“Acredito que o esporte transforma a vida das pessoas”, diz Evani Calado, a brasileira campeã paraolímpica de bocha

Por Edwaldo Costa

Vaidosa, dona de um sorriso especial, delicada e com a determinação de uma vencedora, essa é Evani Soares da Silva Calado, Evani Calado, 31 anos, hoje uma das mais prestigiadas paratletas brasileiras. Pernambucana, nascida na cidade de Garanhuns, se mudou para São Paulo ainda na infância

– Passei minha infância metade lá (Pernambuco) e metade aqui em São Paulo. Eu pegava as maquiagens da minha mãe escondida e me maquiava sozinha e a maquiagem é hoje um dos meus hobbies.

Para além da maquiagem, Evani se graduou em Comunicação Social – Publicidade e Propaganda e foi em 2010, durante o período em que cursava faculdade, que recebeu o convite para praticar bocha.

– Comecei através de um convite de duas professoras do curso de Educação Física da faculdade em que eu estudava, esse convite foi para um projeto de inclusão de pessoas com deficiência na pratica da modalidade.

Evani conta ainda que nesse período sua vida social era diferente, resumindo-se em ir para faculdade e voltar para casa. Foi através do esporte que essa rotina foi modificada. Quando recebeu o convite, relutou, imaginava que não queria.

– Eu não tinha convivência com outras pessoas com deficiência, achava tudo aquilo recreativo.

Essa percepção sobre a modalidade da bocha mudou quando em 2011 Evani conheceu outro campeão olímpico, o paratleta  Antônio Leme (o Tó). 17×0, esse foi o placar que virou o jogo para Evani. Depois de perder para o Tó, ela fez da bocha uma paixão. Além do Tó outro paratleta também serviu de inspiração o Dirceu José Pinto, que deixou um grande legado de vitórias e foi um dos grandes responsáveis pela divulgação da bocha no Brasil.

Representando a Associação Paradesportiva Todos, desde 2010 e fazendo parte da equipe Paraolímpica de Bocha desde 2016 ela já conquistou a Medalha de ouro por Pares (modalidade em duplas) nas Paralímpiadas no Rio 2016, Ouro por Pares na Copa América em 2017 e 2019, Ouro por Pares no Open Mundial em 2018, Ouro no Brasileiro de Pares e equipes em 2015 e campeã Brasileira individual em 2019. E ela não quer parar por aí.

– Quero participar de mais uma Paralímpiada, falta um ParapanAmericano e também a divisão de gênero de todas as formas, individual e em pares e equipes com o retorno da obrigatoriedade do atleta BC3 com paralisia cerebral nos pares.

Comprometida com o esporte ela apoia o adiamento dos Jogos Palímpicos de Tókio, entendendo que a grandiosidade do evento poderia colocar a saúde de muitos em risco. Também apoia a mudança que vai ocorrer no próximo ano, em que a bocha deixará de ser uma competição mista e passará a ser dividida em gênero nas disputas individuais, ficando mista para as competições de pares e equipes.

– A divisão por gênero será um grande ganho para a modalidade! Hoje muitos atletas de ponta ficam de fora de uma seleção pela obrigatoriedade feminina e fazendo a divisão será mais justo. Terá mais oportunidade de medalhas em várias competições inclusive nas Paralímpiadas e terá mais oportunidade para vários atletas de ambos os gêneros.

Se reinventando durante a Pandemia, Evani continua seu treinamento esportivo com a mesma determinação. O espaço reduzido da garagem de casa transformado em lugar de treino tem servido de inspiração para muitos. Super ativa no Instagram e participando de lives ela tem contribuído para evidenciar a bocha tanto no Brasil como em todo o mundo, tendo uma grande repercussão nas redes sociais.

– Participar das lives está sendo uma experiência diferente para minha carreira, sempre fui muito tímida com câmeras, mas rompi essa barreira para divulgar a modalidade. Essa Pandemia me deu oportunidade de divulgar a bocha para o maior número de pessoas possível e esse é o meu objetivo.

Além de ter fôlego para todas essas realizações no esporte, ainda planeja realizar um grande sonho junto a sua família que sempre a apoiou.

– Eu tenho um sonho de levar meus pais para um passeio para fora do país.

Evani acredita na importância do esporte na vida das pessoas, como uma fonte de transformação social.

– Depois do esporte eu tive liberdade e autonomia, eu nunca tinha saído de perto dos meus pais e através do esporte eu consegui essa autonomia. Então acredito que o esporte transforma a vida das pessoas.

Edwaldo Costa possui pós-doutorado pela ECA-USP e atualmente é jornalista do Centro de Comunicação Social da Marinha do Brasil