Terra de (todos os) gigantes

Por Gustavo Longo

No dia 25 de novembro de 2020, quando começaram a pipocar as primeiras notícias da morte de Diego Armando Maradona, surgiu a ideia deste texto. As homenagens que se seguiram a um dos maiores jogadores de futebol da história me fizeram pensar e refletir a grandiosidade que certos personagens possuem na relação entre esporte e meios de comunicação. Por isso resolvi esperar e aguardar toda a repercussão para ver se era possível mensurar a cobertura.

Contudo, nas duas vezes em que linhas surgiam no documento em branco na tela do meu computador, fui surpreendido com outras mortes de gigantes do futebol. Em 8 de dezembro faleceu Alejandro Sabella, igualmente argentino, e que lutava com problemas de saúde há algum tempo. No dia seguinte, o italiano Paolo Rossi, campeão do mundo em 1982.

Maradona e Rossi, evidentemente, dispensam apresentações. Cada um em seu estilo, ambos foram decisivos nos títulos mundiais de suas seleções e brilharam no futebol italiano, ganhando dois scudetti por Napoli e Juventus, respectivamente. Também foram carrascos do Brasil. Maradona em 1990, depois de enfileirar meio time brasileiro e passar para Caniggia fazer o gol da classificação nas oitavas. Rossi, bem, fez os três gols que eliminaram a seleção de Telê Santana na “Tragédia de Sarriá” na Copa de 1982.

Olhando o currículo destes dois gigantes, voltei minha atenção a Alejandro Sabella. Seria ele igualmente comparável a estes dois gigantes do futebol? Então por que a morte dele me abalou até mais do que a dos dois craques?

Sabella também foi jogador de futebol de relativo sucesso. Ganhou títulos no River Plate e no Estudiantes entre as décadas de 1970 e 1980. Jogou por duas temporadas na Inglaterra, primeiro no Sheffield United e depois no Leeds United. Foi bicampeão gaúcho pelo Grêmio. Mas em nenhum momento esteve entre os principais jogadores da seleção argentina.

Logo depois de encerrar a carreira, tornou-se auxiliar técnico de Daniel Passarella, cargo que exerceu por longos 18 anos (inclusive no Corinthians em 2005). Apenas em 2009 iniciou seu voo solo como treinador de futebol, aventura que durou até 2014. Mas foi justamente nesse período que Sabella mostrou sua grandiosidade – e de um jeito bem diferente do que outros personagens grandiosos.  

Sabella na final da Copa do Mundo de 2014: último (único?) treinador argentino a tirar o máximo de Messi na alviceleste (FIFA)

O técnico argentino mostrou que não é preciso acumular troféus para ser reconhecido como grande. Ele conquistou apenas dois títulos como treinador: a Libertadores de 2009 (após 39 anos) e o Argentino de 2010, ambos pelo Estudiantes. Mas foram duas derrotas que mostraram sua genialidade.

No Mundial de Clubes de 2009, enfrentando um Barcelona que tinha conquistado todos os títulos da temporada (Espanhol, Copa do Rei, Supercopa e Liga dos Campeões), Sabella esteve a três minutos de conquistar o título. Tomou o empate no fim da partida e viu o Barcelona levar a melhor na prorrogação (um desempenho muito melhor do que meu time, o Santos, teve contra o mesmo Barcelona no Mundial de 2011).

Quase cinco anos depois, na Copa do Mundo de 2014, ele já era o treinador da seleção argentina. Assumiu uma seleção em crise: eliminado em casa nas quartas de final da Copa América de 2011 e com Messi já questionado pelas atuações abaixo da média com a camisa alviceleste. Mas na base da conversa e da tática, a Argentina começou a jogar bem e só parou na final, novamente na prorrogação, dessa vez diante da Alemanha.

Mais do que o desempenho em si, Sabella mostrou sua grandiosidade nas derrotas por outro motivo: a educação e o respeito pelos jogadores, jornalistas e torcedores. Maradona impunha sua grandeza em tudo, na forma como se portava em entrevistas até na presença em estádios. Detestava ser contrariado (chegou a soltar um “que chupem todos” quando era técnico da Argentina, em 2009). Quando ele chegava, você sabia que estava diante de uma grande estrela.

Sabella não. Ele era a antítese de tudo isso. Acanhado, falava baixo, preferia a conversa ao pé do ouvido do que as grandes reuniões com os jogadores e jamais perdeu a linha – mesmo diante das constantes críticas que sofria por não convocar Carlos Tévez no período em que treinou a Argentina. Na entrevista após a final da Copa de 2014, manteve a serenidade mesmo diante do bombardeio de questionamentos. Dou dois exemplos para ilustrar:

  1. Quando entrou na sala de imprensa para a entrevista coletiva após a final, surpreendeu os jornalistas argentinos por utilizar a medalha de prata que recebeu na cerimônia da premiação. O motivo? Todos estavam acostumados a ver o segundo colocado retirar a medalha de prata por ter perdido a de ouro. “Esses garotos, depois de 24 anos, fizeram história chegando a uma final. Ganharam essa medalha. Não é a de ouro, mas ganharam a de prata”.
  2. Depois, o relato de Alex Sabino na Folha, mostra que na mesma entrevista coletiva um humorista brasileiro pediu para “decirme que se siente” (me diga como se sente), numa tentativa de piada com a música que os argentinos cantam sobre a rivalidade como o Brasil. Não teve suspiradas, olhares tortos e nem respostas atravessadas. Sabella apenas olhou para o autor da pergunta e respondeu normalmente.

Assim, diante da proposta inicial deste texto, vejo que Sabella era outro tipo de gigante, daquele que você só nota a grandiosidade quando ele parte deste mundo. Maradona era grandioso e fazia questão de lembrar a todos a dimensão que possuía. Não era o caso de Sabella. Não há igrejas, museus, jogos, revistas ou qualquer coisa em seu nome. Porque o legado que deixou não era ele próprio, mas o seu amor e respeito ao esporte.

Olhe, por exemplo, a homenagem de um hincha do Gimnasia y Esgrima, principal rival do Estudiantes, no dia seguinte à morte de Sabella:

Serve de lição a nós, jornalistas esportivos, principalmente neste mundo de pós-pandemia que se desenha no futuro. Grandes não são apenas os campeões ou grandes atletas que movimentam páginas e vídeos por conta do que fazem dentro e fora do campo de jogo. Igualmente grandes são aqueles que possuem o espírito e os valores do esporte em seu dia a dia, conseguindo ultrapassar rivalidades e atuando para melhorar a vida de seu povo.  

Maradona, Rossi e, sim, Sabella. O mundo se despediu de três gigantes que farão falta.

Gustavo Longo é jornalista especializado em cobertura esportiva e Mestrando no Programa de Pós-graduação em Ciências da Comunicação na ECA/USP