ampliação da pauta e, principalmente, de fontes que possam trazer as demandas das “ruas”.

Diante das incertezas provocadas pela covid-19 no ambiente esportivo, educadores físicos, médicos e cientistas começaram ganhar espaço, ainda que timidamente, na cobertura esportiva de meios especializados. As grandes histórias também passaram a ter mais destaque, principalmente com nova roupagem midiática por meio de podcasts, webvídeos, infográficos e galerias de imagens.

Quer exemplos? O UOL possui uma seção específica para “Reportagens Especiais”, alimentado quase que diariamente com histórias que debatem ciência, história, racismo, cultura, entre outros temas que estão aí, nas ruas, mas eram ignorados pelo jornalismo esportivo. Já o GloboEsporte.com (rebatizado como GE) tem uma página exclusiva para podcasts que ampliam a cobertura de clubes de futebol e outras modalidades. O portal Olimpíada Todo Dia traz conteúdos inovadores, como blogs, webséries e uma atuação ativa nas redes sociais para noticiar o esporte olímpico e paralímpico.

É paradoxal pensar que esse ode à rua torna-se necessário justamente em um cenário de pandemia. O avanço do novo coronavírus obrigou a adoção de quarentena e isolamento social, medidas mais eficazes antes do desenvolvimento de vacinas e medicamentos a uma doença ainda incerta. Mas aqui tratamos a rua como metáfora, um espírito que deve fazer parte da práxis jornalística. As ferramentas digitais estão aí, basta usá-las adequadamente para ir atrás das histórias.

Se a notícia é a “construção social da realidade”, como preconiza o pesquisador espanhol Miquel Rodrigo Alsina, então o jornalismo esportivo não pode mais ficar alheio a essas questões. A pandemia mostrou à área que é preciso ampliar a visão do que é o esporte na atualidade. Não se trata apenas de competição, do jogo e da vida privada dos campeões. É também a busca por criatividade, esforço e bem estar nas relações humanas. Saber o que interessa a nossa comunidade antes de pensarmos nas grandes ligas e competições no exterior.

Vivemos tempos de reportagem, afinal. Resta saber o que será do jornalismo esportivo brasileiro quando a pandemia passar e o mundo voltar a sua rotina. Estaremos prontos para ampliar a pauta e a cobertura jornalística dentro do esporte ou iremos retornar ao modelo simples, mas desgastado, de olhar apenas dentro das quatro linhas?

Gustavo Longo é jornalista especializado em cobertura esportiva e Mestrando no Programa de Pós-graduação em Ciências da Comunicação na ECA/USP