Almirante artilheiro do Botafogo

Por Edwaldo Costa e Thiago Cristiano Muniz Santos

Benjamin de Almeida Sodré, Almirante Benjamin Sodré, nascido em 10 de abril de 1892 na cidade de Macejana no Ceará, foi filho de Lauro Nina Sodré e Silva, ilustre político e militar abolicionista. Mudou-se ainda na infância para o Rio de Janeiro, à época capital do Brasil. No Botafogo, time no qual fez carreira no futebol, era conhecido como Mimi Sodré.

Atleta que combinou o gramado com as ondas do mar, a habilidade de liderança com o escoteirismo. Mimi Sodré foi um ponta-esquerda de qualidade, quando avançava no ataque era como uma onda que crescia forte e arrebentava num gol certeiro. Junto com a formação botafoguense de 1909, deu ao clube carioca o título de O Glorioso.

Defendendo as cores alvinegras da Estrela Solitária, foi campeão do quinto Campeonato Carioca de Futebol em 1910, quando o Botafogo conquistou pela segunda vez este título. Mas foi em 1912 que “Mimi Sodré” brilhou, foi o artilheiro com 12 gols, levando o Botafogo a seu terceiro título carioca. Esteve na Seleção Brasileira entre 1910 e 1916 na chamada Era Prata e Pré-Seleção.

Ainda em 1910, ano de seu primeiro Campeonato Carioca com o Botafogo, o jogador ilustre decidiu dar uma “guinada” em sua vida, foi quando prestou concurso para a Escola Naval (mais antiga instituição de Ensino Superior do Brasil e órgão de formação de oficiais da Marinha do Brasil) tendo sido aprovado em primeiro lugar na prova de seleção.

Em 1913, na Escola Naval, tornou-se presidente da Sociedade Acadêmica Phoenix Naval (Associação dos Aspirantes responsável por desenvolver as atividades extra-classe). Nessa época a Seleção Brasileira estava em seus primórdios. O Campeonato Carioca ficou com o América e, Botafogo e Flamengo dividiram o vice-campeonato. É nesse ano que Sodré vive sua primeira grande experiência marinheira, quando tripulante do rebocador Guarani vivencia o abalroamento com navio mercante Borborema, tornando-se náufrago e tendo que usar de sua habilidade de trabalhar em equipe; e sua liderança – atributos de um bom atleta de futebol e um bom marinheiro – para sobreviver a este imenso desafio extra-campo. Depois disso, foi nomeado segundo-tenente em 1914, mesmo ano em que a Seleção Brasileira foi oficialmente fundada.

Em 18 de julho de 1916, Benjamim Sodré torna-se o primeiro jogador do Botafogo a marcar um gol pela Seleção Brasileira, justamente o gol da vitória por 1×0 sobre o Uruguai, no Parque Central, em Montevidéu, em jogo válido pelo Campeonato Sul-Americano. Mas o atacante, de baixa estatura e de chute colocado, que sempre agiu com transparência e lealdade quando fez o gol, aos 22 minutos do segundo tempo, disse ao juiz que a bola tinha tocado em um dos seus braços antes de balançar a rede, mas mesmo assim, o árbitro considerou o toque involuntário e validou o gol.

Segundo o jornalista Mario Filho era comum os companheiros de time ficarem furiosos com ele porque foram inúmeras vezes que Benjamin Sodré parou um contra-ataque do seu time por causa de seu caráter repleto de honestidade. Para Mimi Sodré uma partida de futebol não deveria ter juiz, apenas os bandeirinhas, para observar as saídas da bola pelas laterais do campo. Defendia que, conhecedor das regras, o atleta não deveria burlá-la, mas informar os seus erros. Mimi Sodré também pode ser considerado o pai do fair play (jogo limpo) no Fogão, já que para ele o lance limpo sempre foi mais importante do que três pontos.

Benjamin de Almeida Sodré, já um distinto oficial da Marinha, foi transferido em 1916 para Belém (PA), e lá passa a defender as cores do Paysandu. Benjamim Sodré foi o primeiro personagem da história bicolor a levantar um caneco como presidente e atleta, e até hoje deve ser um dos poucos que conquistou tal feito. Sempre corajoso e também empreendedor foi o responsável pela compra do estádio da Curuzu, no dia 5 de junho de 1920.. A partir dali o Papão, como é conhecido o time do Paysandu, passou a ter estádio próprio.

O esporte nunca atrapalhou a carreira militar de Sodré. Tornou-se Primeiro-Tenente em dezembro de 1917, Capitão-Tenente em abril de 1923 e Capitão de Corveta em outubro de 1933. Em 12 de maio de 1941, o então Comandante Benjamin Sodré tornou-se presidente do Botafogo, clube que defendeu e aprendeu a amar.

Exemplo de atleta disciplinado, eficiente e dedicado. Sua carreira na Marinha foi repleta de êxitos e conquistas. Como Contra-Almirante, em 1953, chefiou o departamento de Estudos da Escola Superior de Guerra (ESG), se dedicando também ao ensino de diversas disciplinas, sendo professor de Astronomia, Navegação e de História da Escola Naval. Comandou o 5º Distrito Naval de 1949 a 1951, já no ano de 1954, comandou o 1º Distrito Naval, no Rio de Janeiro (antigo Distrito Federal).

Dono de muitas facetas, Almirante Sodré – Mimi Sodré – foi grande divulgador do escotismo e recebeu dos escoteiros o título de O Velho Lobo, por ser um dos precursores, ao lado do fundador Baden-Power. Escreveu o Guia do Escoteiro (1925), obra fundamental do escotismo brasileiro, além de uma variedade de obras, como as que se dedicavam a educação extraescolar.

Também foi autor das obras técnicas : Organização e características das Forças Navais; A educação e a segurança nacional; Aspirações e interesses nacionais; Objetivos permanentes do Brasil; Educação extraescolar; Organização extraescolar; Organização do trabalho intelectual; A Marinha na nossa história; Tamandaré, Onze de junho, Lauro Sodré — vida, caráter e sentimento a serviço de um povo; Caderno do escoteiro; O dia da Pátria; Quinto centenário do infante D. Henrique e o Segundo centenário de José Bonifácio.

Almirante de Esquadra, homem das letras e do mar, devido sua importante obra escrita, presidiu o Cenáculo Fluminense de História e de Letras em 1961, também presidiu A Frente de Renovação Nacional e o Centro da Comunidade Luso-Brasileira. Promoveu a criação da União dos Escoteiros do Brasil, além de outros grupos de escoteirismo. É o patrono oficial da turma de 1985 do Colégio Naval e de 1991 da Escola Naval.

Almirante Sodré navegou num pensamento pedagógico que tinha como objetivo desenvolver verdadeiros campeões, para ele: “é isso educar, libertar o homem desde a infância da inferioridade da vida, levando-o a amar impressões superiores”. Intelectual botafoguense, o eterno Mimi Sodré, morreu no dia 01 de fevereiro de 1982, depois de ver o Botafogo ganhar vários títulos e o escotismo se espalhar por todo o Brasil. Ainda hoje, “O Velho Lobo” é uma referência para a Marinha, para o esporte e para toda a sociedade, merecedor de toda admiração e de muitas homenagens.

Edwaldo Costa possui pós-doutorado pela ECA-USP e atualmente é jornalista do Centro de Comunicação Social da Marinha do Brasil

Thiago Cristiano Muniz Santos é Capitão de Corveta  (Marinha do Brasil)